Debate

Marina Ovsyannikova: o que houve com a jornalista detida na Rússia após protestar ao vivo na TV contra guerra

Vitor Paiva - 18/03/2022 às 10:05

Após invadir a transmissão de um telejornal para protestar contra o ataque à Ucrânia, a jornalista russa Marina Ovsyannikova foi condenada, em um primeiro julgamento, por infração administrativa, multada em 30 mil rublos, equivalentes a 1,4 mil reais, e posta em liberdade. A condenação, porém, se refere somente ao vídeo que divulgou após o protesto, no qual se refere à guerra como um ato “fratricida” e afirma ter vergonha de ter trabalhado pela “propaganda” realizada pelo Canal Um, emissora estatal russa na qual trabalha e onde ocorreu a manifestação: a invasão em si, no entanto, ainda poderá ser julgada, e impor uma condenação consideravelmente mais grave sobre Ovsyannikova, de até 15 anos de prisão, caso seja enquadrada em alguma das novas regras criadas pelo Kremlin sobre o que chamam de “desinformação” no contexto do conflito.

jornalista russa Marina Ovsyannikova

A jornalista russa Marina Ovsyannikova, que protestou no Canal Um, onde também trabalha

-10 fotos de manas invocadas resistindo nas ruas por seus direitos

Marina interrompeu a transmissão do principal noticiário da emissora na última segunda-feira, dia 14, por volta das 21h30, carregando um cartaz que pedia o fim da guerra, e que o público duvidasse do que via: “Não acreditam na propaganda, aqui eles contam mentiras. Russos contra a guerra”, dizia. Após o protesto, a jornalista chegou a ser dada como desaparecida, mas em seguida foi informado que ela se encontrava em um tribunal em Moscou. “Foram realmente dias muito difíceis da minha vida. Eu literalmente passei dois dias sem dormir. O interrogatório durou mais de 14 horas, não tive permissão para entrar em contato com meus parentes ou amigos, não tive assistência jurídica. Então, estou em uma posição bastante difícil”, afirmou Ovsyannikova.

-Ucrânia em guerra e com baixo índice de vacinação: a bomba relógio que ninguém está vendo

Na primeira entrevista concedida após a manifestação, a jornalista disse temer pela própria vida. “Eu acredito no que eu fiz, mas agora entendo a escala dos problemas que eu vou ter que lidar e, claro, estou extremamente preocupada com a minha segurança”, declarou. “Eu não me sinto como uma heroína… você sabe, eu quero realmente sentir que esse sacrifício não foi em vão, e que as pessoas abram seus olhos”, disse, reiterando que não pretende deixar o país, mas que torce para não enfrentar acusações criminais daqui pra frente. “Foi minha decisão protestar contra a guerra e tomei ela sozinha porque eu não gosto do fato da Rússia ter iniciado essa invasão”, concluiu.

jornalista russa Marina Ovsyannikova

Segundo revelou, o depoimento de Ovsyannikova durou 14 horas em isolamento

-Estes protestos pacíficos lembram que não há apenas uma forma de lutar

Segundo afirmou, seu interrogatório foi feito sem que ela tivesse qualquer assessoria jurídica e em total isolamento. Marina Ovsyannikova há anos trabalha como editora no departamento internacional da diretoria de programas de informação do Canal Um e, segundo a imprensa local, tinha como principal função traduzir o discurso direto de políticos, empresários, celebridades e entrevistados para o russo. Ao ser questionado sobre a manifestação, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que quem está lidando com a questão é o canal de televisão e não o governo, mas que a atitude da jornalista era um ato de “vandalismo”.

jornalista russa Marina Ovsyannikova

“Não à guerra”, diz o cartaz, entre outras coisas: a jornalista também gritou contra o conflito

Publicidade

© foto 1: Facebook/reprodução

© foto 2: Shutterstock

© foto 3: Twitter/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Canais Especiais Hypeness