Ciência

Entenda processo de ‘desextinção’ que quer trazer o extinto tigre-da-tasmânia de volta à vida e à natureza

Vitor Paiva - 09/03/2022 às 10:05 | Atualizada em 26/04/2022 às 09:25

Apesar do esforço e da luta diária de ambientalistas e cientistas para salvar as mais de 26 mil espécies ameaçadas de extinção em todo o mundo, milhares de animais efetivamente deixam de existir todo ano. Um grupo de cientistas australianos, no entanto, trabalha atualmente para contornar ao menos um desses casos, e trazer de volta uma espécie desaparecida há quase 100 anos: sim, uma equipe ligada à Escola de Biociências da Universidade de Melbourne se dedica ao projeto de “desextinção” do tigre-da-tasmânia, um marsupial que entrou em completa extinção há quase 86 anos, através de um processo científico que até pouco tempo atrás parecia ficção, mas que acaba de receber um aporte de 5 milhões de dólares para ser tornado em realidade.

Casal de Tigres-da-Tasmânia, em zoológico nos EUA, em 1902

Casal de tigres-da-tasmânia, em zoológico nos EUA, em 1902

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Também conhecido como lobo-da-tasmânia, o animal do gênero Thylacinus foi o maior marsupial carnívoro dos tempos modernos, e já havia desaparecido da Austrália continental há cerca de 3 mil anos, mas sobrevivia na ilha da Tasmânia até o início do século XX. Apesar do nome, ele não possuía parentesco genético com lobos ou tigres, mas sim com cangurus e diabos-da-tasmânia: uma chamada “convergência evolutiva” fez com que tivesse aparência, porém, semelhante a dos animais citados. Visto como uma ameaça para os rebanhos e caçado intensamente por séculos, o tigre-da-tasmânia teve sua última aparição na natureza registrada em 1932, e o último exemplar conhecido morreu em 7 de setembro de 1936, no Zoológico de Hobart, na Tasmânia, tornando então a espécie completamente extinta.

Apesar da aparência e do nome, o animal não era parente nem de lobos nem de tigres

Apesar da aparência e do nome, o marsupial não era parente nem de lobos nem de tigres

A última aparição confirmada na natureza foi registrada em 1932

A última aparição de um tigre-da-tasmânia confirmada na natureza foi registrada em 1932

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O processo de “desextinção” começou com o sequenciamento do genoma do animal, em 2017, e o investimento recente, realizado por doação filantrópica, irá financiar um laboratório de ponta. De acordo com os cientistas, o laboratório será utilizado em três frentes diferentes, pela compreensão mais aprofundada do genoma do tigre-da-tasmânia, o desenvolvimento de técnicas para utilizar células-tronco para marsupiais e criar um embrião, e enfim, para a transferência do embrião para um útero hospedeiro – provavelmente de um diabo-da-tasmânia ou de um canguru. Desde seu desaparecimento, diversas aparições do animal na natureza foram noticiadas, mas nenhuma foi confirmada.

O animal também tinha a estampa semelhante a de uma zebra em seu corpo

O último Tigre-da-Tasmânia, no Zoológico de Hobart, na ilha, em meados dos anos 1930

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“Graças a este generoso financiamento, estamos num ponto de virada em que podemos desenvolver as tecnologias para possivelmente trazer de volta uma espécie da extinção e ajudar a salvaguardar outros marsupiais à beira do desaparecimento”, afirmou Andrew Pask, professor da Escola de Biociências da Universidade de Melbourne, e um dos líderes do projeto, em comunicado. “De todas as espécies propostas para desextinção, o lobo-da-tasmânia tem, sem dúvida, o caso mais convincente. O habitat da Tasmânia permaneceu em grande parte inalterado, proporcionando o ambiente perfeito para reintroduzi-lo, e é muito provável que a sua reintrodução seja benéfica para todo o ecossistema“, concluiu Pask. Segundo o professor, a doação garantirá os próximos 10 anos de pesquisa, período suficiente para o desenvolvimento de uma célula de Thylacinus para iniciar o processo.

A imensa abertura bucal do último exemplar da espécie, na Tasmânia

A imensa abertura bucal do último exemplar da espécie, falecido na Tasmânia em 1936

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© fotos: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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