Futuro

Carol Dartora revela pré-candidatura a deputada federal e não descarta ser prefeita de Curitiba

Kauê Vieira - 03/03/2022 às 13:42 | Atualizada em 07/03/2022 às 12:53

Curitiba elegeu uma mulher negra para o cargo de vereadora pela primeira vez em sua história. Aconteceu nas eleições municipais de 2020, que alçaram aos holofotes o nome de Carol Dartora. 

Historiadora formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a curitibana se tornou a candidata mais votada do PT com 8.874 votos no pleito de dois anos atrás. Afinal, a expressividade na conquista de Carol Dartora e todas as pessoas que a apoiaram representa uma quebra de paradigma em uma das cidades mais importantes e embranquecidas do Brasil? 

A presença de uma mulher negra, eleita democraticamente, na Câmara Municipal de Curitiba abre caminho para um novo momento, mas não é suficiente para diminuir o alcance dos tentáculos do racismo. Carol Dartora fez história, ao passo que precisa lidar com ofensas e até ameaças pelo simples fato de ser uma mulher negra determinada em transformar a realidade de uma cidade ainda conhecida pelo amplo domínio caucasiano nos espaços de poder. 

Leia também: Erica Malguninho conversa com Hypeness sobre os 4 anos de mandato 

Carol Dartora é pré-candidata a deputada federal

“O Brasil é um dos países mais racistas do mundo. Isso é uma realidade no país com uma população negra expressiva – mais de 56%-, mas que experimenta as piores condições. Esta realidade demonstra materialmente o peso desse racismo estrutural, assim como o fato de eu ter sido a primeira mulher negra eleita em Curitiba”, explica Carol Dartora em conversa por chamada de vídeo com o Hypeness.

Uma rápida busca no Google e vemos mais notícias denunciando crimes de racismo ou ameaças contra a vida de Carol Dartora do que conquistas nestes dois anos de mandato. A resposta está no paradoxo entre ser a terceira mulher mais votada nas eleições e ter sua legitimidade dentro da Câmara Municipal questionada por tecidos sociais que não apenas existem, como encontram métodos cada vez mais intimidatórios para manter o status quo. 

Carol Dartora ressalta as dificuldades que enfrentou durante a campanha e que sua eleição se deu por causa “da luta do movimento negro, do movimento de mulheres e de todo o campo progressista que entende a necessidade dessa participação política”

Para a vereadora, sua eleição confirma a existência de um grupo social absolutamente insatisfeito com a ordem das coisas no mundo de hoje. “Existe essa população denunciando suas condições de vida, fazendo o debate sobre a importância da sua participação, sobre a importância de que a gente tenha políticas que incluam essa parcela da população na sociedade”.

Por outro lado, existe em Curitiba e em outras cidades brasileiras uma parcela de pessoas que insiste em não compreender que as coisas mudaram, que não é mais possível pensar o desenvolvimento a partir da ótica de homens brancos envolvidos com seus próprios interesses sociais. 

A resistência gera conflito, que em um país com o passado mal resolvido como o Brasil, coloca pessoas negras como Carol Dartora na mira de grupos de extrema-direita e outros intolerantes. 

“Existe um contra-discurso dizendo que essa participação [de pessoas negras e desfavorecidas socialmente] não é importante. Que o debate não é importante. Aconteceu comigo na Câmara, quando fui chamada de “a vereadora do mimimi” por tratar de um projeto de prevenção à covid-19″.

Para Carol, “é como se as denúncias e os debates que a gente faz estivessem no campo da reclamação – o que demonstra esse conflito e o racismo que precisamos lidar cotidianamente”.

O próprio Hypeness noticiou uma série de ameaças contra a vida de Carol Dartora meses depois de sua eleição. A parlamentar tornou público um e-mail que dá ideia do que ela precisa enfrentar no dia a dia. “Vou te matar”,  dizia o título da primeira ameaça de morte recebida por ela na vida. 

“Eu vejo um conflito social que está colocado, mas nós não vamos nos calar mais. Toda a diversidade que se sente excluída, que demanda participação não vai voltar para dentro do armário”, reitera. 

Carol Dartora foi a 3ª mulher mais votada para vereadora em Curitiba

Carol Dartora conclui o raciocínio explicando como se sente ao receber esse tipo de conteúdo criminoso. “Quando eu leio comentários como “ai, você não deveria existir”. “Você não dura dois meses e tem que morrer”, eu vejo a vontade de eliminação da nossa existência”, pontua. 

