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The Fisk Jubilee Singers: a trupe de músicos afro-americanos que tocou no Taj Mahal em 1889

Vitor Paiva - 24/02/2022 às 15:40 | Atualizada em 03/03/2022 às 10:20

A história da música popular no ocidente, principalmente nos EUA e no Brasil, é a história da música negra, e das canções cantadas por escravos, trabalhadores e populações mais pobres, transpostas para os palcos e os ouvidos de todos. Em meados do século XX, a música negra tomaria de assalto os Estados Unidos e, então, o mundo, mas muito antes da explosão do Jazz, do Rock, do R&B, do Soul, do Funk e de tantos mais, houve o The Fisk Jubilee Singers, um grupo vocal especializado nos spirituals afro-americanos que, no final do século XIX, viajou pelo mundo, lotando teatros e disseminando suas musicalidades pelo globo em pleno final do século XIX – chegando a se apresentar até mesmo no Taj Mahal, na Índia. Curiosamente, o Fisk Jubilee Singers existe até hoje, e segue cantando pelo mundo.

Uma das primeiras fotos dos Fisk Jubilee Singers, na década de 1870

Uma das primeiras fotos dos Fisk Jubilee Singers, na década de 1870

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O grupo foi formado em 1871 por George Leonard White, tesoureiro e diretor musical da Fisk University, universidade para alunos negros em Nashville, no Tennessee, com o intuito de arrecadar fundos para a instituição. Reunindo quatro alunos homens e cinco alunas mulheres, a trupe musical cantava principalmente os spirituals, estilo inicialmente interpretado por escravizados nos EUA, que depois seria transportado para as igrejas do país, em canções majoritariamente religiosas, até chegar aos palcos – e às apresentações do Fisk Jubilee Singers. As primeiras turnês do grupo aconteceram pelos EUA, acompanhados de um pianista, aos poucos conquistando grande público no país. O sucesso trouxe a concorrência de outros grupos semelhantes e, com isso, a banda decidiu alçar voos maiores, e realizar turnês internacionais.

Fisk Jubilee Singers

Grupo em 1875, durante época em que realizaram grande turnê pela Europa

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Entre 1873 e 1878, o grupo viajou por países como a Inglaterra, a Irlanda, Suíça, Holanda, Alemanha e mais, sendo aclamado pelo público e a crítica. Apesar de arrecadar grandes quantias, que ajudaram a manter e até expandir a universidade, foi o sucesso que fez com que a instituição decidisse desligar as relações com o Fisk Jubilee Singers, temerosa de que, por conta das viagens, o custo se tornasse maior que o lucro. George White, porém, decidiu seguir com o grupo e em viagem, iniciando, em 1884, uma grande turnê global que duraria seis anos, e que atravessaria multidões pela Nova Zelândia, a Austrália e a Ásia, chegando, a diversas cidades de toda Índia e, enfim, ao Taj Mahal, o famoso castelo e mausoléu localizado em Agra, na Índia, construído pelo imperador Shah Jahan em memória de esposa Aryumand Banu Begam no século XVII, e que se tornaria o mais famoso e visitado edifício de toda Índia.

Fisk Jubilee Singers

Cartaz de uma das muitas apresentações dos Fisk Jubilee Singers pela Índia

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Enquanto a turnê pela Índia lotou teatros e reuniu a atenção popular em todo o país, a apresentação do grupo no Taj Mahal foi completamente informal, a partir de uma simples visita para que conhecessem o local. Quando se encontravam dentro da câmara contendo o sarcófago do imperador e sua esposa, a trupe percebeu a maravilhosa acústica da construção, e simplesmente começou a cantar, oferecendo um verdadeiro show a todos os presentes que, segundo cobriu a imprensa local, jamais esqueceriam o que assistiram. Após os shows na Índia, eles ainda viajariam a Singapura, Hong Kong, Xangai e ao Japão, antes de voltarem aos EUA em pleno reconhecimento. Desde então e até hoje o Fisk Jubilee Singers é um dos mais celebrados e premiados grupos musicais do país, reconhecido como um tesouro da cultura estadunidense, e um dos primeiros fenômenos musicais internacionais da modernidade.

Fisk Jubilee Singers

Uma formação recente do Fisk Jubilee Singers, em 2012

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© fotos: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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