Inspiração

‘Solidão é uma narrativa comum para muitas mulheres’, diz Bruna Linzmeyer sobre personagem em Pantanal

Rafael Oliver - 21/03/2022 às 17:46 | Atualizada em 24/03/2022 às 10:30

Natural de Corupá, um município com cerca de 15 mil habitantes no interior de Santa Catarina, Bruna Linzmeyer sonhava, desde cedo, em sair da pequena cidade onde nasceu. E foi bem longe: ficou conhecida no Brasil todo. Aos 29 anos, a atriz já é dona de uma extensa carreira de sucesso. Após papéis em minisséries de destaque, ganhou reconhecimento nacional ao interpretar uma menina autista na novela global Amor à Vida (2014). No mesmo ano fez sua estreia no cinema, no filme Rio, Eu te Amo. Atualmente, é um dos grandes destaques de Pantanal, novela que ocupará a faixa das 21h na Globo a partir do dia 28 de março. 

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O talento de Bruna como atriz é indiscutível. Porém, longe dos sets de filmagem, também conquistou um papel importante: é hoje uma das mais ativas vozes nas causas LGBTQIA+, no movimento feminista e contra os padrões estéticos impostos pela sociedade. Defensora dos corpos naturais e das belezas diversas, a catarinense também chocou a internet ao abrir as portas de sua casa para a Revista Vogue. Seu lar, montado de maneira afetiva, com paredes descascadas, livros velhos, plantas espalhadas pelo chão e móveis adaptados de brechós e garimpos, dividiu opiniões e até virou meme. Foi justamente de lá que Bruna nos recebeu, por videoconferência, para contar tudo isso e muito mais em uma conversa descontraída. 

Hypeness: Aproveitando que esse é um assunto fresco, você acabou de terminar as gravações de Pantanal. Conta um pouquinho para a gente sobre sua nova personagem, a Madeleine? Como foi a construção, o processo para entrar na personagem e o que teve de diferente dessa vez?

Bruna: Nossa, resumir um processo assim, tão intenso, é desafiador. Eu gosto muito de pesquisa, gosto muito de construção de personagem. Gosto de ir montando coisinhas ao longo do tempo. Acho que a gente teve bastante tempo de ensaio e isso foi legal. Eu tive algumas intuições pra Madeleine: que ela tinha uma postura diferente da minha, que ela tinha um timbre de voz diferente do meu. Porque eu tenho uma postura mais relaxada. Eu achei que ela talvez tivesse uma postura mais ereta, mais endurecida. E eu tenho uma voz mais doce, falo mais devagar. E eu falei: acho que essa mulher tem uma voz um pouco mais assertiva e com o passar do tempo mais amarga. Então, comecei a trabalhar essas coisinhas, fui fazendo uma aula de ioga, uma fonoaudióloga e fui construindo isso. Os ensaios também foram muito importantes para construir a Madeleine a partir do encontro com outros atores. E aí depois vem figurino, caracterização, direção de arte. Tudo isso vai tecendo um pouco quem ela é. Mas foi um processo muito gostoso pra mim. Descobri muitas coisas importantes e me diverti muito fazendo.

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Hypeness: Você teve um um reencontro com a natureza. Você que viveu no interior até os dezessete anos, como foi esse reencontro, gravar em cenários tão maravilhosos que a gente tem aqui no Brasil? Teve um sabor especial? 

Bruna: Ah, foi uma loucura. O Pantanal é um mundo muito especial, é muito diferente de tudo que eu já tinha visitado e visto. É tudo muito amplo, é um lugar que não tem montanhas. Então você olha e não tem fim, não acaba. Não tem uma montanha, uma cordilheira lá no final, sabe? Muitos bichos, muitos sons e muitos pássaros cantando o tempo todo, muitos bichos atravessando na sua frente, cobra, veado, jaguatirica, capivara, jacaré, tuiuiú. São bichos que a gente também não está muito acostumado. Mesmo eu que venho da roça de Santa Catarina, é um tipo de vegetação e fauna diferente do que tem no Pantanal. Então esses bichos são muito livres no meio da natureza, isso é muito impressionante de ver e é muito legal. Eu também ficava com muita vontade de conversar com as pessoas, para entender a dinâmica daquele lugar. Fui encontrando muitas pequenas Madeleine, sabe? Pessoas que estão lá e não queriam estar. Pessoas que foram de uma cidade maior e foram morar no Pantanal. 