Ela segue refletindo sobre os métodos do racismo, “é uma coisa que está colocada desde a abolição. A partir do momento em que a população negra não estava mais sendo escravizada, ela tem que ser eliminada. Temos dados e teóricos que vão falar sobre o que se chama de necropolítica – nada mais do que essa vontade de que a gente [pessoas pretas] não exista. E o Estado promove isso com violência policial e  a desigualdade econômica que nos mata objetivamente de fome, falta de acesso e materialmente pela violência”, conclui. 

Leia também: Léo Pericles, pré-candidato negro à presidência conversa com o Hypeness

Alô Brasil: política se discute, sim  

O Brasil foi varrido por um furacão: o da política não se discute. Não é de hoje, mas o anti-debate se intensificou com a tentativa de criminalizar determinadas ideologias políticas. 

A eleição de Jair Bolsonaro e outros representantes da extrema-direita deixou o terreno ainda mais acidentado. O mandatário e seu grupo são exemplos clássicos de como a tal máxima de política não se discute é perigosa e sempre tem como final a eleição de tiranos populistas, como o atual chefe de Estado brasileiro. 

Representante de um modo de fazer política combatido pelos grandes conglomerados de comunicação – que insistem em privilegiar pessoas como Bolsonaro, eleito mesmo tendo participado de um único debate na televisão, Carol Dartora aposta em seu mandato como forma de reaproximar o povo da política para que as pessoas entendam de fato o que se passa nos corredores de prédios suntuosos e intimidatórios de cidades como Curitiba.  

“Nosso maior desafio é buscar a participação popular e dar visibilidade para aglutinar setores que sentem o vazio de políticas públicas”. Para Carol Dartora, uma forma de aproximar população e política é “ter propostas que as contemplem, que elas se identifiquem. Propostas que podem demonstrar da melhor maneira possível que esses debates se relacionam com a vida dela”. 

Leia também: Quando as águas do Rio Cachoeira chegaram à minha porta 

Carol Dartora admite ser candidata a prefeita de Curitiba

Recentemente, o jornalista André Trigueiro, da Globo News, comentou em seu canal no YouTube sobre o desastre de Petrópolis. André, que é um estudioso do espiritismo, fez uma relação interessante entre espiritualidade, morte e tragédias que de tão grandes chegam a fazer com que os que são crentes questionem a existência de um sagrado, que aos olhos dessas pessoas, não permitiria que algo assim acontecesse. 

Trigueiro, muito sabiamente, explicou que a destruição de vidas e da cidade de Petrópolis está associada ao livre-arbítrio, ou seja, aos desmandos dos homens, que nesse caso são realmente pessoas do sexo masculino, quase todas brancas, que ditam os rumos de nossas vidas com suas escolhas. 

Deixar de gastar 60% do orçamento de prevenção às enchentes como segundo o Jornal o Globo aconteceu com o Estado do Rio de Janeiro, administrado por Cláudio Castro, mais um seguidor de Jair Bolsonaro, responde grande parte das perguntas dos que querem compreender desastres como o de Petrópolis. 

Essa volta toda é importante para conscientizar sobre como a escolha de representantes que não estão em sintonia com as demandas de quem vive no Morro da Oficina, em Petrópolis, por exemplo, pode ser nociva. Não debater política tira vidas. Mata.  

“Tudo o que aconteceu em Petrópolis faz parte de uma falta de olhar, de ter uma planejamento para aquilo que já estava dado. Era muito possível ter um planejamento de redução de risco naquela situação e não foi feito”, diz a vereadora curitibana. 

O vídeo de André Trigueiro: 

Carol Dartora aponta os caminhos para que menos pessoas deem ouvidos que foi dito por gente como Tiago Leifert, que disse ser do time onde política e esporte não se misturam. Como se isso fosse possível…

“Então, [para aproximar as pessoas da política], é necessário demonstrar para a comunidade o impacto que determinadas propostas exercem na rotina e vida das pessoas, desdobrando isso numa linguagem possível, conectando ao máximo a minha atuação com esse olhar e com a participação popular. E isso é o que mais nos protege, porque a gente sabe que está em um campo minado”, conclui.  

