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A história dos métodos anticoncepcionais: do esterco de jacaré à pílula

Roanna Azevedo - 29/04/2022 às 09:36

Uma gravidez e um parto seguros são novidade na vida da mulher. Ao longo da maior parte da história, gerar e dar a luz a uma criança eram sinônimos de risco de vida. Na Idade Média, por exemplo, uma em cada três mulheres morria durante seus anos férteis. Mesmo quando mães e filhos sobreviviam, a maioria delas não tinha como sustentá-los. Além disso, muitas culturas consideravam a gravidez fora do casamento como um pecado, resultando no escrutínio público da gestante.

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Por essas e outras razões, não é de se espantar que as mulheres vêm testando diversos tipos de métodos contraceptivos ao longo dos anos. Alguns deles se provaram efetivos. Mas a grande maioria era altamente perigosa e até mesmo nojenta. Antes de citar os principais, é importante lembrar que nenhum desses últimos deve ser testado em casa.

A primeira grande variedade de métodos anticoncepcionais foi registrada na antiga Mesopotâmia e no Egito. A maior parte delas envolvia substâncias, pessários (dispositivo em formato anelar usado para tratar casos de prolapso genital) ou objetos que eram inseridos na vagina. As mulheres mesopotâmicas, por exemplo, usavam pequenas pedras redondas.

Pessário de bronze antigo usado para bloquear o colo do útero.

O principal tipo de pessário catalogado na época era o de folhas de acácia, planta que tem propriedades espermicidas e ainda é usada na composição de géis contraceptivos. Outros pessários populares eram os feitos de fiapos e mel, sendo esse último, o de bicarbonato de sódio e esterco de crocodilo os menos efetivos.

Já na Grécia Antiga, o sílfio, uma espécie de erva-doce gigante, era popular tanto como tempero quanto anticoncepcional. A planta só crescia em uma estreita faixa de terra próxima a cidade costeira de Cirene, cidade que atualmente faz parte da Líbia. Como o método era efetivo, acabou se tornando bastante desejado. Mas a alta procura acabou fazendo com que o vegetal fosse extinto.

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Dentre as outras plantas que eram usadas como contraceptivo na Grécia estão a romã, o carvalho, a artemísia, o poejo, a tamareira e a cenoura selvagem. Muitas delas já tiveram suas propriedades combativas à fertilidades comprovadas. A última, também chamada de Queen Anne’s Lace, até hoje é utilizada como método anticoncepcional na Índia. O grande problema é que a maioria dessas plantas, incluindo a cenoura selvagem, é altamente tóxica: as mulheres gregas precisavam ser muito cuidadosas com a dosagem que usavam para evitar lesões, inclusive fatais.

Ao longo da história, o limão e o seu suco têm sido alguns dos favoritos para prevenir a gravidez. A acidez da fruta servia como uma boa proteção espermicida, mas causava, no mínimo, intenso desconforto em quem usava. Na Roma Antiga, pessários feitos de bronze se tornaram muito populares entre as classes mais altas do país por apresentarem alguma efetividade enquanto método de barreira.

Utilizado ao longo de todos esses anos por todos esses povos e citado até na Bíblia, o método contraceptivo mais eficaz e menos agressivo era o coito interrompido. O filósofo Aristóteles, inclusive, recomendava aplicar óleo de cedro antes da relação sexual.

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Já Hipócrates, conhecido como o pai da medicina, aconselhava as mulheres que não quisessem ter filhos a beberem sal de cobre dissolvido na água. De acordo com ele, a substância prevenia a gravidez por um ano — o que nunca foi verdade, a mistura era incrivelmente tóxica. Sorano de Éfeso, por sua vez, sugeria que as mulheres deveriam prender a respiração durante o sexo e espirrar depois que ele acabasse.

Na China do século XVII a.C., médicos incentivavam o sexo sem ejaculação ou coito obstrutivo. O objetivo era impedir a liberação de sêmen durante o ato sexual. Concubinas chinesas também costumavam beber uma mistura de chumbo e mercúrio para evitar a gravidez. Devido a toxicidade das substâncias, muitas morriam, enquanto outras desenvolviam esterilidade, danos cerebrais e falência nos rins.

Concubinas chinesas costumavam beber uma mistura de chumbo e mercúrio para prevenir a gravidez.

Entre a parcela nobre da população chinesa, era comum o uso de camisinhas para a glande do pênis. Elas eram feitas de papel de seda oleado ou intestino de ovelha. No Japão, o material se resumia a cascos de tartaruga ou chifres de animais.

As recomendações de métodos anticoncepcionais na Índia não eram muito diferentes. Além do coito obstrutivo, pessários de mel, sal-gema, ghee e sementes de árvore palasa eram comuns. Uma poção feita de folha de palmeira em pó e giz vermelho também se popularizou.

Em caso de gravidez de risco, médicos mulçumanos do século XIX e X recomendavam o coito interrompido e pessários de couve, piche, sal-gema e estrume de elefante. Para os marroquinos, algumas superstições eram usadas como método contraceptivo. Eles acreditavam que pisar três vezes em cima do túmulo de uma pessoa que morreu há pouco tempo ou beber a água usada para banhar esse cadáver poderiam prevenir a gravidez.

