Ciência

Esta espécie de cobra solta pum ao invés de veneno para se defender

Vitor Paiva - 24/03/2022 às 10:07

Enquanto a maioria das serpentes se defendem com seus dentes afiadíssimos, sua mordida veloz e principalmente seus venenos intoxicantes, a pequena cobra da espécie Gyalopion canum possui somente uma inusitada e um tanto cômica arma para se proteger: um barulho de pum. Conhecida popularmente, em tradução livre, como nariz-de-gancho-ocidental, a cobra é endêmica nos desertos dos EUA e do México, mas, chegando apenas a cerca de 36 centímetros de comprimento e sem possuir especial força, mordida ou peçonha, ela utiliza um som muito similar ao dos gases e flatulências humanas para confundir seus possíveis predadores e, assim, conseguir escapar de um ataque.

A Gyalopion canum é uma espécie pequena, mantendo pouco mais de 30 centímentros de tamanho em média

A Gyalopion canum é uma espécie pequena, com cerca de 30 centímetros de tamanho em média

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A defesa da nariz-de-gancho-ocidental é um curto e repetido ruído que a espécie produz através de sua cloaca, cavidade pelo qual se abre o aparelho genital e urinário do animal. De acordo com o biólogo e morfologista Bruce Young, da Faculdade Lafayette, no estado da Pensilvânia, nos EUA, o som é emitido somente quando a serpente se sente ameaçada, utilizando dois grupos de músculos para isolar e comprimir o ar e então contraindo o esfíncter da cloaca e expelir o som: é, portanto, essencialmente um pum de cobra.

O formato de seu nariz batiza a espécie, típica dos desertos dos EUA e México

O formato de seu nariz batiza a espécie, típica dos desertos dos EUA e México

O barulho de pum é usado como defesa para confundir predadores

O barulho de pum é usado como defesa para confundir predadores e permitir a fuga

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Segundo Young, o esforço que a Gyalopion canum utiliza para emitir o “pum” é tão grande que, de acordo com experimento realizado em laboratório, elas são capazes de dar uma espécie de salto. “As cobras nariz-de-gancho-ocidental colocam tanta energia para produzir esse barulho que em alguns casos chegam a sair do chão”, afirmou o morfologista, que é especialista em sons produzidos por cobras, como o sibilar da língua o tilintar do “chocalho” que a cascavel traz na ponta de sua cauda. A função do guizo, aliás, é a semelhante a do “pum” da nariz-de-gancho-ocidental mas, apesar de também utilizar o ruído para afugentar ameaças, a cascavel é uma cobra venenosa, perigosa e grande.

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Curiosamente, a Gyalopion canum possui quase o mesmo nome popular da cobra que alegadamente possui o veneno mais letal do mundo, a cobra-marinha-de-nariz-de-gancho. Mesmo não possuindo veneno, força ou tamanho, a nariz-de-gancho-ocidental se alimenta de aranhas, insetos e escorpiões, e não é a única espécie que utiliza um som similar ao de um pum para se defender: a Micruroides euryxanthus, espécie de cobra-coral tricolor também presente nos desertos mexicanos e estadunidenses, usa o mesmo sistema de defesa “por som” – conhecida justamente como “Coral Sonora”, porém, essa espécie possui um forte veneno para “complementar” seu pum na hora de se defender.

Exemplar da espécie Micruroides euryxanthus, a "Coral Sonora" que também peida

Exemplar da espécie Micruroides euryxanthus, a “Coral Sonora” que também peida

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© foto 1, 4: Wikimedia Commons

© foto 2: Steiner Snake Guy/Facebook/reprodução

© foto 3: Ashley Wahlberg/Flickr/CC


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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