Debate

Proibição de compra do petróleo russo pode resultar em desastre global; entenda

Yuri Ferreira - 10/03/2022 às 16:14 | Atualizada em 10/03/2022 às 17:27

OS EUA anunciaram nesta semana que vão proibir a compra do petróleo da Rússia, o que deve causar um colapso econômico no mundo todo. Se a economia global já sofria com uma nem tão rápida recuperação pós-covid, as novas e graves sanções contra a Rússia podem ter efeitos inimagináveis no mundo em que conhecemos.

Já observamos uma alta no preço do barril do petróleo e em todas as outras commodities (como minério de ferro), mas os efeitos dessas altas devem causar reflexos na economia do nosso dia-a-dia.

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Mudança nas cadeias globais

A Rússia é um dos principais fornecedores de petróleo e gás para os Estados Unidos e para a Europa Ocidental. Quando a invasão russa começou, no fim do mês passado, as sanções do Ocidente se direcionaram ao Kremlin, mas Moscou seguiu enviando gás e petróleo para seus inimigos.

Como Putin não parece querer se render ou mesmo trabalhar por um cessar-fogo, os EUA e a União Europeia seguem com uma política de pressão econômica através das sanções unilaterais contra a Rússia. Agora, o alvo da vez é o petróleo.

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Nessa semana, Washington mandou uma comitiva para discutir a “segurança energética” dos EUA à Venezuela. Os norte-americanos querem voltar a comprar o petróleo da Venezuela – o país com maior número de reservas de petróleo de todo o Ocidente – para não depender mais dos russos.

“Com relação à Venezuela, o propósito da viagem de autoridades [dos EUA] foi discutir vários assuntos -inclusive, certamente, segurança energética. Mas também para discutir a saúde e o tratamento a cidadãos norte-americanos detidos [no país], afirmou Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca na segunda-feira (7).

A compra do petróleo venezuelano iria causar uma mudança na política externa dos EUA, que sanciona o país e o impede de fazer comércio com outras nações do mundo ocidental. Além disso, a Casa Branca teria que reconhecer Nicolas Maduro como presidente do país, dando mais força ao regime venezuelano, conhecido por sua retórica anti-EUA.

Inflação iminente

Independente desse movimento geopolítico, vale lembrar que a exclusão da Rússia do mercado de combustíveis fósseis irá, inevitavelmente, causar uma alta da gasolina e uma consequente inflação geral, afinal, os derivados de petróleo seguem sendo o combustível de toda a operação logística global.

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Com a demora dos países desenvolvidos para substituir sua matriz energética e a contínua dependência do petróleo, todo o mundo irá sofrer com a alta do preço do barril, que marcou seu preço mais alto desde 2014 nessa quinta-feira (9).

Além disso, a Rússia é uma grande importadora de fertilizantes, que também já subiram de preço nos últimos meses. A tendência é que o preço dos alimentos também cresça, expandindo a fome ao redor do planeta.

Produtos derivados do ferro como o aço, o concreto armado e outras ferramentas também devem ficar mais caros com o isolamento econômico da Rússia. A crise que se aguarda com a continuidade da guerra e das sanções pode ser maior do que a causada pela Crise do Petróleo de 1973, quando os países da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) embargaram a produção do combustível fóssil por questões envolvendo Israel e Palestina.

Por que dependemos do petróleo?

A dependência do petróleo e a concentração de poder geopolítico nos países que podem extrair a substância de seu território estão novamente sendo a motivação de uma crise econômica global. Essa não será a primeira nem a última que veremos algo do tipo.

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E qual a solução? Substituir a matriz energética de petróleo por uma mais sustentável, que não agrida o meio ambiente e que seja democrática em acesso para as nações. O petróleo segue mandando no jogo porque a indústria dos fósseis ainda continua extremamente interessada nos lucros que esse líquido pode nos dar.

Se o petróleo não nos acabar através das guerras, como vemos na Rússia e vimos no Iraque, ele irá acabar com a humanidade graças aos seus terríveis e comprovados danos ao meio-ambiente.

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Fotos: Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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