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Racismo e crise de refugiados: por que a Ucrânia escolhe através da cor da pele quem sai do país?

Redação Hypeness - 04/03/2022 às 16:43 | Atualizada em 04/03/2022 às 17:06

Mais de um milhão de pessoas já deixaram o território da Ucrânia desde o início do ano graças às tensões posteriores à invasão da Rússia. Entretanto, ao observamos o que essa nova suposta crise de refugiados representa, podemos entender um pouco do racismo que opera na Europa e nos Estados Unidos, evidenciando o preconceito das nações “desenvolvidas” contra tudo que não é branco.

Imigração na Ucrânia escancara racismo em país “nazificado”

São diversos os relatos de racismo na fronteira entre Ucrânia e Polônia. Estudantes e trabalhadores de etnias não brancas, como negros africanos, caribenhos e americanos, árabes, paquistaneses e indianos são vítimas de violência na hora de tentar fugir da invasão operada por Vladimir Putin.

Fugindo da Ucrânia

São diversos os relatos de pessoas que têm sofrido racismo na fronteira para tentar sair da Ucrânia. Muita gente tem sido forçada a fugir a pé, sem apoio de carros, andando quilômetros em uma região de conflito militar sem amparo. Outros chegam aos postos de migração e não são atendidos ou sofrem agressões físicas por tentar escapar do país.

De acordo com a estudante de medicina nigeriana Rachel Onyegbule, que fazia seu curso de graduação na Universidade de Lviv, ela foi impedida de entrar nos carros da imigração, que foram lotados por nacionais ucranianos. “Chegaram mais de 10 carros para auxílio e nós ficamos para trás. Pensamos que, depois de levarem todos os ucranianos, fossem nos buscar, mas nos disseram que tínhamos de ir a pé. Que não havia mais autocarros e que tínhamos de ir a pé,” disse à CNN dos EUA.

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Populações não-brancas sofrem nas mãos de militares racistas da Ucrânia

“Os ucranianos tiveram prioridade sobre os africanos – homens e mulheres – em todos os pontos. Não é preciso perguntarmos porquê. Nós sabemos porquê. Eu só quero ir para casa”, completou a estudante nascida na Nigéria.

Saakshi Ijantkar, estudante indiana, relatou que viu seus amigos indianos sendo espancados pelas forças ucranianas ao tentar deixar o país na direção à Polônia. Ela ganhou prioridade e teve que deixar seus colegas para trás.

“Quando deixamos Kiev queríamos apenas sobreviver. Nunca achávamos que iriam nos tratar desse jeito nesse momento. Pensei que éramos iguais, que estávamos lutando juntos”, disse a estudante de engenharia espacial Barlaney Gurure, natural do Zimbábue, também à CNN.

O jogador brasileiro Guilherme Smith deu uma entrevista ao UOL relatando um caso de racismo na fronteira. “Um policial me deu um tapa muito forte no peito e eu paralisei. Não entendi porque ele fez isso comigo. Só estava pedindo informação a ele. Isso nunca tinha acontecido comigo. Na hora, nem sabia o que fazer porque ele tava com um fuzil na mão. Não podia falar nada também. Foi racismo”, disse.

Os episódios são diversos e mostram um padrão das forças armadas ucranianas, que foram pressionadas por entidades de raça e pela União Africana de Nações. O governo alegou que os militares estão sob “muita pressão” como justificativa para os relatos de racismo na fronteira.

Racismo na Ucrânia

A Ucrânia não possui um bom histórico quando se refere à questão racial. Dentro das forças militares do país está o Batalhão Azov, uma milícia legalizada de cunho neonazista e supremacista branca. Atualmente, o Azov está lutando contra o governo russo, mas, desde 2014, age dentro de diversos setores da sociedade para promover as ideias de Adolf Hitler e Stepan Bandera.

Esse último nome é crucial para compreender a dimensão racista que a sociedade ucraniana ganhou nos últimos anos. Bandera foi um líder nacionalista da Ucrânia que lutou contra a União Soviética e, depois de 1941, começou a colaborar com os nazistas para a implantação de um estado colaboracionista ucraniano. Bandera era notório antissemita, anticomunista, nacionalista e nazi.

Neonazista fantasiado com gorro da Klan na torcida do Praviy Sektor, da Ucrânia

Sua imagem tem sido carregada nas manifestações “nacionalistas” ucranianas e ele é considerado o mentor do batalhão Azov e do Pravyy Sektor (Setor Direito), um partido neonazista legalizado que participa do parlamento em Kiev.

Falamos disso nesse artigo: Entenda origem de símbolo usado por neonazista exibido pela extrema-direita em protesto em SP

No futebol, diversos brasileiros foram vítimas de ataques racistas e supremacistas, como Taison, ex-Shakhtar Donetsk, e Lucas Rangel, ex-Vorskla. Ambos foram alvos de cânticos racistas da torcida do Dínamo de Kiev, cujos ultras são ligados aos nacionalistas do Pravyy e do Batalhão Azov.

Taison Freda foi vítima de racismo nos gramados da Ucrânia e posteriormente foi punido por ser antirracista

A Europa supremacista

O que ocorre na Ucrânia não é singular em seu continente; Polônia, Hungria, Alemanha, República Tcheca e nações balcânicas tem visto um aumento das organizações nazistas em seus territórios. Enquanto em alguns países ela é menos permissiva, como na Alemanha, onde os grupos são coibidos e centenas foram presos nos últimos anos, há outros, como Polônia e Hungria, que enxergam o supremacismo branco com permissividade.

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Primeiro-ministro Húngaro se mantém no poder há décadas com discurso racista anti-imigração

Figuras como Órban, na Hungria, Le Pen, na França, o partido Vox, na Espanha, o Chega, em Portugal e o Lega, na Itália, mostram que o movimento anti-imigração é organizado e permitido ao redor da Europa e que o problema dos refugiados é a cor de pele deles.

A crise na Ucrânia não trouxe nenhum dos populistas anti-imigração de extrema direita para o palanque dizendo que eles não seriam bem-vindos. Todos abriram os braços para os brancos e se fecharam para os afegãos, sírios, somalis, líbios e iraquianos que tentavam uma nova vida na Europa.

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O primeiro-ministro da Bulgária, Kiril Petkov, que “esses não são os refugiados com os quais estamos acostumados. Esses são europeus, e, portanto, todos os outros países da União Europeia estão prontos para acolhê-los. Essas pessoas são inteligentes, educadas. Então não temos medo da onda de imigrantes que ocorrerá”.

Mateusz Morawiecki, chefe do parlamento polonês e aliado de Andrzej Duda, fascista anti-imigração que preside o país, afirmou que todos os ucranianos serão aceitos.

“Receberemos todos aqueles que precisarem. A sociedade ucraniana está cada vez mais amedrontada e estressada. Iremos aceitar dezenas, centenas e milhares de refugiados ucranianos”, disse. Enquanto isso, seu país fecha as portas para aqueles vindos do Oriente Médio e África. E é assim que é o pensamento dos europeus, em geral. Não se engane com as falas bonitas.

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Fotos: Getty Images


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