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Ucrânia em guerra e com baixo índice de vacinação: a bomba relógio que ninguém está vendo

Redação Hypeness - 11/03/2022 às 14:53

conflito entre Rússia e Ucrânia começou no final de fevereiro e tem causado uma crise de refugiados ao redor de toda a Europa.

Mais de 2 milhões de pessoas deixaram o território sob controle de Kiev em direção a outros países europeus, como Polônia, Moldova, Eslováquia, Hungria e Romênia, e pouco tem se falado sobre a questão sanitária que envolve essa crise.

Em meio ao risco de bombardeios, máscaras ficam em segundo plano para população ucraniana

A Ucrânia possui a pior cobertura vacinal da Europa: apenas 36% da população recebeu pelo menos uma dose da vacina e 35% está imunizada com as duas doses. Em comparação, Portugal já vacinou 95% da sua população.

Além disso, quando a guerra estourou, o país enfrentava a quarta onda de covid-19 e, com a invasão russa, está ocorrendo um apagão de dados que torna a situação fora de controle nesse momento.

Os efeitos da imigração em massa em meio à pandemia

A Ucrânia não foi um país exemplo no trato com a pandemia. A nação, que tem cerca de 44 milhões de habitantes, teve 4 milhões de casos e cerca de 100 mil mortos. Entretanto, especialistas avaliam que o número pode ser bem maior. O Hypeness conversou com Gonzalo Vecina, médico sanitarista, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para entender os efeitos da pandemia no país e as consequências da imigração ao redor da Europa.

“Importante olhar para o que está acontecendo na Ucrânia com a perspectiva da estrutura sanitária do país. Como todos os países da antiga URSS possui uma estrutura sanitária sofrível. É muito provável que ocorra um razoável subregistro de casos. O Brasil teve mais mortes por habitantes mesmo tendo um sistema de saúde melhor estruturado”, afirmou Vecina ao Hypeness.

Crise de refugiados: centenas de refugiados se aglomeram em Berlim oriundos da Ucrânia

De acordo com dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), desde o início da guerra mais de dois milhões de pessoas saíram do país até o dia 9 de março. Segundo o governo polonês, 2.400 pessoas estão entrando na Polônia por hora oriundas da Ucrânia.

“O impacto de uma onda de imigração naquela região é grave? Pode ser. E por que pode ser e não será? Por conta do estágio da doença. No momento, estamos vivendo a variante ômicron e é ela que com certeza está se espalhando pela Europa. Essa variante pega muita gente, muito rapidamente e infecta na mesma velocidade. Nessa circunstância, observamos que a Ucrânia já tinha pouca preocupação com uso de máscaras e distanciamento desde antes da guerra. Com certeza, temos um número de casos elevados”, aponta Vecina.

O ex-diretor da Anvisa pressupõe que boa parte desses migrantes possuem já alguma imunidade à doença. “Nesse ponto, muito provavelmente, na minha hipótese, os casos da variante ômicron já explodiram. Ou seja, já estamos na descente de casos. Isso faz com que o impacto seja muito menor, porque estamos falando de pessoas que, mesmo não vacinadas, já tiveram a doença.”

O problema está nos países que irão receber esses imigrantes. Moldova tem 40% de sua população vacinada, na Romênia, são 42%, e taxas maiores são observadas na Polônia (59%), Eslováquia (51%) e Hungria (63%).

“A recepção desses pacientes tem que ser cuidadosa. O imigrante que não comprovar vacinação deve ficar em algum tipo de isolamento até ser vacinado ou verificar se ele tem imunidade contra a doença, para que ele não leve risco às populações desses países. Mas isso não deve acontecer por conta do descontrole dessa imigração tão grande”, disse Gonzalo Vecina.

“Estamos falando de 44 milhões de habitantes e 2 milhões se movimentando. É uma quantidade imensa de gente. Seria algo como pouco mais de 10 milhões de brasileiros se movimentando de repente. De qualquer forma, isso com certeza irá desestabilizar os países vizinhos da Ucrânia”, afirma Gonzalo.

O sanitarista relembra que a questão ambiental também é crucial para a questão dos sistemas de saúde. “Não podemos esquecer que tudo isso ocorre durante os meses de frio nesses países”, completa.

E o que justifica uma taxa de vacinação tão baixa nesses países?

Vacinação na Ucrânia e no leste europeu

A vacinação contra a covid-19 no leste europeu caminha a passos muito demorados. Não é só na Ucrânia que vemos um ritmo lento na imunização: Rússia, Moldávia, Hungria, Romênia, Belarus, Lituânia, Letônia, Polônia e Estônia não superam 70% da população vacinada mais de dois anos desde a explosão dos primeiros casos no mundo.

O problema não é somente a escassez de vacinas: muitos desses países adquiriram as doses necessárias para vacinar todas as faixas de sua população, mas enfrentam uma dificuldade em convencer seus cidadãos a se imunizarem. Para entender um pouco dos fatores que fazem as populações que viveram do lado de lá da cortina de ferro terem tamanha desconfiança dos imunizantes, conversamos com Rodrigo Ianhez, especialista no período soviético formado pela Universidade Estatal de Moscou.

“Na URSS as campanhas de vacinação eram obrigatórias. Não existia escolha entre tomar e não tomar vacina e, inclusive, a União Soviética foi a responsável por desenvolver diversas vacinas inovadoras. Parte da explicação do porquê hoje em dia vários desses países apresentam o pior nível de vacinação da Europa é uma desconfiança em relação ao governo que tem a ver com o período final da URSS e o período pós União-Soviética”, explica o historiador.

ucrânia vacinas

Campanha de vacinação em Kiev, capital da Ucrânia

Esse fator se junta a questões políticas que envolvem a distribuição de vacinas ao redor do planeta. “Na Ucrânia, a situação foi agravada porque eles recusaram as vacinas Sputnik V por questões políticas. Além disso, o país também não foi colocado como prioridade pela Europa por não fazer parte da União Europeia”, salientou Ianhez, que vive há 11 anos em Moscou.

“Nos anos 90, a maioria desses países vivenciou uma tragédia do ponto de vista socioeconômico e também me parece que há uma memória geracional. Como na URSS as vacinações eram obrigatórias, diversas doenças foram eliminadas e agora elas voltam a surgir. A tuberculose, por exemplo, havia sido erradicada no período soviético e agora é um problema de saúde pública”, explica. “Isso também é um fator em países desenvolvidos que não apresentam índices de vacinação como no terceiro mundo”, ressalta.

Diversas pesquisas foram feitas na Europa para medir a taxa de confiança das populações em seus respectivos governos e em seus cidadãos desde os anos 90. Na Europa Oriental, a integralidade dos países observaram a confiança da população despencar durante a crise pós-soviética. Como exemplo, 12% dos romenos têm confiança em outros romenos e no governo do país. Na Ucrânia, existem taxas similares.

“Outro aspecto é que gerações mais velhas não confiam na ciência ‘de hoje em dia’. Tomavam remédios soviéticos, tomam as mesmas marcas até hoje, tomavam as vacinas, mas há uma negação grande da ciência na atualidade. Essas pessoas acreditam que a ciência era sólida na União Soviética, mas hoje não é mais”, explica.

Além disso, “há uma incidência enorme de fake news e desinformação espalhadas nas redes sociais, em especial no Whatsapp e no Telegram na Rússia e nos outros países”. Te lembra algo?

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Fotos: Getty Images


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