Para Carol Dartora, é importante fazer uma ponte entre a Câmara e 0 lado de fora. “A maioria das pessoas aqui não tem esse debate, essa visão. Então, o nosso maior desafio é fazer essa comunicação, não só aqui dentro, mas mas com a sociedade, para demonstrar ao máximo que esse espaço é importante, porque a partir daqui a gente pode promover as transformações que a gente necessita e que podem mudar a vida da população”.

Lula, Brasília, Curitiba e os próximos passos 

O retorno de Lula ao debate sobre poder não era algo previsível – mesmo entre especialistas. Depois de ser preso e monopolizar a pauta pública, o ex-presidente reaparece com força, livre das acusações e na dianteira das pesquisas. 

Se vencer, Lula encontrará um Brasil bem diferente de 20 anos atrás. As demandas são outras, sobretudo de setores dos movimentos negros que cobram políticas protetivas contra a violência que assola essa parcela da população brasileira. 

Lula intensificou a relação com movimentos negros, esteve inclusive na sede do Ilê Aiyê, mas não deu nenhum sinal concreto de que faria como o presidente dos Estados Unidos Joe Biden, que derrotou Trump numa chapa formada ao lado de uma mulher negra, Kamala Harris, a primeira afro-americana a ocupar o posto de vice-presidente do país da América do Norte. 

Carol Dartora cobra mais representatividade dentro dos PT

O PT ainda não oficializou a candidatura de Lula para enfrentar Bolsonaro, mas sua presença no pleito é certa. Quando ao companheiro ou companheira de chapa, o debate de quem será o vice do ex-sindicalista gira ao redor do nome de Geraldo Alckmin, mais um homem branco, conversador e representante de uma lógica social que não deu certo. 

Eleita pelo PT de Curitiba, Carol Dartora diz que Lula “tem uma relação muito forte com o movimento negro”. Ela cita alguns passos importantes durante os governos petistas, como a Lei de Cotas e do ensino de África nas escolas, ambas aprovadas durante os primeiros anos do lulismo.

“Eu cresci aprendendo que a população negra foi escravizada e que a Princesa Isabel fez o favor de abolir a escravidão. E é isso. Então, [a Lei de Cotas e do ensino de África] foram muito importantes por colocarem outra narrativa e nosso olhar sobre as desigualdades e as resistências da população negra”. 

Carol, no entanto, cobra avanços do Partido dos Trabalhadores. “A gente precisa democratizar os espaços de decisão. Essa construção vem sendo feita a partir do momento em que novos sujeitos entram na universidade e demonstram cada vez mais a necessidade estratégica da presença dessas pessoas em lugares de poder e tomadas de decisão”.

A vereadora confidenciou com exclusividade ao Hypeness que vai tentar ser eleita a primeira prefeita negra de Curitiba, mas antes sairá como candidata a deputada federal nas eleições de outubro. “Acredito muito no desejo da população, do que ela está dizendo e querendo. E, por isso, compreendemos que existe esse desejo, essa demanda é uma necessidade inclusive para a consolidação da democracia”. 

‘Paraná nunca teve uma deputada negra e isso é bizarro’ 

O Paraná nunca teve uma deputada negra e isso é bizarro. É realmente assustador. Eu acredito muito no desejo popular e é com essa compreensão que estou pré-candidata a deputada federal, porque as pessoas demonstram e querem e nós temos conseguido articular muitos apoios em diversos segmentos da sociedade, muito além do Partido dos Trabalhadores”.

Carol Dartora também falou pela primeira vez sobre uma possível disputa pela prefeitura de Curitiba. Segundo ela, o debate vem de dentro para fora. 

“Em nenhum momento me coloquei como possível candidata a prefeita de Curitiba. Eu nunca disse, estou falando pela primeira vez do assunto aqui com você. Eu nunca falei que desejo, que ou acho que posso ser prefeita de Curitiba, quem tem dito isso é a população que acompanha nosso mandato, que vê nossos debates, projetos e que tem se sentindo contemplada. É nisso que eu acredito”.

Perguntada diretamente se considera-se pronta para se tornar prefeita de Curitiba, Carol Dartora respondeu que: “Sim. E fazer o que for necessário dentro do Partido dos Trabalhadores [para viabilizar a candidatura]”. 

Publicidade

Fotos: foto 1: CMC/Divulgação/foto 2: Joka Madruga/Divulgação/foto 3: Joka Madruga/Divulgação/foto 4: Joka Madruga/Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Canais Especiais Hypeness