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Ginevre King: o grande amor de Scott Fitzgerald ou vítima de plágio?

Vitor Paiva - 24/02/2022 às 15:40 | Atualizada em 03/03/2022 às 10:20

O casal formado pelos escritores F. Scott Fitzgerald e Zelda Fitzgerald tornou-se um dos símbolos da chamada “Era do Jazz”, termo popularizado por Scott, que se refere ao período entre os anos 1920 e 1930, nos EUA, em que o estilo de música se popularizava e que a proibição do consumo de álcool no país tornou meras festas em eventos perigosos e proibidos e, por isso, sedutores e divertidos. Antes, porém, de fazer parte de um dos mais emblemáticos e complicados casais da história da literatura moderna, o escritor estadunidense cujo a famosa assinatura em sigla representa o nome Francis Scott Key Fitzgerald, apaixonou-se perdidamente por outra escritora: entre os anos de 1915 e 1917, seu coração estava ocupado pela jovem socialite Ginevra King, que serviu de musa inspiradora para diversos personagens da literatura de Scott nos anos seguintes – ou teria sido mais do que uma simples inspiração?

A jovem Ginevra King, no período em que se relacionou com Fitzgerald

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F. Scott Fitzgerald se apaixonou por King antes de publicar seu primeiro livro

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Nascida em Chicago, em 1898, King era filha de uma família rica que desprezava as origens de classe média de Scott. Aluna da escola de elite Westover, ela tinha 16 anos e um destino determinado quando, em 1914, conheceu F. Scott Fitzgerald, então um promissor estudante de 19 anos em Princeton, em uma festa: os dois apaixonaram-se perdidamente, para desgosto da família de King. O pai da jovem, o investidor Charles Garfield King, dizia para Fitzgerald que “garotos pobres não deveriam pensar em casar-se com meninas ricas”, e não media esforços para impedir que os dois jovens amantes ficassem juntos. Para saciar o desejo e sonhar livremente, os dois trocavam cartas e principalmente histórias escritas – contos e pequenas novelas nas quais podiam enfim viver o amor.

King era filha de uma família tradicional e rica, que foi contra seu primeiro amor

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A desilusão amorosa tornou-se elemento de toda literatura de Fitzgerald

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Desde sempre é sabido que Ginevra King foi a base para que Fitzgerald desenvolvesse personagens importantes de sua literatura, como Daisy Buchanan em “O Grande Gatsby”, e Isabelle Borgé em “Este Lado do Paraíso”, entre muitos outros – e que o relacionamento frustrado também foi fonte constante de inspiração para o autor. É nesse ponto, porém, que hoje se debate o quanto King representou mais do que a simples lembrança inspiradora de um coração partido: entre as histórias que trocavam imaginando o próprio amor, a jovem enviou para ele um conto, no qual imaginava a si mesma, em um casamento arranjado com um homem rico e para sempre desejando Fitzgerald, até que ele conquista sua fortuna e retorna, a fim de conquistá-la de uma vez.

F. Scott Fitzgerald e Zelda após se casarem em 1920

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Para além de parecer o enredo natural do mais sincero sonho da jovem à época, a questão que se levanta diante da história escrita por King é que se trata essencialmente da mesma premissa que Fitzgerald viria a utilizar em sua mais célebre obra, “O Grande Gatsby” – enviada ao autor por King em 1916, sete anos antes do lançamento do livro. Não há dúvidas, é claro, de que Fitzgerald efetivamente escreveu a obra em sua completude, nem de seu talento literário propriamente, mas o debate é intenso sobre o papel da escrita de King como um ponto de partida para Gatsby. A jovem que foi seu primeiro amor permaneceria para sempre como um paradoxal símbolo do ressentimento do autor contra a classe mais rica, e ao mesmo tempo a encarnação de seu encantamento e fascínio. Os dois se separariam em 1917, e a tristeza moveu Fitzgerald a se alistar no exército e lutar na Primeira Guerra Mundial, enquanto King, conforme previu em sua história, se casou com o milionário William Mitchell.

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F. Scott Fitzgerald viria a conhecer Zelda Sayre em um clube durante o ano de 1918 e, apesar de seguir procurando por Ginevra por alguns anos através de suplicantes cartas apaixonadas, três dias após o casamento da socialite com Mitchell, ele enfim começou um relacionamento oficial com Zelda, com quem se casaria em 1920, após o sucesso de seu primeiro livro, “Este Lado do Paraíso”, lançado no mesmo ano. O debate sobre um possível plágio do conto original de King se dá, é claro, a partir das acusações que Zelda viria a levantar contra o marido anos mais tarde, de que Fitzgerald usava páginas de seus diários e escritos em livros. F. Scott Fitzgerald viria a morrer aos 44 anos, em 1940; Zelda faleceria aos 47 anos, em 1948 – já King viveria até os 82 anos, falecendo em 1980 como a maior influência sobre a escrita de Fitzgerald, e uma importante personagem da literatura estadunidense.

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© fotos: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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