Ciência

Areia do Saara deixa céu da Espanha laranja e faz a Europa parecer Marte por alguns dias

Vitor Paiva - 18/03/2022 às 13:57

No verso de abertura da canção “Reconvexo”, o compositor baiano Caetano Veloso se identifica metaforicamente com a “chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma”: pelo que se viu nos últimos dias na Espanha, essa metáfora se baseia em fenômeno que ocorre não somente na capital italiana que inspirou Caetano, mas também em Madri, Málaga, nas Ilhas Canárias. em outras diversas cidades espanholas, e mesmo outros tantos países europeus. Na capital da Espanha, o verso da canção recentemente se tornou literal, e os carros amanheceram cobertos por uma camada de areia do deserto no último dia 15 de março, que também tingiu o céu do país em um alaranjado impressionante.

Carros cobertos pela areia do Saara em Madrid

Carros cobertos pela areia do Saara em Madrid no último dia 15 de março

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Por alguns dias, o horizonte espanhol – e de toda a Europa – se assemelhou ao de Marte, com os céus, as casas e a vista tomada pelo laranja da areia do deserto. Apesar de parecer algo extraordinário e extraterreno, o fenômeno conhecido como “calima” é comum e recorrente no sul da Europa, quando as partículas de areia viajam mais de 2 mil quilômetros, cruzando o Mar Mediterrâneo, para “pousarem” sobre a Espanha. De acordo com alertas meteorológicos, a cidade de Málaga era a mais afetada, mas outras cidades e até mesmo países da região deverão também ser atingidos pela nuvem – a tempestade Celia já levou a nuvem para Portugal, e começou a espalhar a areia por toda a Europa.

O céu tingindo de laranja da cidade Múrcia, na Espanha

O céu tingindo de laranja da cidade Múrcia, na Espanha

Praia na região espanhola de Almería, tingida pela areia do Saara

Praia na região espanhola de Almería, tingida pela areia do Saara

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A proximidade da Espanha com o continente africano e, assim, com o deserto do Saara, colocam o país como um dos “destinos” inevitáveis da bruma, como livremente se traduz o nome do fenômeno “calima” para o português. Com mais de 9 milhões de quilômetros quadrados, o Saara é o maior deserto do mundo, ocupando uma área tão grande que supera países de dimensões continentais como a Índia, a Austrália e o Brasil, e a explicação para o processo é a mais evidente: a areia é transportada para o continente europeu por correntes de vento.

O horizonte de Madrid tomado pela areia, semelhante ao das cidades mais poluídas do mundo

O horizonte de Madrid tomado pela areia, semelhante ao das cidades mais poluídas do mundo

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Apesar de comum e até mesmo bela, a calima é motivo de alerta para a saúde das populações afetadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a inalação das partículas pode trazer problemas respiratórios, irritação aos olhos, às mucosas, e tosse. Normalmente, o fenômeno se encerra rapidamente, entre 2 a 3 dias, através de mudanças na massa de ar, chegadas de novos ventos ou chuvas, que ajudem a dispersar a areia: a previsão para os próximos dias é de fortes chuvas, ventos intensos e mar agitado para a região.

Os céus em Múrcia foram tomados pela areia

Os céus e as casas em Múrcia foram tomadas pela areia

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© fotos 1, 2, 4: Getty Images

© fotos 3, 5: Twitter/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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