Inspiração

Eva Todor e a história por trás da foto das atrizes em passeata contra a censura em 1968

Vitor Paiva - 11/03/2022 às 14:56

Quando veio a falecer, em dezembro de 2017 aos 98 anos, a atriz Eva Todor comoveu a todos com a decisão de deixar sua fortuna para seus sete funcionários, equipe pessoal que cuidava dela e de sua vida até o fim. Viúva, sem filhos ou herdeiros diretos, a artista era nascida em Budapeste, na Hungria, mas escreveu seu nome como um dos pontos mais altos e reluzentes da história do teatro e da teledramaturgia brasileira. A marca de sua generosidade, consciência e participação na nossa história cultural começa, porém, muito antes do fim de sua vida, e vai  além das telas e palcos, como uma das artistas que se posicionou publicamente contra a censura e a ditadura militar que imperaram no Brasil.

A atriz brasileira de origem húngara Eva Todor

A atriz brasileira de origem húngara Eva Todor

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A atriz é uma das personalidades femininas que protagonizam uma das mais emblemáticas fotos da época, mostrando a resistência da classe artística – e das mulheres – contra o regime que se aproximava de seu período mais sombrio naquele fevereiro de 1968, quando os artistas decidiram entrar em greve contra os desmandos e absurdos impostos pela censura federal. A imagem mostra Todor ao lado das atrizes Tônia Carreiro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Cacilda Becker e Norma Bengell, todas de mãos dadas, diante de uma multidão que marchava pelo Centro do Rio de Janeiro, com faixas e cartazes para marcando posição, após três dias de greve, nos quais todos os teatros permaneceram fechados, e três noites de ocupação nas escadarias do Teatro Municipal. A passeata levou flores até o Monumento aos Mortos na Segunda Guerra, no Aterro do Flamengo.

Na foto, Eva Todor é a primeira à esquerda, seguida por Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell – nesse ângulo, Cacilda Becker não aparece

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Além das atrizes vistas na foto histórica, centenas de outros nomes participaram do movimento, como Joana Fomm, Djanira, Chico Buarque, Tonia Carreiro, Nelson Rodrigues, Fernando Torres, Marieta Severo e muitos e muitas mais. O movimento questionava não somente a própria existência da censura, mas também os critérios apresentados pela ditadura, que proibia espetáculos em nome da “moralidade”, impedindo o uso do que chamavam de termos de “baixo calão” e tirando o trabalho e a expressão de artistas arbitrariamente, sob acusação “subversão” ou de agirem contrários à ordem e aos “bons costumes”. Após diversas reuniões e a paralização – que também contou com a adesão de outras cidades brasileiras – os artistas conseguiram uma reunião com o jurista Luís Antonio da Gama e Silva, então Ministro da Justiça, que prometeu rever a censura e seus critérios.

Outro registro do mesmo momento, em que Cacilda Becker aparece, à direita

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O decorrer de 1968 mostraria que a promessa de Gama e Silva era vazia, e a censura não só seguiu como se agravou no período – que incluiu os primeiros ataques do grupo terrorista Comando de Caça aos Comunistas contra o elenco da peça “Roda Viva”, o assassinato do estudante secundarista Edson Luís, a ocupação por estudantes do prédio da UFRJ, e a Passeata dos 100 mil. O ano terminaria, porém, com o decreto do AI-5, ato que dissolveu o congresso e as assembleias legislativas, tornou ilegal qualquer reunião política não autorizada, deu poder irrestrito ao governo federal para intervir em estados e municípios, suspendeu habeas corpus, estabeleceu a censura prévia de toda expressão artística, da imprensa e dos meios de comunicação: mandatos eram cassados e pessoas eram detidas sem explicações ou garantias, e ironicamente quem leu o ato em cadeia nacional de rádio foi o próprio ministro Gama e Silva.

Eva Todor nos anos 1950

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Nascida Eva Fodor em 9 de novembro de 1919, em Budapeste, filha de judeus húngaros ligados à classe artística, ela migrou para o Brasil com sua família após a Primeira Guerra Mundial, em 1929, fugindo da crise econômica instaurada na Europa, e do quadro de perseguição aos judeus que se agravava. A artista viria a se naturalizar brasileira na década de 1940, a convite do próprio Getúlio Vargas, que se encantara ao vê-la no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A partir de então, Eva Todor se tornava oficialmente uma atriz brasileira – uma mulher brasileira – que ajudou a lutar contra os desmandos e horrores que também marcam a história desse país, inspirando outras mulheres a resistirem e lutarem juntas, como mostra a histórica foto, e com dignidade até o fim da vida.

Eva Todor

A atriz, em uma das dezenas de novelas que atuou pela Rede Globo

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© foto 1: IMDB/reprodução

© foto 2: Arquivo/Jornal do Brasil

© foto 3: Arquivo Nacional

© foto 4: Wikimedia Commons

© foto 5: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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