Inspiração

Cliff Young: o fazendeiro de 61 anos que venceu uma ultramaratona usando botas de borracha e virou herói nacional

Vitor Paiva - 14/04/2022 às 09:55 | Atualizada em 14/04/2022 às 11:32

Não é por acaso que o australiano Cliff Young é considerado uma verdadeira lenda entre os maratonistas pelos últimos 40 anos: em 1983, o fazendeiro produtor de batatas contrariou a toda e qualquer expectativa ou previsão ao se consagrar vencedor da primeira edição da Ultramaratona de Sidney a Melbourne, uma das corridas mais difíceis do mundo.

Seu feito foi alcançado sem que o agricultor natural de Beech Forest possuísse maiores experiências profissionais prévias no atletismo, e sem utilizar equipamentos e vestimentas adequadas para a corrida que percorria incríveis 875 km de uma a outra cidade. E não somente: Young venceu a ultramaratona aos 61 anos – e, reza a lenda, sem usar sua dentadura.

Cliff Young durante a ultramaratona em 1983 - correndo com suas botas de borracha

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Albert Ernest Clifford Young chegou à linha de largada vestindo um macacão, botas de borracha, e as décadas de diferença para os outros participantes, quase todos atletas profissionais na faixa dos 20 a 30 anos: o fazendeiro parecia pronto para sua labuta diária no campo, e não para correr uma maratona cujo a previsão era de que durasse entre 5 a 6 dias para ser completada.

“Eu cresci em uma fazenda na qual não tínhamos dinheiro para ter tratores ou cavalos, e ao longo do meu crescimento, sempre que começava a chover, eu tinha que correr para buscar as ovelhas”, ele comentou, à época, para a incrédula imprensa, antes da corrida começar. “Nós tínhamos 2 mil ovelhas em um terreno gigante, e algumas vezes eu tinha que correr as ovelhas por dois ou três dias – demorava, mas eu sempre conseguia. Acho que posso vencer a corrida”, comentou.

Ao longo da corrida, Young foi se tornando um verdadeiro fenômeno por seu feito

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O fazendeiro com seu troféu: ele abriu mão do prêmio em dinheiro em favor dos outros atletas

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E Young tinha razão, ainda que no primeiro dia desse a impressão de que não conseguiria sequer terminar o percurso da cidade de Sidney até Melbourne, quanto mais vencer a corrida, seguindo em um ritmo lento, mais caminhando rápido do que propriamente correndo.

Ele, porém, tinha um plano secreto, que em princípio parecia impossível e mesmo louco, mas que se revelou determinante para seu êxito: enquanto todos os oponentes naturalmente planejavam dormir por cerca de 6 horas diárias, o fazendeiro pretendia simplesmente seguir, sem descansar, até chegar à linha de chegada.

Assim se deu, e enquanto todos dormiam, ele rapidamente assumiu a liderança – e seguiu seu caminho, em seu ritmo próprio. Foi assim que se manteve liderando a corrida por todo o percurso, mantendo o foco e a levada dos passos, sem descansar nem dormir.

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Cliff Young venceu a corrida em 5 dias, 15 horas e 4 minutos, superando o segundo colocado por uma diferença de 10 horas – à época, seu tempo era dois dias mais rápido que qualquer recorde anteriormente alcançado em corridas percorrendo a distância das duas cidades.

O fazendeiro alcançou ainda maior admiração em nível nacional, no entanto, após vencer a corrida, quando decidiu dividir o prêmio de 10 mil dólares australianos – equivalentes a cerca de 111 mil reais atuais – igualmente entre os cinco primeiros colocados, e sem ficar com dinheiro algum para si.

Antes de falecer, em 2003 aos 81 anos, ele recebeu a Ordem da Austrália para ser reconhecido oficialmente como um verdadeiro herói nacional, e mesmo tendo tentado outros anos repetir seu feito sem sucesso, o primeiro e mais improvável primeiro colocado da história da Ultramaratona de Sidney a Melbourne segue sendo seu mais célebre vencedor.

Cliff Young aos 74 anos, no final dos anos 90

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O memorial em sua lembrança e de seu feito traz a escultura de sua bota de borracha

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© fotos 1, 3: Getty Images

© fotos 2, 4, 5: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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