Ciência

Quem foi o casal de classe média pioneiro na experimentação de cogumelos psicodélicos

Vitor Paiva - 14/02/2022 às 10:07 | Atualizada em 16/02/2022 às 10:45

Alguém que olhasse o casal formado por Robert Gordon Wasson e Valentina Pavlovna Wasson de braços dados pelas ruas de Nova York no final dos anos 1950 pensaria se tratar de mais um típico e inofensivo casal da classe média dos EUA da época, formado por um banqueiro e botânico estadunidense e uma pediatra imigrante da Rússia, e nada mais. Uma reportagem publicada pela revista Life em maio de 1957, porém, viria a revelar o outro lado, que se tornaria o grande legado e o trabalho de vida do casal, através da vasta pesquisa que a dupla vinha realizando, e que mudaria o mundo e os colocaria como símbolos dos experimentos com drogas psicodélicas que marcariam tais tempos: foram Robert e Valentina que apresentaram ao mundo os efeitos dos chamados “cogumelos mágicos” – e as alucinações que o uso poderia provocar.

Robert Gordon Wasson e Valentina Pavlovna Wasson

Robert Gordon Wasson e Valentina Pavlovna Wasson trabalhando com cogumelos

-Humanos teriam evoluído de macacos que comiam cogumelos psicodélicos?

Intitulada “Em busca dos cogumelos mágicos”, a reportagem na revista pela primeira vez apresentou os cogumelos psicoativos a um grande público, a partir dos estudos que Robert e Valetina vinham realizando há décadas – detalhando principalmente os efeitos do uso dos fungos especiais, ilustrada com fotos das viagens do casal ao México, onde se deu grande parte da pesquisa. “Pela primeira vez, o êxtase ganha um significado verdadeiro”, ele diz, no texto. Uma semana depois, foi a vez de Valentina assinar um artigo, na revista This Week, intitulado “Eu comi os cogumelos sagrados”, relatando suas psicodélicas experiências – e assim, a psilocibina e outros fungos mais tornavam-se populares – e desejados – nos EUA e no mundo.

A reportagem da Life foi ilustrada com alguns dos cogumelos mágicos

A reportagem da Life foi ilustrada com alguns dos cogumelos mágicos

Robert junto aos pesquisadores mexicanos, selecionando cogumelos

Robert junto aos pesquisadores mexicanos, selecionando cogumelos, em página da reportagem

-Ele consumiu cogumelos da maneira errada e os fungos tomaram conta de seu sangue

O casal trabalhava como uma verdadeira equipe, mas quem primeiro trouxe o interesse pelo tema foi Valentina, enquanto Robert inicialmente tinha certa repulsa pelos fungos – a pesquisa dos dois teve início informalmente ainda em 1927. No México, em 1955, os dois se aprofundaram especialmente nos rituais Mazatecas que utilizavam os cogumelos psicodélicos, principalmente a partir do trabalho de uma curandeira chamada Maria Sabina, que mostrou os rituais para a dupla: o imenso interesse, principalmente a partir da cultura hippie dos anos 60, causou um processo intenso de procura e até mesmo invasão por parte dos jovens de então, que viria a impactar negativamente as tradições Mazatecas na região onde Sabina atuava, em processo pelo qual Robert viria a declarar arrependimento.

Maria Sabina junto a Robert no México

Maria Sabina junto a Robert no México

-A carta da esposa de Aldous Huxley após injetar LSD no marido em seu leito de morte

Robert e Valentina foram os primeiros “forasteiros” a participarem de um ritual Mazateca, bem como os principais nomes a popularizarem o uso direto dos cogumelos mágicos como drogas sagradas e alucinógenas. Assim, seus nomes se juntam ao do químico suíço Albert Hofman – que, em 1938, se tornou a primeira pessoa a isolar e sintetizar o LSD, bem como o primeiro a ingerir a substância, em 1943 – como os responsáveis pelo estabelecimento e a popularização das drogas psicodélicas e suas tantas derivações estéticas, éticas, políticas e artísticas a partir principalmente da segunda metade dos anos 1960. Valentina Wasson faleceu em 1958, Robert Wasson e, 1986 e Albert Hofman em 2008 e, além dos trabalhos pioneiros, todos tinham em comum a defesa, ao longo de suas vidas, do uso dos psicoativos para tratamentos em saúde mental, como possíveis medicamentos transformadores.

Robert Gordon Wasson em seu escritório

Robert Gordon Wasson em seu escritório

Publicidade

© fotos 1, 4: Facebook/Reprodução

© fotos 2, 3: Life/Reprodução

© foto 5: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Canais Especiais Hypeness