Sustentabilidade

Passageiros que tentaram se salvar no topo de ônibus afundando em Petrópolis ainda estão desaparecidos

Yuri Ferreira - 17/02/2022 às 16:37 | Atualizada em 21/02/2022 às 10:36

As tragédias causadas pelas chuvas de terça-feira (15) na cidade de Petrópolis, região serrana no Rio de Janeiro, seguem sem solução. Imagens de redes sociais viralizaram mostrando passageiros tentando escapar da enchente em um ônibus que era carregado pelo rio. Algumas das pessoas que estavam no coletivo seguem desaparecidas.

Outras, porém, foram encontradas. Os motoristas dos ônibus dragados pela força das águas falaram sobre o que viram durante os momentos de pânico na cidade imperial. “Lançaram cordas em nossa direção, que foram amarradas nos ônibus e portões”, declararam os condutores Carlos Alberto Nascimento, de 52 anos, e Carlos Antônio Farias, de 45.

Tragédia em Petrópolis causou alagamentos, deslizamentos e até mortes dentro do transporte público

Os bombeiros seguem com as buscas pelos passageiros dos dois ônibus que ainda seguem desaparecidos. A corporação não conseguiu estimar a quantidade de pessoas que ainda não foram encontradas.

Foram registradas 117 mortes, com mais de 100 pessoas desaparecidas até o momento. O número de vítimas do desastre causado pela combinação de deslizamentos e enchentes na cidade serrana ainda é incerto pela quantidade de pessoas que não foram encontrados pelas equipes de resgate.

Por volta de 24 pessoas foram resgatadas com vida e 705 feridos estão em postos de saúde e hospitais de Petrópolis.

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Em uma das cenas mais aterrorizantes do pesadelo que tem assolado a cidade de Petrópolis desde terça-feira, é possível ver passageiros de um ônibus tentando se salvar da inundação.

Imagens fortes a seguir:

Em entrevista ao G1, um morador relata que busca seu irmão, que é uma pessoa com deficiência física. Ele estava dentro de um ônibus que foi carregado pelas chuvas.

“Ele mandou mensagem dizendo que o telefone dele tinha acabado a bateria, que o rio estava subindo, estava todo alagado. Mas, como ele mora nas imediações, ele já estava acostumado com isso. A água subiu de maneira muito forte e algumas pessoas conseguiram sair. Ele é deficiente físico e não conseguiu sair do ônibus”, disse o irmão do homem que está desaparecido.

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Outro momento que acaba exemplificando a dramática situação em Petrópolis foi a fala do jornalista Flávio Fachel, que não segurou a emoção ao falar sobre a dificuldade de realizar a cobertura de um desastre com estas proporções.

“Silvana, é muito dolorido o que a gente está vendo aqui. é impossível não se emocionar porque sabemos que tem gente aqui que ainda precisa ser resgatada. É muito difícil o que a gente está acompanhando aqui”, disse o jornalista.

“Logo que eu cheguei aqui, não fui dormir. Falei, fui atrás dessas equipes e as pessoas estão trabalhando de forma incansável, entraram a madrugada. Eles são unânimes ao dizer que não sabem onde as pessoas estão. É muito difícil a gente com o pé, na lama, a gente sente essa dor, essa energia, que toda a cidade de Petrópolis está sentindo”, completou.

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Veja o vídeo:

Poder público sabia do risco de deslizamento

Uma reportagem do UOL mostrou que o poder público de Petrópolis sabia dos riscos que envolviam as chuvas e os deslizamentos. Além disso, era fato conhecido que o Morro da Oficina, local onde ocorreu o principal deslizamento na cidade, tinha grande risco de desmoronar.

De acordo com o Plano Municipal de Redução de Riscos, mais de 27 mil imóveis em Petrópolis estavam em uma região considerada de risco alto ou muito alto e poderiam ser vitimados por tragédias ambientais.

Imagem mostra risco de deslizamento na região do Morro da Oficina

O estudo, comandado por uma empresa de engenharia a serviço da Prefeitura, mostra que a região do Morro da Oficina, onde ocorreu a tragédia, era a mais perigosa de toda a cidade.

O documento data de maio de 2017 e, desde então, poucas obras foram feitas na região para conseguir reverter a situação de risco ou ainda realocar os moradores do local para outras áreas com mais segurança. Além disso, as gestões municipais são criticadas porque os momentos de desastres ambientais anteriores não serviram para a construção de uma infraestrutura que proteja os moradores de Petrópolis desse tipo de tragédia.

“Outro fator contribuinte para uma certa leniência dos administradores públicos no trato do assunto é o caráter cíclico de ocorrência de catástrofes de maior severidade (1966/67, 1988, 2004 e 2011). Ou seja, após a ocorrência de uma catástrofe, vem a comoção, os recursos afluem para as obras de reconstrução, equipes são montadas, investimentos em Proteção e Defesa Civil são realizados. Entretanto, poucos anos depois, os esforços declinam até a estagnação”, diz o estudo.

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Fotos: Reprodução/TV Globo


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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