Inspiração

Rosa Parks: o ‘não’ que incendiou as ruas e ajudou a derrubar as leis segregacionistas nos EUA

Vitor Paiva - 21/02/2022 às 10:11 | Atualizada em 23/02/2022 às 10:23

Se a história do movimento pelos direitos civis e contra a segregação e a perseguição racial nos EUA é um dos mais importantes capítulos do século XX , isso também se deve ao gesto e à vida da ativista estadunidense Rosa Louise McCauley Parks.

Nascida no estado do Alabama, em 1913, Rosa Parks cresceu e viveu no contexto radicalmente racista e violento do sul dos EUA na primeira metade do século passado, e sua realidade já era marcada pela militância e a luta quando ela cravou seu nome na história, ao se recusar a ceder seu lugar para um passageiro de pele branca dentro de um ônibus – e assim incendiar uma série de boicotes e atos coletivos de resistência popular que mudariam a legislação do estado e dariam início ao processo da luta pelos direitos civis nos EUA, ao longo dos anos seguintes.

Rosa Parks em 1955 - ao fundo, o pastor Martin Luther King Jr.

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A recusa de Rosa Parks 

O ato de resistência de Rosa Parks aconteceu em 1 de dezembro de 1955, em Montgomery, no Alabama, cidade onde os ônibus eram segregados por lei desde 1900, com uma parte ao fundo do veículo separada para a população negra. Parks se recusou a levantar após o motorista James F. Blake ordenar que a ativista cedesse seu lugar para um passageiro branco pelo fato de a ala para a população branca no carro estar lotada.

Segundo revelou, Parks tinha em mente a indignação pela morte do jovem Emmett Till, brutalmente assassinado três meses antes, aos 14 anos, acusado de assoviar para uma mulher branca, quando decidiu dizer não. Diante da negativa, o motorista chamou a polícia, que levou Parks imediatamente presa, por violar a lei de segregação da cidade.

Retrato de Parks após ser presa

Retrato de Parks após ser presa

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Mesmo com a ativista atrás das grades, o sentimento provocado por seu ato se impôs mais livre do que nunca, e um importante movimento se iniciou imediatamente na região. Através de comunicados em sermões nas igrejas, de anúncios em jornais locais e da distribuição de milhares de panfletos convocando ao movimento, um imenso boicote dos ônibus por parte da população negra da cidade se iniciou, poucos dias após a prisão de Parks.

Se valendo de outras formas de transporte ou simplesmente andando até o trabalho – com os taxistas negros, por exemplo, apoiando o movimento e cobrando somente 10 centavos, o mesmo preço da passagem de ônibus, por viagem – o povo negro da cidade aderiu em massa ao boicote, que se revelou um sucesso – e um instrumento de revolução.

Martin Luther King ajudando a organizar o boicote, com Rosa Parks na primeira fileira

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Rosa Parks

A ativista, presa mais uma vez, em fevereiro de 1956

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Rosa Parks seria presa novamente, em fevereiro do ano seguinte ao lado de outras 73 pessoas, por organizar o boicote, que duraria 381 dias, até o fim de dezembro do ano seguinte, quando enfim a lei de segregação nos ônibus foi derrubada. O boicote foi oficialmente encerrado em 20 de dezembro de 1956, mas o movimento pelos direitos civis estava apenas começando, e ganhando dimensão federal e incontornável a partir de Montgomery.

Além de Parks, outro nome que se destacaria e se tornaria, a partir do boicote e do movimento, foi o do pastor Martin Luther King Jr., que chamou o êxito emMontgomery de “milagre”, e discursou brilhantemente durante a festa em celebração, para se tornar, a partir de então, uma das mais importantes lideranças na luta pelos direitos do povo negro no país e, assim, no mundo – e uma das faces reluzentes pela liberdade em todos os tempos.

Rosa Parks andando em um ônibus já integrado em 21 de dezembro de 1956, um dia após o fim do boicote

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Rosa Parks protestando contra o sistema racista da África do Sul em 1984

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Como também se tornou sinônimo da luta antirracista e pela liberdade negra a face de Rosa Parks, que seguiria atuando como militante por toda sua vida, sendo reconhecida, celebrada e condecorada por sua inestimável participação no processo de derrubada das leis racistas dos EUA. Parks faleceu em 24 de outubro de 2005, aos 92 anos.

No seu aniversário, em 4 de fevereiro, alguns estados celebram o Dia Rosa Parks, em sua memória, enquanto outros honram sua história a cada 1 de dezembro, lembrando a data de sua prisão – do simples ato de resistência que alterou para sempre o curso de tantas páginas tão sombrias da história.

Rosa Park em 1993

Rosa Park em 1993

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© fotos 1, 2, 4, 5, 7: Wikimedia Commons

© fotos 3, 6: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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