Debate

Loja vende cerâmica de negros acorrentados como ‘lembrancinha’ em aeroporto de Salvador

Redação Hypeness - 07/02/2022 às 16:06 | Atualizada em 09/02/2022 às 10:37

Uma reportagem  da Rádio Metrópole revelou que uma loja localizada no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, em Salvador (BA), vende imagens de pessoas negras acorrentadas como souvenir por R$ 100.“Escravos de cerâmica  – R$ 99”, dizia, sem grande cerimônia, o anúncio.

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Esculturas que retratam uma das maiores tragédias da humanidade são vendidas como peso de papel em aeroporto em Salvador, a cidade mais negra fora da África

Hangar das Artes colocou as cerâmicas que mostram homens e mulheres negros acorrentados para vender ao lado de santos e outras imagens de adoração. As esculturas, que retratam o sofrimento dos africanos escravizados no Brasil, são vendidas para quem passa pelo principal aeroporto da Bahia, estado com a maior população negra do Brasil.

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As obras foram duramente criticadas nas redes sociais. O ativista Antônio Isupério reprovou o comércio dos adereços em um texto nas redes. “Você imagina que poderia ter um boneco de crianças judias em ‘forninhos’ para serem vendidas como adereços? Então, isso não acontece porque o repúdio à violência do Nazismo já está em domínio público, enquanto nós n*gros ainda estamos em processo de conquista da nossa humanidade”, disse.

O objeto também estava sendo vendida no e-commerce da loja, que, através de advogada se comunicou com a rádio baiana, afirmando que haters estavam atacando do Hangar das Artes.

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A representante legal do estabelecimento, que não se identificou, disse que a obra, pasmem, retrata a história do Brasil. “Não estou entendendo o porquê de tanto reboliço. É uma coisa que retrata a história do Brasil”, finalizou.

Turista chocado   

As imagens de homens negros acorrentados à venda no aeroporto da cidade mais preta fora da África foram clicadas por um turista. Ele, que deu entrevista ao G1, se disse chocado com o que via diante dos olhos. “Foi realmente muito chocante. Primeiro a sensação foi de choque e depois de indignação”, declarou o viajante ao portal.

Paulo Cruz é historiador do Rio de Janeiro, mas estava a passeio em Salvador, onde tem família pela parte da mãe. Ele disse que o clique foi feito no final da tarde de domingo (6).

“A imagem estava na prateleira central da loja, que fica de frente para o corredor onde passa as pessoas, estava identificada o nome ‘escravos’ e o preço embaixo. Além do tremendo mau gosto, uma questão nitidamente racista, porque é de mau gosto você colocar uma obra identificada como ‘escravos’ e com preço”, declarou Paulo Cruz ao G1.

Loja se manifesta 

A Loja Hangar das Artes publicou a já tradicional nota de repúdio, usada comumente em casos de racismo como o praticado pela instituição. De acordo com a mesma Rádio Metrópole, o estabelecimento se desculpa com “todos que se sentiram feridos e menosprezados pela maneira como conduzimos as coisas”, diz um trecho.

A Hangar das Artes disse ainda que “nossa intenção JAMAIS foi menosprezar, ferir ou destruir a imagem de uma entidade tão importante e a potência de sua história”.

Sobre ter achado de bom tom comercializar e lucrar com a imagem de homens negros acorrentados e descritos como escravos, a Hangar das Artes afirma que “erramos na forma como as peças foram expostas e em descrevê-las apenas como escravos, apagando, de certa forma, a história que carrega”, diz o texto, que insiste em um apagamento da identidade destas pessoas, que não vieram ao mundo na condição de escravas, mas foram vítimas de abusos que feriram os direitos humanos.

O assunto ainda deixa muitas dúvidas, já que segundo a Metrópole, as peças foram removidas da vitrine por uma determinação da Vinci, empresa que administra o aeroporto de Salvador.

“Apesar de não determinar a curadoria dos produtos vendidos por cada subconcessionário, a administração entendeu que era fundamental se posicionar nesse caso”, explica.

Confira a íntegra da nota emitida pela Hangar das Artes:

“A loja Hangar das Artes vem a público se retratar e esclarecer os fatos ocorridos na manhã de hoje (07/02/2022).

Trata-se de uma empresa que emprega inúmeras pessoas, atuante no mercado de artesanato e obras de arte há mais de 20 anos, comercializando e divulgando a confecção de obras de diversos artistas regionais, sempre incentivando a produção daquele pequeno artesão cujo seu sustento depende exclusivamente de sua arte.

Todas as obras que exibimos são voltadas para a exaltação da cultura e história baiana e brasileira. Nossa loja está localizada no Aeroporto de Salvador e sempre exaltou as diversas culturas, com ênfase na cultura africana, já que temos orgulho de demarcar que somos, provavelmente, a cidade mais negra fora de África. Sempre com muito respeito e admiração.

As imagens que estão circulando, de algumas de nossas esculturas, tratam-se da imagem do Preto(a) Velho(a) – espíritos que se apresentam sob o arquétipo de velhos africanos que viveram nas senzalas, majoritariamente como escravos, entidades essas que trabalham com a caridade e cuidam de todas as pessoas que os procuram para melhorar a saúde, abrir caminhos e ter proteção no dia a dia. Por isso, algumas das peças possuem correntes, na tentativa (ERRÔNEA) de retratar a história dessa entidade de maneira literal. Erramos na forma em que as peças foram expostas e em descrevê-los apenas como escravos, apagando, de certa forma, a história que carrega.

Pedimos nossas mais sinceras desculpas a todos que se sentiram feridos e menosprezados pela maneira como conduzimos às coisas. Nossa intenção JAMAIS foi menosprezar, ferir ou destituir da imagem de uma entidade tão importante e a potência de sua história. Nossas correntes foram quebradas! E não queremos de maneira alguma trazer de volta memórias desse passado tenebroso e vergonhoso.

Por isso, retiramos todas as peças de circulação afim de minimamente nos retratar diante do ocorrido. Sabemos que não se apaga o que foi feito, mas reconhecemos a nossa falha e não tornaremos a repeti-la, não só pela repercussão que houve e sim por não condizer com a nossa verdade.

Nossas sinceras desculpas pelo ocorrido”.

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Foto: Leitor/Metro1/Reprodução


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