Arte

Maria Firmina dos Reis: 1ª romancista negra do país é homenageada em seus 200 anos pelo Itaú Cultural

Vitor Paiva - 21/03/2022 às 10:09 | Atualizada em 22/03/2022 às 17:58

Por décadas a história de Maria Firmino dos Reis praticamente se perdeu em meio as brumas do racismo, do machismo e do preconceito de classe que tanto definem nossas relações sociais e culturais: hoje, porém, cada vez mais a importância dessa escritora, professora, compositora e abolicionista maranhense, filha de uma escrava alforriada, se confirma como grandiosa: Maria Firmino foi a primeira romancista negra brasileira, e seu livro “Úrsula”, publicado pela primeira vez em 1859, é considerado o primeiro romance de uma autora no Brasil – e também pioneiro no posicionamento firme contra a escravidão. Para celebrar os 200 anos de seu nascimento, o Itaú Cultural preparou uma série de materiais especiais sobre a autora, que serão disponibilizados em seu site e na plataforma Ancestralidades.

Ilustração especial pelos 200 anos de Maria Firmino dos Reis para o Itaú Cultural

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Maria Firmino dos Reis nasceu em São Luís, em 11 de março de 1822, e cresceu para se tornar uma das mais atuantes intelectuais e militantes de sua época, colecionando pioneirismos e bravuras desbravadoras ao longo de seus 95 anos de vida – ela é a única mulher com um busto na Praça do Pantheon, na capital do Maranhão, onde se homenageiam os grandes autores do estado. Sua relação com a literatura teria começado cedo, a partir de 1830, quando passou a viver com sua família na casa de uma tia, que possuía uma situação econômica melhor, na vila de São José de Guimarães – Maria Firmino se tornaria a primeira mulher do Maranhão e uma das primeiras do país a passar em um concurso público, para ser professora, em cargo que ocuparia até 1881.

O busto da autora na Praça do Pantheon, em São Luís do Maranhão

O busto da autora na Praça do Pantheon, em São Luís do Maranhão

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Além de romancista, Firmino também publicou contos e poemas em diversas revistas e jornais da época, e ainda desenvolveu um importante trabalho de ensino experimental, no final do século XIX, na cidade de Maçaricó, oferecendo aulas gratuitas para alunos que não podiam pagar e para jovens meninas e mulheres que não frequentavam escolas – há quem a aponte como uma das primeiras compositoras mulheres no país, antes mesmo de Chiquinha Gonzaga. Seu nome se inscreveu mais fundo na história brasileira, porém, através da literatura: além de “Úrsula” ser o primeiro romance assinado por uma mulher no país, é também visto como o primeiro livro brasileiro a se posicionar contrário à escravidão e contado do ponto de vista dos escravizados – anos antes, por exemplo, dos clássicos “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães, publicado em 1875, e “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, publicado em 1880.

Na primeira edição de "Úrsula", o livro era assinado somente por "uma maranhense"

Na primeira edição de “Úrsula”, em 1859, o livro era assinado somente por “uma maranhense”

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A crueldade exposta do senhor de escravos de nome Fernando faz do personagem o vilão de “Úrsula”, na mesma medida em que a personagem escravizada Suzana recorda sua liberdade de forma pungente, marcando a intenção da obra – através da pena de uma mulher negra, em um momento em que a luta abolicionista ainda dava os primeiros passos no país. “É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos”, escreve, em passagem do livro. A passagem do tempo, no entanto, apagou bastante da história e da memória de Maria Firmino dos Reis, e hoje, não só pouco se conhece do restante de seu trabalho, como até mesmo possíveis registros de sua feição se perdeu – consta que sua aparência foi sendo “esbranquiçada” com o passar dos anos, como ocorreu, por exemplo, com Machado de Assis.

A atriz maranhense Júlia Martins vivendo Maria Firmino nos palcos

A atriz maranhense Júlia Martins vivendo Maria Firmino nos palcos

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Cada vez mais, porém, pesquisadores e artistas vêm se dedicando a sublinhar a devida importância da vida e obra da autora: a atriz maranhense Júlia Martins, por exemplo, desde 2019 conta nos palcos sua história no espetáculo Maria Firmina dos Reis, uma voz além do tempo. Agora, em celebração a seus 200 anos, o Itaú Cultural e a plataforma Ancestralidades reúnem material para quem quiser saber mais sobre tal trajetória, com verbetes sobre a autora para serem consultados na Enciclopédia Itaú Cultural, e na parte de Biografias e Trajetórias da plataforma Ancestralidades, que também disponibiliza um texto comemorativo para celebrar o bicentenário da autora que inaugurou a literatura feminina e negra no país, e que se posicionou como um dos primeiros e mais firmes pilares contra a escravidão.

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© foto 1: Flavia Ocaranza/Ilustração/Itaú Cultural

© foto 2: Wikimedia Commons

© foto 3: Reprodução

© foto 4: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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