Debate

Rússia fora da Copa: os pesos e medidas do mundo do futebol frente à guerra

Redação Hypeness - 03/03/2022 às 18:45 | Atualizada em 07/03/2022 às 12:53

Há pouco menos de quatro anos, o mundo observava o “rolê aleatório” de Ronaldinho Gaúcho na abertura da Copa do Mundo de 2018. Depois da invasão da Ucrânia em fevereiro desse ano, a FIFA e a UEFA anunciaram o banimento da seleção russa de futebol dos eventos internacionais e o banimento dos clubes russos de competições europeias.

Banimentos não são comuns dentro do mundo do esporte e, em especial, dentro do futebol. Para entender a importância e as controvérsias envolvendo a decisão da FIFA e da UEFA, precisamos olhar para a conjuntura que levou a esse movimento histórico e para o passado dessas organizações.

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putin futebol

Vladimir Putin, Mohammad bin-Salman, ditador saudita, e Gianni Infantino, presidente da Fifa, assistem ao jogo de estreia da Copa do Mundo de 2018

Sanções à Rússia

A invasão da Ucrânia por parte do governo russo foi extremamente criticada do lado Oeste do planeta. O início das sanções – que tentam criar uma crise econômica na Rússia – partiram da Organização do Tratado do Atlântico do Norte (OTAN), liderada pelos EUA.  Diversos bancos russos foram excluídos do sistema SWIFT, utilizado para transferências internacionais. Além disso, outras medidas foram tomadas para isolar a Rússia economicamente.

Sanções são medidas econômicas que tem como fim excluir um país do sistema comercial e econômico mundial. Países alvos de sanções dos EUA são Venezuela, Irã, Cuba, Coreia do Norte e a própria Rússia. A ideia é desestabilizar a economia dessas nações para que os regimes sejam derrubados sem a necessidade de uma intervenção militar. Mas as sanções são eficazes?

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“As restrições econômico-financeiras, quando implementadas, alcançam seus objetivos em menos de 40% dos casos, segundo estudo influente do economista Gary Hufbauer (Peterson Institute for International Economics). Portanto, o entendimento de que sanções constituem uma alternativa ao uso da força precisa ser relativizado”, explica Cristiane Lucena, professora do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, em artigo para o Jornal da USP.

Sanções culturais?

As críticas ao governo Putin e à invasão ucraniana têm se espalhado para além das sanções econômicas que se mantém, teoricamente, no campo do poder em si das nações. A decisão da FIFA e da UEFA em retirar clubes russos e a seleção de futebol das competições internacionais é acompanhada de outras medidas culturais contra o país.

Contas de modelos russas foram retiradas do OnlyFans, estabelecimentos de proprietários russos estão sendo atacados ao redor da Europa e até uma organização de cuidados oncológicos anunciou a suspensão de suas operações em território russo. A guerra contra Vladimir Putin transbordou os bancos centrais e chega a vida cultural dos russos ao redor do planeta, que pagam pelos erros de seu líder.

Entretanto, todo esse movimento do Ocidente contra o Kremlin e os russos nos faz questionar a facilidade desse tipo de sanção que não tem precedentes históricos. E olhar para o futebol nos faz compreender melhor a controvérsia de toda essa decisão.

O terror desimpedido

A decisão unilateral da Fifa em retirar a Rússia da próxima Copa do Mundo está sendo debatida na Corte Arbitral do Esporte, instância internacional do esporte no planeta. A Fifa argumenta que “o futebol está totalmente unido aqui e em total solidariedade com todas as pessoas afetadas na Ucrânia“.

Existem duas outras situações militares que podem ser comparadas ao que ocorre entre Rússia e Ucrânia. A primeira é a invasão saudita ao território yemenita. Desde 2014, o reino da Arábia bombardeia e mata milhares de civis do Iêmen para garantir sua influência política dentro da península arábica.

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Jovens jogadores defendem Iraque da Guerra em jogo em meio à invasão dos EUA ao país em 2003

Desde 2014, a Arábia Saudita não sofreu nenhum tipo de repressão por parte das organizações internacionais de futebol, seja a AFC, confederação asiática, ou a FIFA. Além disso, a Arábia Saudita recentemente adquiriu através do seu Fundo de Investimento Público (PIF) o Newcastle, um time britânico que disputa a Premier League, a liga mais rica do mundo do futebol, em um caso de sportswashing.

Em 2003, os EUA invadiram de forma ilegal o Iraque por conta das falsas armas de destruição em massa que o país do Oriente Médio teria “ocultado”. A guerra durou até o ano de 2011 e matou mais de 62 mil militares e até 600 mil civis. A FIFA, a UEFA ou o COI nunca baniram os EUA pelos seus crimes de guerra no Iraque.

Esporte é política

Nessa semana, denunciamos o caso da economista Paola Schietekat, uma mexicana que trabalhava em um comitê que organizava a Copa do Mundo do Catar em 2022. Ela foi vítima de assédio sexual e denunciou o caso. Ela foi condenada a 100 chibatadas e sete anos de prisão. A Fifa não se responsabilizou e não comentou o caso.

A Arábia Saudita já sediou diversos jogos de ligas europeias e já gastou cerca de 1,5 bilhão de dólares em sportswashing, prática de relações públicas que tenta mudar a consciência coletiva sobre uma organização ou de um governo. O governo saudita, conhecido por suas legislações rígidas contra as mulheres, LGBTQIA+ e descendentes de indianos e por ter matado jornalistas e opositores, consegue se transformar em um país bem-visto publicamente por investir em futebol e em outros esportes.

Manifestações contra a realização da Copa do Mundo do Catar em 2022 foram feitas; país é o principal investidor do Paris Saint Germain e despeja seus petrodólares para conquistar relevância através do esporte

“Sob o regime de Mohammad bin Salman, os defensores dos direitos humanos sauditas foram submetidos a uma repressão brutal, com inúmeros ativistas presos – incluindo Loujain al-Hathloul e outros corajosos defensores de direitos da mulher. Houve uma flagrante ocultação sobre o terrível assassinato de Jamal Khashoggi e a coalização militar liderada pela Arábia Saudita no Iêmen tem um histórico vergonhoso de lançar ataques indiscriminados a casas e hospitais”, explica Felix Jakens, diretor da Anistia Internacional, organização que denuncia violações contra os direitos humanos.

“A Arábia Saudita está tentando usar o glamour e o prestígio da Premier League como uma ferramenta de relações públicas, para distrair os registros abismais de direitos humanos no país”, explica.

A Rússia mantinha investimentos no futebol europeu através da Gazprom, empresa pública de gás e petróleo. O principal clube da Europa Ocidental patrocinado pela companhia é o Schalke 04, da Alemanha. Comparativamente, o investimento russo no futebol não é tão grande quanto o saudita ou do Qatar. E, como já diria Nelson Rodrigues, “muitas vezes, é a falta de caráter que decide a partida. Não se faz política e futebol com bons sentimentos”. A ver como as sanções da Fifa e da Uefa irão continuar com o desenrolar da terrível invasão da Ucrânia.

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Fotos: Getty Images


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