Futuro

O que é o movimento antitrabalho e como ele ganhou impulso com a pandemia

Vitor Paiva - 11/02/2022 às 09:57 | Atualizada em 15/02/2022 às 09:44

Se as críticas às relações de trabalho e as formas de exploração e desigualdade estabelecidas entre trabalhador e empregador existem desde que existem os trabalhos propriamente – e especialmente ao longo da modernidade exploratória dos últimos séculos –, a pandemia agravou tal quadro, e popularizou um grupo que justamente se opõe hoje à forma como os trabalhos funcionam. Baseados em ideais anarquistas e socialistas aplicados, porém, à realidade atual, o movimento conhecido como “Antitrabalho” cresceu consideravelmente nos últimos dois anos, ao ritmo em que também cresceram as terríveis condições de trabalho e a crise econômica global no contexto pandêmico.

O movimento antitrabalho cresce ao ritmo da degradação das condições profissionais atuais

O movimento antitrabalho cresce ao ritmo da degradação das condições profissionais atuais

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Uma reportagem da BBC teve acesso a uma comunidade intitulada r/antiwork, na plataforma Reddit que reúne atualmente 1,7 milhão de pessoas para não só dividir relatos sobre as condições de trabalho contemporâneas, como também pensar ações diretas baseadas no que o “movimento antitrabalho” defende. Engana-se quem pensa que os participantes advogam pelo simples fim de todas as formas de trabalho: segundo a seção de perguntas frequentes (FAQ) da comunidade, “o objetivo de r/antiwork é começar a conversar sobre a problematização do trabalho como o conhecemos hoje”, a partir de um sentimento global é de hostilidade contra “trabalhos que sejam estruturados com base no capitalismo e no Estado”.

Trabalhadora em Bangladesh

Trabalhadora em Bangladesh: a pandemia agravou as já terríveis condições em todo o mundo

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As perguntas essenciais seriam: qual o verdadeiro objetivo do trabalho? E do próprio sistema econômico que rege tais relações? Como se libertar do que chamam de “escravidão do salário”? Para quê seguir trabalhando de forma desumana essencialmente para fornecer lucros excessivos para poucos? Para além das críticas de base, o movimento e a comunidade funcionam oferecendo auxílio sobre direitos trabalhistas, negociação de melhores salários e condições de trabalho, dicas e apoios a movimentos grevistas, organizações trabalhistas, desigualdade salarial, falsos dilemas econômicos, além de oferecer formas e informações para que as pessoas possam advogar em causa própria. No Reddit, a comunidade também é fonte de links e textos sobre o tema, podcasts que tratam do movimento, assim como relatos diversos sobre exploração profissional e memes relacionados.

Grevistas nos EUA em 1967

Grevistas nos EUA em 1967…

manifestantes em greve em 2017

…e manifestantes em greve em 2017, também nos EUA

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O movimento e suas pautas não são causas novas, mas a pandemia agravou de tal forma as condições de trabalho – com demissões em massa ou redução nos salários e pagamentos aliadas a um aumento considerável na pressão e na quantidade de trabalho, além da incerteza e vulnerabilidade que vem levando os trabalhadores em todo o mundo a situações de estresse,  burnout, depressão e outros quadro clínicos derivados – que acabou atualizando o tema e o próprio movimento. Antes da pandemia, a comunidade tinha 100 mil pessoas mas, a partir de março de 2020, o crescimento saltou entre 20 a 60 mil novas participações por semana. A reportagem da BBC pode ser lida na íntegra aqui.

A reforma trabalhista no Brasil acabou com os poucos diretos trabalhistas que restavam

A reforma trabalhista no Brasil acabou com os poucos diretos trabalhistas que restavam aqui

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© foto 1: Getty Images

© fotos 2, 5: Flickr/CC

© fotos 3, 4: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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