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Russofobia: origens históricas e sintomas contemporâneos de uma guerra contra um povo (e não contra seu presidente)

Redação Hypeness - 21/03/2022 às 12:21

Desde o início da Rússia contra Kremlin contra a Ucrânia, muitos movimentos tem sido feitos não somente contra Vladimir Putin, comandante-em-chefe das forças russas, além de sanções contra milionários russos, empresas do país e contra o próprio governo de Moscou. Muitos desses esforços para tentar conter a invasão militar, entretanto, ganharam um outro tom: a russofobia.

Quando abordamos a crise imigratória dos refugiados ucranianos aqui no Hypeness, reforçamos o quanto as pessoas negras e do subcontinente indiano que tentavam fugir estavam sendo vítimas de preconceito enquanto tentavam deixar a Ucrânia. A cor de pele era um ponto diferencial nessa crise de refugiados, com um evidente privilégio branco ocorrendo nas fronteiras europeias. Aproveitamos também para criticar a cobertura da mídia, sobretudo do Ocidente, que esbanjou racismo no início do noticiário sobre a guerra.

Bandeiras da Rússia são queimadas em manifestação na Itália

Leia: Cobertura da mídia sobre guerra na Ucrânia reforça preconceito de países desenvolvidos contra refugiados

Mas para entender o que é a branquitude e porque a questão não é tão simples, podemos ler o comentário do jornalista Charlie D’Agata, na CBS. “Esse não é um lugar, com todo respeito, como Iraque, ou Afeganistão, que tem visto conflitos por décadas. Kiev é relativamente civilizada, relativamente europeia. Preciso escolher essas palavras com cuidado, também. É uma cidade que você não espera que isso aconteça”, disse D’Agata.

E apesar da escolha de palavras não ter sido tão cuidadosa como o jornalista estadunidense queria, ele comete o ato falho de relembrar algo: Kiev não é civilizada, nem europeia. É re-la-ti-va-men-te. E para entender isso, temos que olhar profundamente para a história dos povos eslavos.

Slaves, eslavos

Russos, ucranianos, sérvios, croatas, poloneses, tchecos, búlgaros e tantos outras populações europeias são descendentes dos eslavos. Eslavo é um termo linguístico que faz referência às línguas faladas por esses países (que compartilham uma origem em comum), mas também é uma palavra que define a etnia desses povos.

Os primeiros eslavos habitaram a região do atual leste europeu após o fim do império romano. Eram povos tribais que hoje são considerados a raiz da maior parte da população que habitava a região e, posteriormente se organizariam no rus de Kiev, a origem do Império Russo.

Diversas fontes apontam que a origem do termo slave, ou seja, escravo em inglês, seja uma palavra derivada da autodenominação dos povos eslavos (slav). Durante guerras de conquista na Idade Média, povos eslavos foram escravizados por europeus ocidentais. Existem ideias controvérsias a essa tese, mas independentemente de sua realidade, ela serve para um ponto.

Antes de tudo, vale ressaltar: o sentimento russofóbico e o preconceito sistemático contra os povos eslavos na história não são comparáveis de forma alguma ao que os povos africanos foram imputados desde a colonização e escravização.

A real branquitude foi construída pelos anglo-saxões e, para eles, russos étnicos não participavam da supremacia planejada no racismo ocidental

O racismo estrutural que ocorre no nosso mundo é uma tese da Europa Ocidental. Os países responsáveis pela eugenia, pela sistemática conquista de territórios e pela dominação de povos por fenótipo ou etnia são a França, o Reino Unido, a Alemanha, Portugal, Holanda, Bélgica e Itália. Foram esses os países que desenvolveram as teorias que justificaram as colonizações na América Latina, a escravidão dos povos de África e o imperialismo na Ásia. São eles, teoricamente descendentes do Império Romano e dos Francos, que são, de fato, os brancos. O primeiro estado racializado da história foi a Inglaterra, que institucionalizou a perseguição aos judeus.

Durante a Idade Média, os povos escravizados pelos europeus do Ocidente (estimativas apontam para 10% da população da França, por exemplo, ter sido composta por escravos até o ano de 1100) eram os muçulmanos e os eslavos.

A russofobia ou eslavofobia era clara e evidente na França e no Reino Unido durante o período do século XIX, parte por conta das guerras operadas por Napoleão e parte por conta de um distanciamento daqueles povos diferentes em cultura do Ocidente. Existem registros de russofobia na obra de Bram Stoker, escritor de ‘Dracula’, e em panfletos do governo francês mesmo após as derrotas napoleônicas.

O regime nazista de Hitler e o regime fascista de Benito Mussolini ativamente caçaram eslavos durante seu período no poder. Os povos eslávicos eram vistos como os judeus e planos para exterminá-los foram colocados em prática. Ou seja, russos e ucranianos eram fenotipicamente brancos, mas não etnicamente, o que lhes colocava na mira da perseguição.

Um outro exemplo que pode ajudar a elucidar esse caso: ao longo da história, os ingleses colonizaram e colocaram os irlandeses – um povo fenotipicamente branco – em regime de servidão. Diversos crimes de ódio foram registrados contra minorias irlandesas na Inglaterra e nos EUA. Mesmo eles sendo brancos, eles não participavam da ideologia supremacista desses povos.

Hoje, é consenso de que os povos eslavos são brancos. Mas ao ouvir frases como as de Charlie D’Agata, relembramos que, para a visão ocidental de mundo (coincidentemente, a dos mesmos países responsáveis pela colonização), os eslavos são só relativamente brancos.

Russofobia liberada

Recentemente, a Reuters informou que a Meta, corporação dona do Whatsapp, Facebook e Instagram, iria permitir a exaltação do Batalhão Azov, grupo neonazista ucraniano, e o discurso de ódio contra os russos. A medida foi duramente criticada, e, após algumas semanas, foi retirada do ar.

“Estamos tentando deixar claro que não podemos permitir violência contra os russos no geral”, disse um memorando interno da empresa duas semanas depois do início da guerra.

Na Itália, a Universidade de Milano-Bicocca proibiu um curso para falar sobre a contribuição literária de Fiódor Dostoiévski por ele ser russo. Em São Paulo, o Bar da Dona Onça retirou a vodka russa e os strogonoffs do cardápio. Ainda na capital paulista, uma mostra de cinema russo foi cancelada. Em Nova York, um pianista russo foi proibido de tocar em um concerto de música clássica. Na Inglaterra, a filarmônica de Cardiff retirou Tchaikovsky de seu repertório.  Na Catalunha e na Alemanha, restaurantes russos foram vandalizados por manifestantes pró-Ucrânia.

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Genia Petrova, dona de um estabelecimento em Barcelona, foi vítima dos ataques. “O fato de eu ser russa não é sinônimo de estar apoiando Vladimir Putin. Não quero ser estigmatizada. Falo em nome dos muitos russos que vivem aqui”, contou à agência CAT.

O sentimento anti-russo criado no Ocidente para tentar fomentar a narrativa pró-Ucrânia. O mesmo ocorreu em setembro de 2001 contra os povos árabes e até hoje povos do oriente médio são estigmatizados por isso. Só a comunidade japonesa sabe o quanto sofreu no Ocidente após a onda anti-nipônica que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A narrativa russofóbica é extremamente similar à islamofobia e ao que ocorreu no início da pandemia contra os chineses. Se querem acabar com a guerra, o sentimento russofóbico não é um aliado. A guerra deve parar. E deve parar com a ajuda dos russos na luta pela paz. Eles não são nossos inimigos.

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Fotos: Getty Images


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