Ciência

Cérebro humano não ‘desacelera’ antes dos 60 anos, aponta novo estudo

Vitor Paiva - 08/03/2022 às 10:25

Contrariando a impressão comum de que nossa mente passa a funcionar mais lentamente e com menos precisão ao longo da vida adulta, uma nova pesquisa concluiu que a velocidade de processamento do cérebro humano permanece basicamente a mesma por boa parte de nossa vida, começando a apresentar sinais de deterioração somente em idades mais avançadas. Conduzido por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, o estudo trabalhou com informações coletadas em um experimento que contou com a participação de mais de um milhão de voluntários, para avaliar o tempo de resposta das decisões cognitivas de acordo com a idade dos participantes.

A "idade" do cérebro, segundo a pesquisa, só afeta sua velocidade após os 60 anos

A “idade” do cérebro, segundo a pesquisa, só afeta sua velocidade após os 60 anos em média

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“A suposição comum é de que quanto mais velho ficamos, mais lentamente reagimos a estímulos externos. Se assim fosse, a velocidade mental seria maior por volta dos vinte anos, e depois iria decair com o avanço da idade”, comentou o Dr. Mischa von Krause, pesquisador no Departamento de Métodos de Pesquisa Quantitativos do Instituto de Psicologia da universidade alemã, que liderou o estudo ao lado do Dr. Stefan Radev, também ligado à instituição. Conforme os dados coletados pelo experimento foram avaliados, a conclusão foi de que a velocidade de processamento só começou a cair em média a partir dos 60 anos – mas que os cérebros “mais velhos” acertaram mais questões no experimento.

jovem e idosa

Uma eventual lentidão na pesquisa trouxe, no entanto, respostas mais corretas entre os mais velhos

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“Os participantes mais velhos foram mais lentos para responder de forma mais cautelosa e se concentrar em evitar erros”, afirmou Krause. Outro ponto relevante para o resultado é a perda de capacidade motora, que não tem a ver com a velocidade de processamento cerebral: participantes com mais idade precisam de mais tempo para apertar o botão com a resposta escolhida. O experimento no qual a pesquisa se baseou consistia em selecionar categorias descritivas, como “feliz” ou “triste”, para imagens de pessoas, e “bom” ou “ruim”, para palavras dispostas aleatoriamente: o conteúdo, porém, foi menos importante para o levantamento, que se concentrou na velocidade de resposta.

jovem e velho

Segundo a pesquisa, diferentes “velocidades” cerebrais apareceram em todas as idades analisadas

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O trabalho contou com um modelo matemático para avaliar os dados apresentados, concluindo, portanto, que a velocidade cerebral em média permanece estável entre os 20 e os 60 anos. “Aparentemente, ao longo de nossa vida, não temos que temer nenhuma perda substancial de velocidade mental, particularmente não durante o curso típico de uma vida profissionalmente ativa”, afirmou Krause. “De forma geral, é importante notarmos que os resultados mostram indivíduos com altas e baixas velocidades mentais em todas as idades. Nossas conclusões se enquadram na tendência média”, diz. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature Human Behaviour, e pode ser lida, em inglês, aqui.

Cérebro humano dissecado

Cérebro humano dissecado: o experimento contou com mais de 1 milhão de participantes

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© foto 1: Pixabay

© fotos 2, 3: Getty Images

© foto 4: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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