Arte

Segurança entediado desenha olhos em quadro vanguardista de mais de 1 milhão de dólares

Vitor Paiva - 24/02/2022 às 15:42

Cobrir uma folha de papel com desenhos impensados, formas geométricas aleatórias, figuras humanas engraçadas ou simplesmente com rabiscos bagunçados é um recurso bastante utilizado para combater o tédio em qualquer lugar do mundo. Na cidade russa de Ecaterimburgo, porém, um segurança de uma galeria de arte decidiu ir bastante além, elevando a inofensiva prática de desenhar para passar o tempo ao nível do vandalismo – e ao custo de uma pequena fortuna. Em uma circunstância apontada pelo diretor da galeria como de “algum tipo de lapso de sanidade”, o entediado segurança decidiu superar os limites do papel e desenhou dois pequenos círculos na superfície de um quadro exposto no local – cujo valor do seguro está estimado em cerca de 1,4 milhão de dólares, ou 7,1 milhão de reais.

“Três figuras”, quadro da artista russa Anna Leporskaya, na galeria - antes da "intervenção"

“Três figuras”, quadro da artista russa Anna Leporskaya, na galeria – antes da “intervenção”

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A obra é a tela “Três figuras”, peça de vanguarda pintada pela artista russa Anna Leporskaya entre os anos de 1932 e 1934, que mostra, como o nome sugere, três personagens com contornos humanos, porém sem qualquer traço ou semblante no lugar da face: são três figuras sem rosto. Ou assim eram, até o segurança, que não teve sua identidade revelada e se encontrava em seu primeiro dia de trabalho, decidir literalmente contornar a ideia original da artista, e desenhar bolinhas nos rostos feito fossem olhos em dois dos três personagens do quadro. O incidente ocorreu em dezembro de 2021, na Boris Yeltsin Presidential Center, e foi primeiro notado por dois visitantes que, incrédulos, imediatamente avisaram à equipe da galeria.

“Três figuras”, quadro da artista russa Anna Leporskaya, na galeria -antes da "intervenção"

No detalhe, os “olhos” desenhados na tela pelo segurança

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De acordo com comunicado publicado por Alexander Drozdov, diretor executivo do Yeltsin Center, o segurança trabalhava para uma firma privada, contratada para justamente proteger as obras no local, e foi imediatamente demitido – a decisão inicial do Ministério de Assuntos Interiores da cidade, a quem a denúncia foi reportada, em 20 de dezembro, foi de não processar o segurança, já que os danos sobre o quadro se revelaram “insignificantes” após avaliação. De acordo com a imprensa local, o desenho não foi feito com grande pressão contra a superfície da tela, e por isso as pinceladas e a própria tinta do quadro não foram danificadas.

Boris Yeltsin Presidential Center

O Boris Yeltsin Presidential Center, em Ecaterimburgo, na Rússia

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A falta de maiores ações por parte das autoridades, porém, tornou-se imediatamente alvo de crítica da imprensa e do Ministério da Cultura, e por isso uma investigação foi iniciada, que pode levar o segurança à ser preso por até três meses, e ter de pagar uma multa. De acordo com o comunicado, apesar do dano ser completamente reversível, a restauração do quadro será realizada a um custo de cerca de 4,6 mil dólares, equivalente a cerca de 23,6 mil reais. A investigação concluiu que o segurança utilizou uma caneta da própria galeria para realizar sua intervenção.

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© foto 1: Boris Yeltsin Presidential Center

© foto 2: Boris Yeltsin Presidential Center/Art Newspaper Russia/reprodução

© foto 3: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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