Hypeness: De alguma forma essas mulheres te inspiraram a fazer essa essa personagem?

Bruna: Muito! Elas trouxeram muito carinho, muita emoção para construção da Madeleine. Não só as mulheres que eu encontrei, que eu pude conversar lá. Mas também é uma história muito comum, essa história da Madeleine. Existem nuances dependendo de onde você está, da classe social, da sua cor, tudo isso modifica. Mas ela é uma história de solidão, de uma mulher que foi ficando muito solitária. E que tem uma ausência muito grande de amor.

Então essa solidão é uma narrativa muito comum para muitas mulheres. E eu, durante a minha vida, conheci muitas mulheres que enfrentaram essa solidão. Eu tinha um ritual de falar o nome dessas pessoas em voz baixa para entrar em cena. Era também através da história delas que eu podia contar a história de Madeleine.

Hypeness: A gente sabe que você vai inspirar muitas mulheres que não aceitam mais a situação em que vivem. Como você encara essa responsabilidade?

Bruna: Olha, é sempre uma responsabilidade comunicar, né? Trabalhar com comunicação, falar com as pessoas. Mas eu acho que essa é uma história nossa. Eu também posso falar isso porque muitas mulheres me contaram suas histórias. Eu não estou sozinha aqui falando sobre isso, pensando nessas coisas. Tem um lado da Madeleine, que pode existir uma identificação muito grande no sentido da solidão. Mas a Madeleine também é uma pessoa muito mimada. Muito equivocada, erra muito, tem muitas nuances e isso é muito interessante na construção de uma personagem pra uma atriz. A relação com o filho, por exemplo, vai ficando muito complexa. Até que ponto tudo o que ela viveu também influencia na relação que ela consegue ter com aquele filho. Eu acho que vai dar pra ter raiva, empatia, vai dar pra ter muitas coisas. Estou curiosa também de saber como é que as pessoas vão receber a Madeleine.

Hypeness: Você já declarou que se consultava com uma bruxa. Quando leu a sinopse de Pantanal, qual a sensação que teve ao ver o personagem Velho do Rio, um bruxo? 

Bruna: Eu não tenho uma religião específica. Mas eu tenho algumas religiões porque a minha família é muito múltipla. Minha mãe trabalhou na igreja católica e hoje em dia trabalha num centro espírita, por exemplo. Eu também frequento candomblé. Enfim, muitas religiões atravessam a minha vida. Já fui pra igreja evangélica, fui coroinha. Todas as mulheres e alguns homens da minha família também trabalharam e trabalham como benzedeiras, como parteiras. Entendem muito de ervas, medicina natural. Tudo isso é um conhecimento ancestral que chega até mim também.  Eu acredito muito nesse tipo de olhar sobre a vida. Eu acho que o Velho do Rio é um pouco essa figura, de uma ancestralidade também. O Candomblé, por exemplo, fala muito de ancestralidade. É uma religião que está conectada a quem veio antes de você. E eu acho muito bonita essa representação de alguém que te trouxe até ali. O Velho do Rio está cuidando do caminho de quem veio depois dele.

Hypeness: A espiritualidade também tem a ver com a sua alimentação orgânica? E como você adotou isso pra sua vida?

