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Stepan Bandera: quem foi o colaboracionista nazista que se tornou símbolo da direita ucraniana

Yuri Ferreira - 23/03/2022 às 16:49

Se você buscar por imagens de manifestações políticas na Ucrânia desde 2010 irá encontrar flâmulas e quadros de Stepan Bandera. Esse homem hoje é pintado como herói pela direita ucraniana e seu pensamento possui profunda influência na política do país e nos grupos paramilitares neonazistas como o Batalhão Azov. Para entender a figura de Stepan Bandera, conversamos com Rodrigo Ianhez, especialista no período soviético formado pela Universidade Estatal de Moscou.

Quem foi Stepan Bandera?

Manifestação de nacionalistas ucranianos defendendo o legado de Stepan Bandera em 2016

Stepan Bandera nasceu em 1909 na região da Galícia, hoje um território pertencente à Ucrânia mas que passou por períodos de dominação do Império Austro-Húngaro e da Polônia. No fim dos anos 20, ele ingressa na Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), uma organização ativista pela formação de um estado  independente.

“A OUN e Bandera organizaram diversas ações contra os poloneses na região da Galícia, que à época estava sob controle da Polônia”, explica Rodrigo. A região onde hoje fica Lviv – principal cidade do oeste ucraniano – fazia parte do território polonês.

Após o exército nazista invadir a Polônia e expandir suas operações militares a leste, quebrando o tratado Molotov-Ribbentrop, Bandera viu a oportunidade de conseguir apoio dos nazistas para conquistar a independência da Ucrânia.

“Depois do avanço dos nazista a leste, Bandera se tornou um colaboracionista do nazismo. Ele foi recrutado pela inteligência alemã para auxiliar na tomada da Galícia. Durante as primeiras semanas da ocupação, cerca de 7 mil judeus foram mortos apenas na cidade de Lvov. Bandera também foi o responsável pela criação de dois batalhões da SS”, afirma Rodrigo.

Após apoiar os nazis e colaborar com a implantação do sistema de genocídio no território ucraniano, Bandera cresceu suas aspirações para tentar transformar seu país em uma república independente. “De orientação fascista, é claro”, pontua Ianhez. Mas a empreitada não deu muito certo. “Ele foi preso pelos nazistas e foi levado para campos de concentração. Seu tratamento não foi o mesmo dado para os outros presos”, afirmou.

Enquanto Bandera estava detido, os batalhões da SS e o exército insurgente ucraniano – ambos apoiados por Bandera e pelos nazistas – avançavam com as tropas e, em 1941, tomam Kiev. Foram as forças inspiradas pela OUN e pelos nazistas que causaram o massacre de Babi Yar, onde 33 mil judeus foram assassinados em dois dias.

Após anos preso, Bandera retorna ao front. “Quando os soviéticos avançavam em direção a Oeste e começaram a libertar a Ucrânia, ele foi chamado novamente para colaborar com os nazistas e aceitou”, conta o historiador.

As tropas do Exército Vermelho ganham dos nazistas e Bandera se torna uma foragido. De acordo com Rodrigo, o nacionalista se esconde com apoio de seguranças da SS e existem até suspeitas de que ele teria recebido auxílio do serviço secreto britânico. “Esse período de sua vida é obscuro”, explica. Em 1959, Stepan é assassinado pela KGB.

“Vale ressaltar que Bandera foi um dos agentes do Holocausto e seu pensamento era supremacista, contra os judeus, contra os moscovitas – como ele se referia aos russos -, contra os poloneses e até contra os húngaros”, pontua Ianhez.

A influência de Bandera na Ucrânia de hoje

No último fim de semana, o presidente Volodymyr Zelensky anunciou a proibição de 11 partidos ucranianos por serem “pró-Rússia”. Entre eles, estavam diversas organizações de esquerda. Já partidos políticos com orientação pró-neonazista, como o Praviy Sektor – de extrema inspiração banderista – se mantiveram intactos dentro do estamento político ucraniano. Mas esse processo não começou agora.

Monumento em homenagem ao colaboracionista do nazismo foi erguido em Lviv, na região da Galícia

“Foi em 2010, no governo Yushchenko que esse processo começou. Ele decretou que Stepan Bandera ganhasse o título de Herói Nacional. A medida causou grande polarização na sociedade ucraniana, que não concordava com um colaboracionista do nazismo sendo alçado a esse posto”, pontua Rodrigo.

“Houve um processo de revisionismo e falsificação histórica. Hoje, os nacionalistas afirmam que a associação de Bandera ao nazismo foi ‘invenção soviética’ e que ele não colaborou com o nazismo, o que é mentira”, explica.

Desde então, a figura de Bandera começou a ser utilizada por nacionalistas ucranianos amplamente. No Euromaidan, sua imagem começou a ser mais replicada. “Os aniversários de Bandera começaram a se transformar em atos públicos. Uma estátua foi construída para ele Lviv, mas foi destruída por grupos de esquerda pouco tempo depois”, afirma o historiador. E o apoio à figura também varia geograficamente.

Grupos militares nazistas como o Batalhão Azov ganham tração popular em meio à invasão russa

“Hoje, no Oeste da Ucrânia, ele se tornou uma figura realmente importante. Quadros com seu rosto estão em gabinetes de políticos, em prédios públicos. No Donbass e na Crimeia isso não ocorre”. Rodrigo reforça que é importante mostrar que a influência de Bandera e do nazismo no nacionalismo ucraniano é crucial: “Não podemos não falar sobre o elefante na sala. Falar sobre isso não é ser pró-Kremlin”.

O historiador reforça o papel de Volodymyr Zelensky – que é judeu – nesse processo. “Zelensky é conhecido por fazer concessões à extrema-direita, mas tenta se afastar da figura de Bandera”. A comunidade judaica ucraniana denuncia a tempos e combate o revisionismo histórico sobre o colaboracionista e sobre a participação dos nacionalistas no Holocausto.

E com a invasão russa, a tendência é que a figura desse nazista ganhe ainda mais força nas mãos da direita ucraniana. “É certo que a guerra irá aumentar esse sentimento nacionalista e isso é preocupante”, conclui Rodrigo.

 

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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