Arte

Samba do Trabalhador resiste à tentativa de censura com música

Vitor Paiva - 04/02/2022 às 10:24 | Atualizada em 07/02/2022 às 10:33

O samba é uma expressão essencialmente negra e popular e, como toda força cultural profunda, é também necessariamente um importante e inevitável elemento de afirmação e resistência política. Assim, causou espanto a nota emitida pelo Renascença Clube, contrária às manifestações que tradicionalmente acontecem durante o Samba do Trabalhador, uma das mais tradicionais e populares rodas de samba do Rio de Janeiro, que ocorre nas dependências do clube, no bairro do Andaraí, Zona Norte da cidade.

Antes da nota ser apagada das redes sociais, o comunicado afirmava que, de acordo com o estatuto do clube, seria “vedado promover em suas dependências qualquer manifestação de caráter politico-partidário”. Tudo por conta dos onipresentes gritos de “Fora, Bolsonaro”, que invariavelmente tomam conta do público às segundas-feiras, quando acontece a roda de samba no local.

O Samba do Trabalhador acontece desde 2005, como um ponto de encontro e festa, mas também de resistência

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A nota do Renascença Clube trouxe intensa repercussão negativa, especialmente entre a classe artística e os frequentadores da roda, e foi amplificada para além das fronteiras brasileira, noticiada em reportagem no jornal inglês The Guardian, assinada pelo jornalista Tom Phillips. A celeuma levou o clube a apagar o primeiro comunicado e emitir uma nova nota, reiterando sua posição apartidária, mas se colocando “em apoio ao direito à democracia”, afirmando que jamais cercearia a liberdade de expressão dos artistas e frequentadores do Samba do Trabalhador.

“O samba é a voz do povo e surgiu a partir da resistência! A sua atuação política apartidária não o desqualifica ou, muito menos, o afasta da luta pelo fim de desigualdades e preconceitos”, diz a nota, que lembra que os dirigentes do clube, no entanto, em respeito ao estatuto, não podem emitir “opiniões político-partidárias”.

Moacyr Luz e a banda do Samba do Trabalhador

Moacyr Luz e a banda do Samba do Trabalhador

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Resistência negra 

De acordo com a matéria do The Guardian, entre os frequentadores e músicos da roda o posicionamento inicial do clube foi visto como fruto da pressão de apoiadores de Jair Bolsonaro entre os membros do conselho. A posição, no entanto, contraria a própria história do Renascença, que alcança 70 anos como um local de resistência negra.

A primeira nota apontava essa origem, lembrando que o clube foi criado por “fundadores negros da classe média carioca” que buscavam lutar contra a discriminação em um espaço “dedicado ao samba e às tradições afrodescendentes”. Desde 2019 que o Samba do Trabalhador costuma encerrar suas apresentações com o samba-enredo ‘Histórias Para Ninar Gente Grande’, da Mangueira, que venceu o carnaval daquele ano homenageando ícones da resistência negra, como a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018: é nessa hora que os cantos pedindo o fim do governo Bolsonaro costumam ganhar maior adesão.

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Liderado pelo sambista Moacyr Luz, o grupo Samba do Trabalhador publicou em suas redes sociais uma nota de esclarecimento diante do ocorrido. “O samba, em sua essência, sempre foi um ato de resistência. Um lugar onde aqueles que nunca tiveram voz passaram a poder se expressar através da arte”, diz o texto.

“Por aqui, seremos sempre apreciadores incansáveis da liberdade da expressão, e contra qualquer tipo de censura”, conclui a nota, assinada pelos músicos Moacyr Luz, Gabriel Cavalcante, Alexandre Marmita, Nego Alvaro, Luiz Augusto, Nilson Visual, Junior de Oliveira, Mingo Silva, Daniel Neves e Jacqueline Marttins. A reportagem de Tom Phillips para o Guardian pode ser lida, em inglês, aqui.

O Clube Renascença fica na Rua Barão de São Francisco, 54, no bairro Andaraí, zona norte da cidade, e o Samba do Trabalhador acontece às segundas, a partir das 16h.

O clube "corrigiu" seu posicionamento na segunda nota

O clube “corrigiu” seu posicionamento na segunda nota

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© fotos 1, 3: Facebook/Reprodução

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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