Design

O trabalho de Diébedo Kéré, primeiro negro a vencer o ‘Nobel’ de arquitetura

Vitor Paiva - 22/03/2022 às 10:24 | Atualizada em 24/03/2022 às 10:30

Por uma arquitetura que supera o mero empilhamento de espaços e se confirma capaz de oferecer soluções materiais e humanas através da engenhosidade humana, e de alterar para melhor a realidade ambiental, social, econômica e até mesmo racial de seu local, o burquinês Diébédo Francis Kéré tornou-se a primeira pessoa negra e o primeiro arquiteto de origem africana a receber o Prêmio Pritzker, o mais importante reconhecimento da arquitetura mundial. Interessado em tradições e conhecimentos ancestrais e com os olhos abertos para o ao redor dos espaços onde constrói, Kéré aponta o futuro com uma arquitetura de beleza e soluções, de melhorias efetivas e esplendor estético, devidamente integrada à natureza e à realidade.

o arquiteto burquinês Diébédo Francis Kéré

o arquiteto burquinês Diébédo Francis Kéré, vencedor do Prêmio Prtizker em 2022

-Com barro e toras de eucalipto, arquiteto constrói prédio de universidade em Burquina Faso

“Na interseção da utopia e do pragmatismo, nós criamos uma arquitetura contemporânea que alimenta a imaginação com uma visão afro-futurista”, afirma o site do arquiteto, sobre seu trabalho, que já assinou a construção de diversos espaços públicos, como escolas, universidades, centros médicos e prédio habitacionais em países como Burquina Fasso, Benin, Mali, Quênia, Togo, Sudão e Moçambique, entre outros. “Informada pela tradição, nossa prática explora novos modos de construção sobre fundações há muito estabelecidas”, diz o texto. A utilização de materiais locais, bem como a aplicação de soluções eficazes e sustentáveis nas construções – capazes, por exemplo, de resfriar um edifício com o material correto e a abertura de espaços para circulação de vento – sem renunciar à beleza e à força estética de seu estilo são parte do que faz da arquitetura de Kéré a mais importante do mundo hoje.

Escola Schorge em Burquina Fasso

Escola Schorge em Burquina Faso

Alojamento para médicos em Léo, em Burquina Faso

Alojamento para médicos em Léo, em Burquina Faso

-Projeto cria biblioteca para surdos em pequena comunidade africana

O arquiteto de 56 anos nasceu em Gando, em Burquina Faso, e se tornou o primeiro de sua família a frequentar uma escola – sem ventilação ou iluminação corretas. Assim, desde o início de sua carreira Kéré defendeu a importância de construções que ofereçam conforto para as crianças estudarem e, não por acaso, o primeiro edifício que desenhou e construiu foi para uma escola em sua cidade natal. “Por meio do seu compromisso com a justiça social e o uso inteligente de materiais locais para conectar-se e responder ao clima natural, trabalha em países marginalizados cheios de limitações e adversidades, onde a arquitetura e a infraestrutura estão ausentes”, diz o comunicado oficial do Prêmio.

Visão noturna da Escola Schorge em Burquina Faso

Visão noturna da Escola Schorge

Escola primária em Gando

Escola primária em Gando

-A fascinante arquitetura de Saná, a capital do Iêmen que fica em pleno deserto

“Em um mundo em crise, me meio a valores e gerações em transformação, ele nos lembra o que sempre foi e seguirá sem dúvida sendo um pilar da prática arquitetônica: espírito comunitário e qualidade narrativa, que ele é capaz de recontar com compaixão e orgulho”, diz o texto. “Ele oferece uma narrativa na qual a arquitetura pode se tornar uma fonte de felicidade e alegria contínua e duradoura”, afirma o texto, que diz que incluir Kéré entre os laureados eleva a missão do prêmio, por seus “edifícios que demonstram beleza, modéstia, coragem e inventividade através da integridade de sua arquitetura”.

Interior da Assembléia Nacional de Burquina Faso

Interior da Assembléia Nacional de Burquina Faso

-Biblioteca feita de gravetos em Liyuan, na China, parece saída de um sonho

A capacidade do arquiteto de atuar em locais de extrema escassez e quase sempre esquecidos pelo mundo da arquitetura, melhorando a vida das populações através de construções ao mesmo tempo sustentáveis e esteticamente extraordinárias, foi destacada na celebração. “Eu espero mudar os paradigmas e levar as pessoas a sonharem e enfrentarem os riscos. Não é por ser rico que se deve desperdiçar material, e não é por ser pobre que não se deve buscar criações de qualidade”, afirmou Diébédo Francis Kéré, ao se tornar o primeiro arquiteto negro e africano a receber o Prêmio Pritzker. “Todo mundo merece qualidade, todo mundo merece o luxo, todo mundo merece conforto. Estamos interligados e preocupados com o clima, a democracia e a escassez que nos afeta a todos”.

Estruturas criadas pelo arquiteto para o festival Coachella de 2019

Estruturas criadas pelo arquiteto para o festival Coachella de 2019

Instituto de Tecnologia de Burquina

Instituto de Tecnologia de Burquina

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© foto 1: Lars Borges/Prêmio Pritzker/divulgação

© fotos 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8: Kéré Architecture/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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