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Como a Igreja Católica foi a responsável pela autoria da maior parte dos registros sobre a Idade Média, há poucos detalhes sobre os métodos contraceptivos usados nesse período. Além da prática do coito interrompido, existem evidências de poções herbais que eram passadas oralmente de mulher para mulher. Muitas, inclusive parteiras, foram acusadas de bruxaria e de usarem “conhecimento proibido ensinado pelo demônio”. Nos séculos XVI e XVII cerca de 60 mil “bruxas” foram assassinadas na Europa, levando com elas sabedorias que eram passadas de geração em geração.

Nos séculos XVI e XVII, aproximadamente 60 mil mulheres foram mortas após serem acusadas de bruxaria na Europa.

Ainda na Idade Média, a amamentação exclusiva durante os seis primeiros meses de vida do bebê era recomendada como método contraceptivo. De acordo com a crença popular, a prática prevenia a ovulação da mãe, tendo 98% de eficácia. Porém, mulheres que tinham dois filhos com pouca diferença de idade entre eles já argumentavam que o método não funcionava.

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Em 1490, a primeira epidemia de sífilis ajudou a trazer avanços para as fórmulas contraceptivas. Como a doença era transmitida sexualmente, muitos homens que frequentavam bordéis começaram a usar camisinhas feitas de linho ou intestino de ovelha embebido em soluções químicas para se protegerem, popularizando seu uso.

Camisinha feita de intestino de animais, datada da década de 1910.

No século XVIII, elas já podiam ser compradas em pubs, barbearias, farmácias e teatros da Europa e dos Estados Unidos. Caras, elas eram compradas primariamente por homens de classe média e alta, que costumavam reutilizá-las várias vezes com diferentes pessoas.

Em 1839, Charles Goodyear descobriu o processo de vulcanização da borracha para torná-la elástica. Dezesseis anos depois, as primeiras camisinhas com esse material foram produzidas. Elas tinham uma costura e eram tão grossas quanto câmaras de ar de bicicleta.

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Durante a Guerra Civil Americana, nos anos 1860, as taxas de infecções sexualmente transmissíveis aumentaram muito. Isso aconteceu porque diversos jovens soldados viajavam pelo país e visitavam bordéis. Como medida preventiva, aulas de educação sexual foram introduzidas nas escolas públicas pela primeira vez, mas ensinavam apenas que a abstinência era a única forma de se proteger de doenças.

Em 1873, as Leis Comstock criminalizaram a venda de qualquer material obsceno e imoral nos Estados Unidos, isso incluía os métodos contraceptivos. Com isso, todo o conhecimento e disponibilidade em relação a eles foram limitados. Pessoas que sofriam com ISTs eras discriminadas, enquanto mulheres recorriam a banhos pós-sexo de coca-cola e desinfetante para prevenirem qualquer chance de gravidez.

Propaganda do desinfetante Lysol sugerindo que as mulheres o usassem na higiene da genitália.

Enquanto isso, na mesma década, um grupo de feministas cunhou o termo “maternidade voluntária”. Conhecida como Liga Malthusiana, a associação buscava promover a educação pública sobre planejamento familiar e advogar para tornar legal a contracepção.

Durante o final da Era Vitoriana, com a migração em massa do campo agrário para as cidades industrializadas, as famílias grandes não eram mais necessárias para administrar uma fazenda. As mulheres, então, passaram a decidir se casar mais tarde e ter menos filhos. O uso de camisinhas de borracha vulcanizada e diafragmas como métodos contraceptivos se popularizaram ainda mais. A taxa de natalidade do Reino Unido acabou caindo 29% de 1860 a 1880, por exemplo.

Diferentes modelos de diafragma.

Nos Estados Unidos de 1921, Margaret Sanger fundou a American Birth Control League, que no futuro se tornou a Planned Parenthood. Marie Stopes, sua colega, abriu a primeira clínica contraceptiva permanente com o apoio da Liga Malthusiana. A instituição oferecia educação sexual e sugeria capuzes cervicais como métodos primários de contracepção.

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As camisinhas de látex só foram se popularizar durante a década de 1930. Elas eram mais resistentes, finas e tinham validade de cinco anos, diferentemente das de borracha vulcanizada que duravam apenas três meses. Criado em 1929 pelo médico Ernst Gräfenberg, o DIU também passou a ser uma opção de contracepção.
Foi somente durante a década de 1950 que cientistas americanos, com o apoio da Planned Parenthood, desenvolveram as primeiras pílulas anticoncepcionais. Elas se tornaram bastante populares na década seguinte e até hoje são a forma mais popular de contracepção.

A linha do tempo com os principais métodos anticoncepcionais ao longo da história pode ser assistida mais detalhadamente no vídeo abaixo:

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Fotos 1 e 5: Reprodução/História Licenciatura

Foto 2: Reprodução/kn1

Fotos 3 e 6: Reprodução/Youtube/History Tea Time with Lindsay Holiday

Foto 4: Reprodução/Catarina

Foto 7: Reprodução/Big Mãe


Roanna Azevedo
Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

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