Ciência

Fósseis de peixes mortos uma hora após asteroide atingir Terra dão novas pistas sobre extinção dos dinossauros

Vitor Paiva - 04/03/2022 às 06:31

Uma nova pesquisa, realizada por uma equipe internacional de cientistas, foi capaz de refinar e detalhar melhor as primeiras consequências e características do impacto do asteroide que atingiu a Terra há cerca de 66 milhões de anos, provocando a extinção dos dinossauros e de 76% das espécies então existentes, entre plantas e animais. Intitulado “A Era Mesozoica terminou na primeva boreal”, em tradução livre, o estudo trabalhou com a análise de fósseis de peixes que morreram menos de uma hora após incidente, descobertos no sítio fossilífero de Tanis, no estado da Dakota do Norte, dos EUA, e foi publicado no último dia 23 de fevereiro, na revista científica Nature.

Fóssil do peixe-remo encontrado nos EUA, que serviu de material para a análise

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A partir da análise do fóssil de um peixe da família Polyodontidae, foi possível determinar que o apocalíptico evento aconteceu, como o título da pesquisa sugere, durante a primavera do hemisfério norte, quando o meteorito batizado de Chicxulub atingiu a região hoje conhecida como a Peninsula do Iucatã, no México. De acordo com o estudo, o choque afetou a placa continental da região, provocando o surgimento de ondas gigantes e movendo sedimentos que soterraram os peixes, enquanto rochas espaciais caiam dos céus. O novo estudo trabalhou sobre isótopos de carbono do fóssil de um peixe-remo (Regalecus glesne), e a determinação da época do ano em que o cataclismo ocorreu se deu a partir da alimentação do animal e também de análise similar a que se faz com os anéis dos troncos de uma árvore.

A pesquisadora Melanie During escavando em Tanis

A pesquisadora Melanie During escavando no sítio de Tanis, na Dakota do Norte

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“Os anéis de crescimento recuperados não apenas capturaram as histórias de vida dos peixes, mas também registraram a última sazonalidade do Cretáceo e, portanto, a estação em que ocorreu a extinção catastrófica”, afirmou o cientista Jeroen van der Lubbe, autor sênior do trabalho, em comunicado. A descoberta da época do ano pode ser crucial para compreender, entre outras coisas, o motivo pelo qual a maioria dos dinossauros desapareceu, enquanto aves e as primeiras espécies de mamíferos, entre outras, sobreviveram ao evento: por ter acontecido durante o inverno no hemisfério sul, por exemplo, alguns animais podem ter se protegido enquanto se preparavam para enfrentar o período de frio.

A Cratera de Chicxulub, no México - e a dimensão do impacto, assinalada em vermelho

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O nome do meteorito que atingiu a Terra é inspirado na pequena cidade de Chicxulub, a mais próxima da Cratera de Chicxulub, originada pelo impacto do asteroide, que media aproximadamente 10 km: com cerca de 180 km de diâmetro, a cratera é maior estrutura de impacto já descoberta no planeta. Pesquisas atuais buscam descobrir se o meteorito teria provocado sozinho o processo de extinção, há 66,038 milhões de anos, ou se ele teria sido um de vários eventos a provocar o ocorrido na Terra no período. O novo estudo foi realizado por especialistas da Universidade de Uppsala, na Suécia, da Vrije Universiteit (VU) em Amsterdã, da Vrije Universiteit de Bruxelas (VUB) e do European Synchrotron Radiation Facility (ESRF), na França, e pode ser lido, em inglês, aqui.

Representação artística do cenário do evento, com pedras caindo dos céus após o impacto

Representação artística do cenário do evento, com pedras caindo dos céus após o impacto

 

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© fotos 1, 2: Nature/reprodução

© foto 3: Wikimedia Commons

© foto 4: Joschua Knüppe


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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