Debate

A incrível jornada de 800 crianças perdidas numa viagem pelo mundo por conta da guerra em 1918

Vitor Paiva - 11/03/2022 às 10:20

Diante de mais um triste momento em que a história se repete em seu sentido sombrio como vemos atualmente na Ucrânia, o incrível (e terrível) caso das quase 800 crianças que, no início do século passado, passaram mais de dois anos viajando para fugir de um conflito que assolava a região da Rússia onde viviam ajuda a ilustrar o quanto os horror da guerra se impõe sobre os mais inocentes. A situação teve início em maio de 1918, época na qual o país vivia os primeiros desdobramentos da revolução comunista, que sucedeu em outubro do ano anterior, e ainda sofria os estertores da Primeira Guerra Mundial, que só viria a se encerrar em novembro: 782 crianças deixaram a cidade de Petrogrado (Atualmente São Petesburgo), para uma “colônia de férias” na região dos Montes Urais, a cerca de 3,2 mil quilômetros de distância, quando uma violenta batalha impediu que voltassem pra casa.

Parte das crianças, durante o primeiro ano de fuga siberiana

Parte das crianças de Petrogrado, durante o primeiro ano de fuga

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O grupo inicialmente era formado por crianças e jovens entre 3 e 17 anos, que viajaram para uma colônia que, em verdade, funcionava como um “campo de nutrição para o verão”, a fim de ajudar a alimentar a juventude russa em um momento de imensa turbulência política, econômica e social no país. Nos acampamentos localizados nos Montes Urais, as crianças aprendiam a ler e escrever, acampavam, praticavam esportes ao ar livre, mantinham atividades artísticas e recebiam três refeições diárias, devidamente acompanhadas por monitores e professores. Em julho, porém, um conflito entre tropas Tchecas que retornavam dos campos da Primeira Guerra Mundial pela Rússia explodiu na região, isolando o grupo com pouco dinheiro, pouca comida, suplementos escassos e sem roupas apropriadas para o momento em que o inclemente inverno siberiano começava a se aproximar.

Exemplo de como funcionavam os acampamentos nos Montes Urais

Exemplo de como funcionavam os acampamentos nos Montes Urais

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Os pais dos jovens tentaram, por conta própria, trazê-las para casa, mas era simplesmente impossível atravessar um campo de batalha em pleno inverno com quase 800 crianças em segurança. Foi quando a Cruz Vermelha, instituição humanitária internacional de origem estadunidense que atuava na Rússia, decidiu ajudar, encontrando o grupo, oferecendo roupas quentes e provendo as necessidades e refeições diárias. Em 1919, porém, o conflito se aproximava cada vez mais do acampamento, e a Cruz Vermelha decidiu mover as crianças e professores inicialmente para o interior da Sibéria, e em seguida para Vladivostok, onde permaneceram até o ano seguinte. Em 1920, no entanto, a missão estadunidense iria encerrar as ações no extremo oriente russo e, com isso, a Cruz Vermelha deixaria o país: para não abandonar as crianças, a instituição pediu ajuda ao Japão, para mover o grupo para a França em um navio japonês.

A Cruz Vermelha encontrou o acampamento em 1918

A Cruz Vermelha encontrou o acampamento em 1918

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A viagem que originalmente tinha a capital francesa como destino, rapidamente se revelaria uma verdadeira jornada global, depois que, por orientação médica, a rota pelo Oceano Índico foi rejeitada, por conta do extremo calor. A embarcação Yomei Maru, carregando as bandeiras dos EUA e do Japão e uma legenda da Cruz Vermelha pintada em seu funil, rumou então pelo Pacífico, chegando primeiramente a San Francisco, nos EUA, e depois a Nova York, onde foi recebida por uma multidão de jornalista e pelo presidente Woodrow Wilson. A oposição militar entre França e Rússia fez com que o destino das crianças mudasse para a Finlândia, onde aguardariam o momento apropriado para driblarem a guerra e voltarem a seu país.

O navio japonês Yomei Maru em Nova York, em agosto de 1920

O navio japonês Yomei Maru em Nova York, em agosto de 1920

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Em outubro de 1920 o navio japonês atracou no porto finlandês de Koivisto, a dezenas de quilômetros da fronteira com a Rússia, de onde, aos poucos, as crianças foram sendo recebidas em postos de controle na fronteira por tropas soviéticas, para enfim retornarem para Petrogrado – e para casa. Os últimos estudantes cruzaram a fronteira em fevereiro de 1921, vários deles já tornados em adultos, depois de quase três anos – e de uma volta ao mundo para driblar a guerra.

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© fotos 1, 2, 3: Coleção Nacional da Cruz Vermelha/Biblioteca do Congresso dos EUA

© foto 4: The Arsenyev Primorye Museum 

 


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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