Debate

Fazenda nazista é tombada para que crimes do passado não sejam ‘apagados’

Vitor Paiva - 22/03/2022 às 17:51 | Atualizada em 24/03/2022 às 10:48

O governo do estado de São Paulo decidiu tombar a fazenda Cruzeiro do Sul, que há alguns anos foi notícia após serem descobertos no local símbolos nazistas estampando tijolos, bandeiras e documentos das décadas de 1930 e 1940.

Localizada no município de Itaí, no interior do estado, a fazenda também é alvo de denúncias por exploração de trabalho infantil contra crianças negras escravizadas na mesma época, e a decisão de torná-la parte do Patrimônio Histórico se deu, segundo a resolução, como “reparação simbólica do estado acerca da exploração de mão de obra de pessoas negras no século XX”, e forma de não serem apagados os horrores de um passado recente: o tombamento inclui a Estação Ferroviária Engenheiro Hermillo, em Campina do Monte Alegre, por onde as crianças chegaram, em 1933.

Parte da fazenda onde hoje encontram-se vestígios do passado sombrio do local

Parte da Fazenda Cruzeiro do Sul: por toda parte encontram-se vestígios do passado sombrio

Um dos muito tijolos estampados com a suástica nazista que são encontrados no local

Um dos muito tijolos estampados com a suástica nazista que são encontrados no local

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A fazenda Cruzeiro do Sul foi comprada no início da década de 1930 por uma família de simpatizantes do integralismo, movimento de extrema-direita que funcionou como uma versão brasileira do nazi-fascismo europeu, e do nazismo nos anos 1920.

Um acordo com um orfanato no Rio de Janeiro ofereceu à família a tutela de 50 meninos negros, então com idades entre 8 a 10 anos, que foram movidos de trem para o local em 1933 – desembarcando na estacão ferroviária que também foi tombada. A decisão de incluir a estação como parte do Patrimônio Histórico ao lado da fazenda, portanto, é uma forma de conectar e preservar todas pontas de mais uma história de violação dos direitos humanos no Brasil.

Estação Ferroviária Engenheiro Hermillo

A Estação Ferroviária Engenheiro Hermillo em foto do início dos anos 2000

-Documentos comprovam que suástica nazista era usada para marcar gado no Pará

Inicialmente, segundo consta, a família ofereceu comida, casa, escola, mas principalmente trabalho aos meninos – a partir dos 10 anos, porém, todos passaram a somente trabalhar em situação análoga à escravidão.

Na fazenda, a suástica nazista era vista em bandeiras, nos tijolos, na marcação do gado, em documentos, e mais: a Cruzeiro do Sul foi tema de vasta pesquisa feito pelo historiador Sidney Aguilar, e foi ele quem pediu o tombamento dos locais, a fim de jogar luz sobre os crimes cometidos, e como meio de impedir que novas barbáries semelhantes aconteçam. Sua pesquisa serviu como base para o documentário “Menino 23 – Infâncias perdidas no Brasil”, lançado em 2016, e o nome se refere à forma como Aloysio da Silva, uma das crianças escravizadas no local e que conta sua história no filme, era chamado: no lugar dos nomes, as crianças e jovens eram tratados por números.

Fazenda Cruzeiro do Sul

Boa parte da fazenda se encontra já em ruínas, com indícios de tentativa de apagamento

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Segundo Deborah Neves, historiadora e técnica da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, a decisão de tombar a fazenda e a estação de trem se deu após uma vistoria dar conta que muitas construções estavam sendo derrubadas, e que havia um esforço para “apagar” a memória e os crimes cometidos no local.

“A Fazenda Cruzeiro do Sul é exemplar representativo de um pensamento autoritário e higienista da sociedade brasileira das décadas de 1930 e 1940, onde se cruzaram pensamentos segregacionistas e preconceituosos comuns à época”, diz trecho do texto da resolução que define o tombamento.

Fazenda Cruzeiro do Sul

Fragmento de um tijolo nazista encontrado recentemente no local

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© fotos 1, 2: João Gomes Neto/Divulgação/Arquivo

© foto 3: Adriano Martins/Estações Ferroviárias do Brasil/Reprodução

© fotos 4, 5: Secretaria de Estado da Cultura/Divulgação/Arquivo


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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