Ciência

Navio Endurance naufragado em 1915 é finalmente encontrado a 3 mil metros de profundidade

Vitor Paiva - 16/03/2022 às 10:12 | Atualizada em 18/03/2022 às 10:29

Um dos mais importantes navegadores modernos, o irlandês Ernest Henry Shackleton foi um verdadeiro desbravador dos polos do planeta, enfrentando invernos congelantes, noites eternas e condições ameaçadoras para explorar os mares mais extremos da Terra no início do século XX. Tendo liderado três expedições britânicas à Antartida e conquistado o título de Sir por seus feitos marítimos, a maior aventura de Shackleton, no entanto, foi ter saído vivo e salvado toda tripulação de uma missão que terminou em naufrágio: com o navio Endurance no fundo do Mar de Wendell, na Antártida, após 22 meses no gelo até o resgate salvar os tripulantes. Pois no ano em que a morte de Shackleton completa seu centenário, o Endurance foi finalmente encontrado, em ótimo estado de conservação.

O Endurance no Mar de Wendell, em fevereiro de 1915 - de onde nunca mais sairia

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Shackleton já era um herói nacional quando, em dezembro de 1914, partiu da Inglaterra com 28 homens, 69 cães de trenó, dois porcos e um gato na direção do extremo sul do planeta – parando em Buenos Aires, depois na Georgia do Sul, para enfim rumar na direção da Antártida. O Endurance chegou ao Mar de Wendell em janeiro de 1915, mas em fevereiro a tripulação se deu conta de que o navio era prisioneiro do gelo e não mais se movia: após diversas manobras vãs para desencalhar a embarcação, Shackleton e seus acompanhantes tiveram certeza de que ficariam ali por um bom tempo: a ideia inicial era esperar o degelo para enfim mover o navio. Em outubro, porém, a tripulação teve certeza de seu destino, quando percebeu que a pressão do gelo estava ferindo o casco e que a água estava invadindo o Endurance.

O navegador irlandês Ernest Henry Shackleton

O navegador irlandês Ernest Henry Shackleton

O fracasso triunfal do Endurance duraria quase dois anos no mar antártico - entre fevereiro de 1915 e agosto de 1916

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Não havia alternativa que não literalmente abandonar o navio. Um grande acampamento foi montado no gelo, de onde os homens e animais passaram a assistir os últimos dias da embarcação, que enfim afundou em 21 de novembro de 1915 – mas a aventura havia apenas começado. Em abril de 1916, parte da tripulação conseguiu enfim deixar o Mar de Wendell em três botes: em agosto, Shackleton e mais cinco tripulantes retornaram para resgatar o restante dos sobreviventes, levando-os com vida a Punta Arenas, na Patagônia chilena, quase dois anos após a partida do Endurance, que tinha como missão original realizar a primeira travessia por terra do continente antártico, e que era considerado o mais resistente navio de madeira já construído até então.

Os primeiros esforços da tripulação, tentando "desencalhar" o navio do gelo

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Após deixar o navio, a tripulação montou um equipamento no continente gelado

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O futebol era o passatempo preferido - com o navio ao fundo

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Shackleton morreu aos 47 anos, em 5 de janeiro de 1922, vítima de um ataque cardíaco a bordo do navio Quest, ancorado na Georgia do Sul, em missão que tentaria circunavegar a Antártica. Exatos dois meses após o centenário de sua morte, e aproximadamente 107 anos após seu naufrágio, o Endurance enfim foi encontrado, em 05 de março de 2022, descansando a mais de 3 mil metros de profundidade, e em condições próximas da perfeição. Na popa da embarcação, o nome do navio ainda se faz perfeitamente legível nesse que, segundo especialistas, é possivelmente o mais bem conservado naufrágio de uma embarcação de madeira já encontrado.

O Endurance foi encontrado em incrível estado de conservação a 3 mil metros de profundidade

O Endurance foi encontrado em incrível estado de conservação a 3 mil metros de profundidade

Endurance

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O projeto de encontrar o navio foi liderado pelo geógrafo polar John Shears utilizando o quebra-gelos sul-africano Agulhas II, equipado com submersíveis controlados remotamente. Por se tratar de um dos mais célebres naufrágios da história, o navio se tornou um monumento histórico protegido, e por isso a missão deixou o Endurance intacto no local, sem retirar amostras nem lembranças, mantendo-o como se ainda fosse novembro de 1915, e o navio tivesse acabado de tombar no fundo do mar antártico, sob os olhares inconsoláveis de Shackleton e sua tripulação.

Os últimos momentos do barco, antes de começar a afundar em definitivo

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Os cães observando o Endurance em seus últimos instantes antes de desaparecer

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© fotos 1, 3, 4, 5, 9, 10: Wikimedia Commons

© fotos 2, 6: Getty Images

© fotos 7, 8: Falklands Maritime Heritage Trust/National Geographic/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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