Diversidade

Janet Jackson e como o peso de um seio exposto no ‘Super Bowl’ caiu sobre as costas de uma mulher negra

Gabriela Rassy - 03/02/2022 às 09:04 | Atualizada em 04/02/2022 às 10:45

Janet Jackson acaba de lançar sua série documental nos Estados Unidos e as revelações reascenderam um tema evitado pela cantora ao longo dos anos: seu seio exposto por Justin Timberlake no show do intervalo do Super Bowl, em 2004.

Televisionada em rede aberta para todo o país, a apresentação da dupla no jogo final do campeonato da NFL, a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos, teve como desfecho Janet cancelada e Justin seguindo normalmente sua vida.

No show, o cantor abaixou o top de Janet ao final da música “Rock Your Body”. A ideia ali é que, ao cantar o verso “aposto que vou ter você nua até o fim desta canção”, ele tirasse apenas o top, deixando o sutiã. Mas Justin acabou puxando toda a peça, exibindo o seio da estrela pop para as milhões de pessoas que estavam assistindo o evento presencialmente e pela televisão.

O peso recai sobre Janet

A cantora evitou o assunto o máximo possível até que, em 2006, falou brevemente sobre o tema em entrevista à Oprah Winfrey. A apresentadora trouxe o caso dizendo que o órgão regulador da área de telecomunicações e radiodifusão dos Estados Unidos tinha recebido mais de 500 mil reclamações pela ocorrido no show de Janet e Justin Timberlake.

Na época, a cantora pediu desculpas publicamente, mesmo não sendo culpada pelo acidente, tudo por sugestão de seus empresários. “Toda a ênfase foi colocada em mim. E não no Justin. E Justin… Éramos amigos. E não que não sejamos agora; não temos nos falado. E eu o considero um amigo. Sou muito leal e as amizades são muito importantes para mim”.

O que aconteceu no mesmo ano e nos anos seguintes foi um linchamento midiático de Janet, especialmente por parte da CBS. O ex-presidente e CEO da rede de televisão, Les Moonves levou todo o escândalo para o lado pessoal, já que ele havia prometido à NFL que o show do intervalo seria apto para entretenimento familiar.

A NFL, por sua vez, negou relatos de que Janet recebeu uma proibição vitalícia para participar das apresentações – mas Justin quem foi convidado a voltar, com o tapete vermelho bem e verdadeiramente estendido, e Janet não tendo onde se apoiar, além de uma hashtag #JusticeForJanet.

Além das barreiras nos jogos e na CBS, o oitavo álbum de Jackson, “Damita Jo”, lançado alguns meses após o polêmico show, fracassou em meio à controvérsia, pois tanto a MTV e quanto o VH1 pareciam evitar reproduzir seus vídeos.

Os corpos das mulheres são campos de batalha. Quando não estão sendo excessivamente sexualizados dentro e fora dos programas de entretenimento, estão sendo assediados nas ruas, no transporte público e em casas e escritórios em todo o mundo. Então, como no caso de Janet Jackson, fica o lugar de vítima, mas não só. Fica também o do constrangimento público, da vergonha. É a dona dos seios que deve ser punida, e não a pessoa que fez com que um deles aparecesse.

Como a campanha de igualdade de gênero “Mamilos Livre” apontou tão sensatamente quando foi lançada em 2012, o que há de tão ofensivo no mamilo feminino? Aproximadamente metade da população mundial tem um par deles, eles são fonte de comida e nutrição para bebês, bem como prazer para adultos.

Campanha #freethenipple

Na verdade, os mamilos são tão incríveis que em um mundo ideal haveria santuários gigantes para as coisas mágicas e estimulantes que eles são. Porém, este não é um mundo ideal. Nesta semana vimos uma artista plástica brasileira ser algemada numa delegacia por ter feito topless em uma praia. Homens estavam sem camisa dentro da própria delegacia.

No caso de Janet, o peso é ainda maior por ser uma mulher negra. E pasme que nem seu posto de grande estrela pop a livrou do julgamento, da culpa e do cancelamento.

Agora, no recente documentário, ela fala sobre este e outros temas polêmicos de sua vida e também de sua família. Quem sabe um pouco de empatia não possa surgir, mas mais do que isso, que o debate se amplie para que outras mulheres não precisem mais passar por isso.

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Fotos: Reprodução/Janet Jackson


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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