Diversidade

Vilma Reis: quem é a socióloga baiana que jogou a real sobre repulsa do Brasil com imigrantes negros

Vitor Paiva - 14/02/2022 às 14:34

O hediondo assassinato do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, morto por espancamento coletivo aos 24 anos em um quiosque na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, deixou clara a diferença no tratamento que a sociedade brasileira oferece a imigrantes negros em relação aos europeus e estadunidenses brancos que chegam ao Brasil.

O significado da postura racista e persecutória com a qual Moïse foi tratado quando cobrava o pagamento de um salário que era seu por direito é uma das muitas reflexões que a socióloga baiana Vilma Reis ofereceu, em entrevista recente à Folha de São Paulo, sobre o crime ocorrido no último dia 24 de janeiro. “O racismo no Brasil não é um racismo de origem, é um racismo de marca. E nós, a população [negra], nós carregamos as marcas em nosso corpo”, afirmou.

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“Um país que se vangloria tanto de ser aberto e comunicativo, o Brasil tem tido uma postura racista, criminalizadora e repulsiva com os imigrantes pobres. E pela história que está colocada para nós, são os nossos irmãos africanos: angolanos, congoleses e nigerianos”, disse Reis.

O caso deflagra, portanto, o quanto no Brasil a xenofobia é diretamente ligada ao racismo – à cor da pele de quem a sofre – e não tanto à diferença na nacionalidade. Quando se refere ao fato de que o quiosque seguia funcionando enquanto Moïse era assassinado, Vilma Reis afirma haver um processo de desumanização de populações negras e indígenas como parte de um verdadeiro e terrível costume nacional. “Para aquele cliente ali não se tratava de uma vida, pois essa imagem de um homem negro, de pele preta, é desumanizada na mentalidade corrente o tempo inteiro”, afirma, na entrevista.

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A luta de Vilma Reis 

O trabalho e a própria vida de Vilma Reis são dedicadas a combater o racismo, incluindo em suas importantes atividades como professora, mestra e doutoranda em estudos africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de pesquisadora pelo Instituto Ceafro de Educação para a Igualdade Racial e de Gênero.

Respeitada por nomes como Angela Davis, ela é uma das mais importantes pensadoras do pensamento feminista e negro no Brasil de hoje. “Sempre que se pensa em um intercâmbio, se pensa na Austrália, na Nova Zelândia, nos Estados Unidos, na Inglaterra. Tem tantos países no mundo que falam inglês como a Nigéria, mas esse não é o lugar”, afirmou. “Isso treina todo o país para uma xenofobia em relação aos imigrantes empobrecidos, quando nós deveríamos ter uma postura de solidariedade e ajuda humanitária de forma permanente”, disse Vilma à Folha.

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A socióloga ocupou por dois mandatos o cargo de ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia, e lançou-se como pré-candidata à prefeitura de Salvador pelo PT, em 2020. “Vim do movimento estudantil, do movimento negro, do movimento de mulheres. Se a gente quer a juventude negra viva, isso passa por seguirmos com uma relação de envolvimento e formação. Em todos esses movimentos a juventude tem uma presença marcante e potente. Precisamos continuar por todos aqueles jovens que são humilhados e têm sua vida interrompida”, afirmou, no discurso de despedida da Ouvidoria, em 2019.

Sua atuação em defesa das mulheres e no combate ao feminicídio coloca Reis como um verdadeiro símbolo da luta mas também da esperança por um país mais justo, igualitário, menos violento e odioso – menos racista.

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© fotos: Facebook/Reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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