Bruna: Engraçado que eu estava agora visitando os meus pais lá em Corupá e a gente estava rindo porque quando criança, guardávamos dinheiro pra ir no shopping e poder comer um McDonald ‘s. Isso era um ritual familiar. A gente não tinha muita consciência coletiva sobre a alimentação e foi a época que essas grandes marcas chegaram no Brasil. Depois que saí de casa, fui comendo cada vez menos carne. Quando eu comia eu passava mal. A digestão era muito difícil. Depois fui tomando consciência da indústria da carne, do desmatamento da Amazônia. Olhar para os animais. A vaca é muito fofinha, ela parece um cachorro. Eu não estou afim de comer a vaquinha. Hoje em dia eu me sinto muito melhor tendo uma alimentação baseada em vegetais e grãos do que em carne.

Hypeness: A gente pode falar um pouquinho da casa mais famosa do Brasil? Não o Big Brother, é a sua. 

Bruna: A minha? (risadas) Estou em casa, a minha poltrona está ali, o meu balanço não foi vendido. Fake news. Eu dou risada dos memes. Alguns são um pouco mais chatos, mas outros são muito divertidos. É muito louco que as pessoas me marcam em poltronas todas rasgadas, cagadas que nem a minha, né? Quando eu vejo eu realmente acho a poltrona bonita, entendeu? (risadas) 

Hypeness: Lembrando do dia que te vi na coletiva de “O Sétimo Guardião”, você parecia uma fã ali querendo tirar fotos. Nas redes sociais, você expõe suas inseguranças. Parece muito “gente como a gente”. Foge um pouco do estereótipo de atriz global. Você tem consciência disso? 

Bruna: Olha, eu tenho consciência porque as pessoas falam muito disso. Eu sonhava em sair de Corupá. Já fui a menina do interior que assistia novela, que era fã do Kaique Brito. Minha família é uma família muito simples. Continuo muito conectada com essa Bruna. E é um trabalho como outro qualquer. Um trabalho que eu me esforço muito, que eu preciso me dedicar, que é difícil e que, graças às bruxas, paga as minhas contas também.

Hypeness: Como você lida com a pressão das redes por ser uma voz ativa, sobretudo pela liberdade de gênero?

Bruna: Acho que eu fui ganhando essa visibilidade enquanto uma mulher que se entende sapatão, que gosta de mulheres ou que é feminista. Não foi uma coisa que, de algum jeito, trabalhei pra isso acontecer. Isso foi acontecendo. Eu fui vivendo, falando… As pessoas queriam ouvir, eu ia falando mais… Então a coisa foi acontecendo e virou o que é hoje, super interessante, bonita. Minha primeira namorada foi em 2015. Falava-se muito pouco sobre isso, né? A gente não tinha uma atriz jovem na Globo falando sobre isso, hoje em dia tem muito mais gente. Eu fico feliz de ser mais uma pessoa que fala sobre isso. Eu não sinto uma pressão, eu acho que existe uma responsabilidade quase artística também, sabe? A mesma responsabilidade que eu tenho de fazer uma personagem. Eu quero que essa personagem seja bem representada. Que ela faça sentido na vida.

Eu tenho uma perspectiva. Mas uma pessoa muito parecida comigo já vai ser muito diferente. Sou apenas mais uma pessoa falando sobre isso. Importante também a gente ter isso em mente. Eu não sou dona da verdade, eu não sei sobre tudo. Eu também estou aprendendo muito trocando com as pessoas. Eu acho as redes sociais uma fonte muito importante de troca. Posso também ouvir o que as pessoas têm para dizer, ouvir o que as pessoas estão questionando. Não sei se é sobre pressão. Eu faço parte dessa comunidade e eu falo sobre ela do lugar de onde eu posso falar, que é onde eu estou.

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Escrita por Bruno Luperi, adaptada do roteiro original de Benedito Ruy Barbosa, com direção artística de Rogério Gomes, o remake de Pantanal, em que Bruna viverá Madeleine, chega às telas da TV Globo no dia 28 de março, na faixa das nove. 

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Imagens: Globo/ João Miguel Jr

Agradecimentos: Julia Costa, Renata Ramos e Fabi Silva.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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