Inspiração

Aracy de Carvalho e a história da brasileira que teria ajudado judeus a escaparem dos nazistas

Vitor Paiva - 14/03/2022 às 10:11 | Atualizada em 16/03/2022 às 10:52

O título de “Justo entre Nações” é oferecido pelo Museu do Holocausto, em Israel, a não judeus que ofereceram ajuda e protegeram vidas durante a Segunda Guerra e a perseguição nazista. Somente duas pessoas nascidas no Brasil já receberam tal honraria: o diplomata carioca Luiz Martins de Souza Dantas, que contrariou a política do governo de Getúlio Vargas e concedeu diversos vistos a judeus e outras minorias ameaçadas enquanto era diplomata na França, e Aracy de Carvalho, apelidada de “O Anjo de Hamburgo”, que também ofereceu ajuda e visto para que judeus pudessem fugir para o Brasil durante o período. A história de Aracy inspirou a série Passaporte para Liberdade, lançada em 2021.

A paranaense Aracy de Carvalho é a única brasileira reconhecida como "Justa entre Nações"

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Nascida em Rio Negro, no Paraná, filha de uma alemã com um brasileiro, Aracy falava português, inglês, francês e alemão fluentes quando migrou para a Alemanha com seu filho ainda pequeno, após se separar de seu primeiro casamento – por ser poliglota, ela logo conseguiu uma colocação no consulado brasileiro em Hamburgo, onde se tornou chefe da sessão de passaportes, e de onde viria a ajudar os judeus e judias que buscavam fugir da ascensão nazista e do endurecimento da perseguição antissemita na Alemanha de então. No consulado ela também conheceria o grande autor brasileiro João Guimarães Rosa, que atuava como cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, com quem viria a se casar.

Aracy em Hamburgo, durante o período em que ajudou judeus a fugirem para o Brasil

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A atuação de Aracy teria se dado a partir de 1937, quando a Circular Secreta 1.127 passou a restringir a entrada de judeus no Brasil: Aracy, porém, criou estratégias para contornar a legislação antissemita brasileira e, mesmo correndo risco de ser presa, seguiu emitindo vistos para a população judaica que buscava fugir da Alemanha para sobreviver. Segundo consta, além de deixar de inserir o código “J” nos pedidos de aprovação – que identificava para o cônsul geral que a pessoa em questão era judia –, ela também chegou a transportar pessoas em seu carro para fora da Alemanha e a ajudá-los a embarcar em navios para o Brasil, se valendo de sua posição no consulado, que impedia que fosse revistada.

Ao lado de Guimarães Rosa, com quem ficaria casada até a morte do autor, em 1967

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Apesar das décadas sendo lembrada como mulher do autor de “Grande Sertão: veredas”, Aracy de Carvalho foi homenageada pelo estado de Israel em 1982, sendo reconhecida como “Justa entre as Nações” a partir de sua atuação para salvar vidas do regime nazista. O futuro do pretérito utilizado no título desse texto, porém, não é por acaso: mesmo após o lançamento da série global, na qual “O Anjo de Hamburgo” é interpretada pela atriz Sophie Charlotte, uma controvérsia vem cercando o reconhecimento dos atos heróicos de Aracy. Após extensa pesquisa, os historiadores Fábio Koifman e Rui Afonso afirmam que o heroísmo de Aracy é um exagero – ou mesmo um mito.

Sophie Charlotte interpretando Aracy na série Passaporte para Liberdade

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Em artigo publicado no livro Judeus no Brasil: História e Historiografia, de 2021, os dois pesquisadores defendem que os vistos expelidos no período foram todos feitos dentro da legalidade e do rito esperado, sem maiores esforços ou riscos corridos, e teriam sido informados devidamente ao governo brasileiro. Para Koifman e Afonso, o máximo que ocorreu no consulado de Hamburgo foi uma boa vontade para conceder os vistos, mas para os dois não há indício de nada além disso. A controversa pesquisa dos dois historiadores será, segundo os dois, publicada em breve em um livro. Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa faleceu no dia 28 de fevereiro de 2011, aos 102 anos, e foi sepultada no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, ao lado de seu marido.

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© foto 1: Wikimedia Commons

© fotos 2, 3: Arquivo pessoal

© foto 4: Rede Globo/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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