Debate

Ruim de crase? Brasil já teve projeto para acabar com uso do acento

Vitor Paiva - 03/03/2022 às 10:10

Tecnicamente conhecida como acento grave, a crase é um sinal indicador que representa a fusão de duas vogais idênticas, ocorrida pela junção da preposição “a” com o artigo “a” e alguns pronomes que começam com a letra “a” – mas, para muitas pessoas, a crase é um problema, um mistério, uma charada, uma esfinge, um pesadelo gramatical do português. O trauma com o acento é tamanho que, em 2005, um deputado federal apresentou um projeto de lei que previa o fim da crase, um acento, segundo o texto do projeto, ignorado pela maioria das pessoas, e que servia somente para “humilhar muita gente”.

O acento grave, também conhecido como crase, é um dos pontos mais temidos da nossa gramática

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O que pode parecer uma regra excessivamente complexa da grafia de nossa língua, quando vista aplicada em exemplos pode se tornar mais simples e até mesmo intuitiva: na frase “vamos à loja”, por exemplo, a preposição “a” se junta ao artigo feminino que precede a palavra “loja”. A fórmula resumida, portanto, é “vamos a + a loja” para utilizar a crase, e a mesma lógica se aplica a frases como “Pedro foi à praça”, “eles desobedeceram às normas”, e assim por diante. A crase não é usada antes de nomes de cidade, antes de palavras masculinas, antes de verbo, entre palavras repetidas (como “cara a cara”), antes de palavras flexionadas no plural, e ainda possui situações opcionais, como antes de nomes de mulher – e mais: eis, talvez, alguns dos motivos para a regra ser vista como uma pedra no sapato da língua portuguesa.

A fórmula essencial do uso da crase, que explica boa parte de suas aplicações

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O Projeto de Lei 5154/05 foi apresentado por João Herrman Neto, então deputado federal do PDT por São Paulo, e tinha como objetivo eliminar o que o deputado apontava como o erro mais comum de nossa escrita, e também facilitar o ensino da língua portuguesa. “O acento não faz falta nenhuma. Simplesmente deixará de ser escrito (…) As ambigüidades podem ser desfeitas com o estudo e a análise do texto, sem levar em consideração esse sinal obsoleto que o povo já fez morrer”, afirmava o texto. Em meio a outras considerações, o PL apresentava como ilustração e argumento um trecho da crônica “Tropeçando nos acentos”, do escritor gaúcho Moacyr Scliar, que dizia que a “população brasileira se divide em pobres e ricos, mas também se divide em dois grupos, os que sabem usar a crase, a minoria, e a maioria que tem um medo existencial a esse sinal”.

Gramáticos e especialistas se opuseram fortemente ao fim da crase

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O projeto chegou a ser encaminhado para ser avaliado por comissões, antes de chegar ao Senado, mas rapidamente tornou-se alvo de intensas críticas por parte de linguistas e gramáticos, que o acusaram de querer abolir um “fato sintático”, como alguém que busca “revogar a lei da gravidade”, segundo reportagem da época. Diante das críticas, o deputado João Herrman Neto desistiu de sua iniciativa gramatical, e a crase permanece, orientando sentidos em sentenças escritas em português, e até hoje arrepiando os cabelos de quem teme errar sua aplicação.

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© fotos 1, 2: Hypeness

© foto 3: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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