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 As maravilhosas artes das caixas de fósforos japonesas dos anos 1920

Vitor Paiva - 17/04/2022 às 20:40 | Atualizada em 19/04/2022 às 08:28

No Japão do início do século passado, após centenas de anos de isolamento cultural, a intensa modernização e a influência do ocidente subitamente passaram a ser percebidas por toda parte – até mesmo nas caixas de fósforo.

Em um país que saia de séculos de isolamento cultural, a partir da segunda metade do século XIX, alguns objetos que hoje podem parecer banais eram, então, verdadeiras revoluções portáteis, como eram as então recém inventadas caixas de fósforo.

Soma-se a tal impacto a tradição japonesa para as ilustrações, as artes visuais e mesmo o design, e o que se via nas mesas, nos bolsos e nas mãos que faziam fogo no efervescente Japão que se modernizava em velocidade estonteante, especialmente nos anos 1920, foi a transformação das meras caixinhas em verdadeiras obras de arte.

As caixas de fósforo essencialmente divulgavam bares e restaurantes no Japão dos anos 1920

As caixas de fósforo essencialmente divulgavam bares e restaurantes no Japão dos anos 1920

caixa de fósforo japonesa

As mudanças de costume que ocorriam no país também aparecem nas imagens das caixinhas

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As origens dos palitos inflamáveis remonta à China do século V antes da era comum, mas seu desenvolvimento moderno, portátil e principalmente com a capacidade de ser aceso sem a necessidade de outra fonte de fogo tem início em 1827, a partir do experimento do farmacêutico inglês John Walker com o elemento químico fósforo, em um palito ainda excessivamente grande e perigoso, mas já acendido por fricção.

Somente em 1855, porém, a partir do trabalho do sueco Carl Lundström, que os primeiros fósforos seguros, que não corriam o risco de explodir nem de intoxicar ninguém, foram fabricados, utilizando fósforo vermelho, e separando os ingredientes inflamáveis: os palitos ficava dentro da caixa, e a lixa, com material abrasivo, na parte de fora.

caixas de fósforo japonesas

As estampas se tornaram espaço de experimentação no design moderno insurgente no período

caixas de fósforo japonesas

as caixinhas eram vistas como símbolos de modernidade

caixas de fósforo japonesas

Direções e informações para locais também estampavam as caixas de fósforo japonesas

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Ao mesmo tempo em que ocorria na Europa o advento do fósforo como conhecemos, em meados do século XIX se iniciava a abertura do Japão, após mais de dois séculos da política conhecida como “sakoku”, ou país fechado. Com a abertura política e econômica da ilha ao mercado internacional, a partir de 1853, uma verdadeira onda de influência ocidental tomou o país – e, com ela, também chegaram as caixas de fósforo.

Para além de um símbolo de modernidade e praticidade, as caixas de fósforo foram transformadas, no Japão como em diversos outros países do mundo, em superfícies perfeitas para a divulgação de bares, restaurantes, produtos, comércios, espetáculos e mais. Fabricadas em blocos de madeira e normalmente estampadas no tradicional estilo Ukiyo-e, as caixas de fósforo japonesas se destacavam pela beleza, a variedade e a elegância de suas ilustrações.

caixas de fósforo japonesas

A influência dos estilos europeus da época são visíveis nas estampas

caixas de fósforo japonesas

Algumas estampas mostravam cenas e mesmo narrativas para divulgar um local

caixas de fósforo japonesas

Café e cocktail se misturavam com sugestões de sensualidade em algumas das ilustrações

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Nos anos 1920, a tipografia construtivista e o minimalismo do design da Bauhaus, por exemplo – que, por sua vez, surgiram a partir de forte influência das artes visuais japonesas tradicionais – serviram como estilos perfeitos para estampar uma superfície tão pequena e, ao mesmo tempo, tão eficaz para publicidade: em um contexto em que ainda não havia nem o rádio nem a televisão, um objeto bonito, interessante, moderno, que circulava de mão em mão e que era constantemente retirado dos bolsos em público, funcionava como uma espécie de outdoor portátil.

Não é por acaso que hoje, entre os colecionadores, uma caixa de fósforos japonesa do período – que, à época, muitas vezes era distribuída gratuitamente – pode ser vendida por centenas de dólares, como um objeto raro e a peça de arte que de fato é.

caixas de fósforo japonesas

Figuras sensuais e femininas eram também recorrentes nas estampas

caixas de fósforo japonesas

Bocas, pintas e olhos convidavam clientes aos bares e restaurantes que anunciavam

caixas de fósforo japonesas

Locais de prostituição também usavam as caixas para anúncios

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© fotos: Messy Nessy/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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