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Cobertura da mídia sobre guerra na Ucrânia reforça preconceito de países desenvolvidos contra refugiados

Redação Hypeness - 02/03/2022 às 18:20 | Atualizada em 09/03/2022 às 15:29

Desde o final do ano passado, milhares de residentes na Ucrânia decidiram sair do país após a derrocada nas relações entre Kiev e Moscou. Com a eclosão da guerra na semana passada, centenas de milhares de ucranianos e estrangeiros buscam refúgio nos vizinhos Polônia, Moldávia, Hungria, Eslováquia, Romênia e Belarus. Entretanto, um fato tem sido silenciado em meio a toda essa onda de refugiados: o racismo.

Estima-se que mais de 800 mil pessoas já atravessaram a fronteira rumo ao leste da Europa. A cobertura da mídia estadunidense e europeia e as falas de diversos políticos europeus nos relembram do peso do racismo em uma histórica crise de refugiados. Correspondentes internacionais e políticos proeminentes destilam falas com componentes racistas e xenofóbicos ao lidar com a situação dos imigrantes, em sua maioria europeus.

Civilizados, europeus, olhos azuis

A cobertura internacional da questão dos refugiados tem sido extremamente racista. Jornalistas de grandes veículos comentam, em tom de solidariedade, que essa crise de refugiados têm afetado, em suas palavras, “cristãos”, “de olhos azuis”, com “cabelos loiros”, “parecidos conosco”, “civilizados” e “europeus”.

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Em contraste, o tom das falas sugere que a crise de imigrantes e refugiados que se estendeu (e segue se estendendo) por conta de conflitos em África e no Oriente Médio é menos relevante por conta da cor da pele das vítimas que buscam salvação.

Em entrevista à CBS, uma das principais redes de notícia dos EUA e considerada progressista, David Sakvarelidze, ex-procurador-geral adjunto da Ucrânia, reforçou os ideais racistas que permeiam essa cobertura. “É muito emocional para mim porque eu vejo europeus com olhos azuis e cabelos loiros sendo mortos todos os dias com mísseis de Putin, seus helicópteros e seus foguetes”, afirmou.

Em coluna publicada no tabloide The Telegraph, o jornalista britânico escreveu: “Eles se parecem tanto com a gente. Isso é o que faz ser tão chocante. A Ucrânia é um país europeu. Sua população assiste Netflix e tem contas no Instagram, votam em eleições livres e leem jornais não censurados. A guerra não é mais uma coisa que atinge populações empobrecidas e remotas. Pode acontecer com qualquer um”, concluiu.

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Também na CBS, outra declaração chocante evidenciou o racismo na cobertura da guerra feita por parte da imprensa ocidental. A correspondente sênior da emissora, Charlie D’Agata, disse que a Ucrânia “não é um país, com todo o respeito, como o Iraque ou o Afeganistão, que viu conflitos se estendendo por décadas e décadas. Esse é um país civilizado, Europeu – e tenho que escolher de forma delicada as palavras nessa fala – onde não se espera que isso ocorra”, arrematou.

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O que faz os jornalistas supracitados acreditarem que países não-brancos e não-europeus têm uma tendência maior à guerra? Teriam esses jornalistas se esquecido que Líbia, Iraque e Afeganistão foram invadidos por, pasmem, um país de maioria branca, democrático e cristão como os Estados Unidos? O que faz os ucranianos serem mais dignos de compaixão do que os sírios?

O discurso supremacista branco da imprensa do Atlântico Norte também não foi o único a reproduzir essas ideias. Ao longo da Europa, as falas de políticos também repercutiram o racismo.

O primeiro-ministro da Bulgária, Kiril Petkov, disse que “esses não são os refugiados com os quais estamos acostumados. Esses são europeus, e, portanto, todos os outros países da União Europeia estão prontos para acolhê-los. Essas pessoas são inteligentes, educadas. Então não temos medo da onda de imigrantes que ocorrerá”. Os outros imigrantes de pele escura não são inteligentes? Não são educados?

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Mateusz Morawiecki, chefe do parlamento polonês e aliado de Andrzej Duda, um dos mais proeminentes fascistas europeus, não foi tão direto, mas a realidade é implacável. “Receberemos todos aqueles que precisarem. A sociedade ucraniana está cada vez mais amedrontada e estressada. Iremos aceitar dezenas, centenas e milhares de refugiados ucranianos”. Enquanto isso, seu país impede a entrada de afegãos, iraquianos, sírios e líbios refugiados de guerra.

O racismo na fronteira

O que ocorre no discurso se revela na prática. Diversos moradores não-brancos da Ucrânia tem tido dificuldade de sair do país em meio à crise e alguns revelam violência por parte das forças armadas de Kiev contra essa população de refugiados, em especial os vindos do subcontinente indiano e de África. As histórias são diversas, mas replicam a lógica do racismo que opera na Ucrânia e se acentuou após o Euromaidan.

Rachel Onyegbule, uma estudante nigeriana no primeiro ano de Medicina na cidade de Lviv, relatou que foi deixada à deriva e foi impedida de entrar em carros compartilhados para tentar fugir do país. “Chegaram mais de 10 carros para auxílio e nós ficamos para trás. Pensamos que, depois de levarem todos os ucranianos, fossem nos buscar, mas nos disseram que tínhamos de ir a pé. Que não havia mais autocarros e que tínhamos de ir a pé,” disse à CNN dos EUA.

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“Os ucranianos tiveram prioridade sobre os africanos – homens e mulheres – em todos os pontos. Não é preciso perguntarmos porquê. Nós sabemos porquê. Eu só quero ir para casa”, completou Onyegbule.

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Saakshi Ijantkar, indiana que estava no penúltimo ano da graduação de medicina em Kiev, relatou que seus amigos indianos foram agredidos pelos guardas ucranianos ao cruzar a fronteira.

“Foram muito cruéis. O segundo posto de controle foi o pior. Quando abriram o portão para atravessarmos a fronteira ucraniana, ficamos entre a Ucrânia e a Polônia, e o exército ucraniano não permite que os homens e os rapazes indianos atravessem. Só permitem a entrada das moças indianas. Tivemos de chorar e, literalmente, suplicar de joelhos. Bateram nos rapazes. Não havia razão alguma para lhes baterem com tanta crueldade”, disse Ijantkar à CNN Portugal.

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Existem relatos de animais de estimação ganhando prioridade na hora de entrar nos países vizinhos à Ucrânia em detrimento de pessoas negras e asiáticas. Os incidentes racistas levaram a União Africana e organizações políticas dos EUA a exigir um comportamento diferente de Kiev, que, através de comunicado, disse que seus guardas fronteiriços estão “sob estresse”.

“Quando deixamos Kiev queríamos apenas sobreviver. Nunca achávamos que iriam nos tratar desse jeito nesse momento. Pensei que éramos iguais, que estávamos lutando juntos”, disse a estudante de engenharia espacial Barlaney Gurure, natural do Zimbábue. Não estão todos juntos.

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Fotos: © Getty Images


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