Design

Nos anos 60, a Heineken criou uma garrafa-tijolo para fabricação de casas populares após o consumo

Vitor Paiva - 18/02/2022 às 15:51

Foi durante uma viagem a Curaçao, nos anos 60, que o empresário Freddy Heineken, então presidente da cervejaria holandesa que tem seu nome, teve uma ideia que, à época, parecia próxima da loucura, mas que hoje se confirma especialmente razoável e interessante, além de social e ambientalmente responsável. Diante da imensa quantidade de lixo que encontrou na ilha no Caribe – incluindo muitas garrafas verdes da própria Heineken -, e da falta de material de construção e de casas propriamente para as populações mais pobres na região, o CEO sugeriu a criação de um novo desenho e modelo para as garrafas da marca, para que pudessem ser reaproveitadas como tijolos de vidro.

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

A ideia era lançar o modelo ao mercado, para ser consumido antes de usado como tijolo

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Convencido da engenhosidade e da importância de sua ideia, Freddy então convocou o arquiteto John Habraken para desenhar a novidade: a solução encontrada foi projetar garrafas mais robustas e resistentes, fabricadas em formato retangular e com relevos especiais que ajudavam ainda mais a uma garrafa encaixar sobre a outra. O projeto levou três anos para ficar pronto, e ganhou o nome de Wobo, sendo apresentado e aprovado pela Heineken em 1963 – segundo os cálculos, mil garrafas Wobo eram suficientes para construir uma casa de 33 metros quadrados.

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

O desenho trazia ranhuras, formas e curvas especiais para seu upcycling

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

O desenho das garrafas Wobo foi pensado para um melhor encaixe e maior resistência

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O lançamento foi pensado e fabricado com garrafas em dois tamanhos, de 350 mm e 500 mm, que seguiam funcionando em seu sentido original, como recipientes para o consumo da tradicional cerveja holandesa, mas ganhando função nobre e sustentável e promovendo perfeitamente o upcycling, décadas antes desses conceitos serem efetivamente pensados ou levados a sério, após o consumo. A empresa então produziu 100 mil garrafas Wobo, e chegou a levantar uma construção próxima à casa de campo de Freddy Heineken, provando que o inovador projeto era também eficaz: de fato as garrafas funcionavam como material de construção.

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

A casa construída próxima ao sítio de Freddy Heineken, nos anos 60, como teste

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O projeto, porém, estava efetivamente à frente de seu tempo, e nunca chegou ao mercado – hoje o modelo de garrafa é encontrado somente no museu da cervejaria e nas mãos de colecionadores. O motivo, segundo consta, foi simplesmente a preferência dos consumidores, que não demonstraram interessados em deixar de consumir as garrafas arredondadas, nem ajudar na construção de casas para a população mais pobre de Curaçao ou do mundo. Curiosamente, ao longo das décadas as garrafas Wobo seriam citadas e celebradas diversas vezes em levantamentos sobre design e sustentabilidade como um projeto inovador e transformador – que, no entanto, nunca chegou a ser efetivamente realizado.

As garrafas Wobo, projetadas pela Heineken em 1963

Outra construção utilizando as garrafas Wobo como tijolos

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© fotos: Heineken International/Fast Company/Cabinet/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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