Debate

Como laudo concluiu que suposto urânio oferecido ao PCC era rocha comum

Vitor Paiva - 20/04/2022 às 09:13 | Atualizada em 20/04/2022 às 11:30

Após denúncias de que dois suspeitos estariam vendendo um material como se fosse minério de urânio na cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, uma análise técnica realizada pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) concluiu que a pedra apreendida pela polícia é somente uma rocha comum.

A denúncia veio de um homem que procurou o 3º DP da cidade afirmando trabalhar com metais e minerais, revelando ter recebido uma proposta enviada por mensagem de texto para adquirir ilegalmente o suposto “material radioativo”. A exploração do metal no Brasil é de responsabilidade exclusiva da União.

A rocha apreendida em Guarulhos sob a suspeita de ser um minério de urânio

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Segundo afirmou o denunciante, o urânio estava sendo vendido por cerca de 90 mil dólares o quilo, equivalentes a 422 mil reais, para ser utilizado na fabricação de “dispositivos bélicos”.

A apreensão foi realizada em uma casa no bairro de Vila Barros, onde os dois homens foram presos em flagrante: a rocha de um quilo seria, segundo os homens, uma amostra de urânio, oferecida como parte inicial para a realização de transações maiores. Os suspeitos afirmaram que as negociações eram mediadas pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC, e que dispunham ao todo de duas toneladas do material.

As análises do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) revelou se tratar de uma rocha comum

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A rocha apreendida foi enviada para passar por uma análise química semiquantitativa, que concluiu que o material, um fragmento de cor rósea e formato irregular, era composto somente por silício, alumínio, potássio, cálcio e ferro, e não apresenta sinais do componente radioativo nem de nenhum outro que possa causar danos à saúde.

“O material descrito não apresenta qualquer traço de produtos de decaimento de urânio nem de quaisquer outros materiais radioativos naturais ou artificiais com risco desprezível do ponto de vista de radioproteção”, informou Demerval Leônidas Rodrigues, coordenador de Segurança Nuclear, Radiológica e Física do Ipen.

Fragmento de um minério de urânio de fato

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Descoberto em 1789 pelo alemão Martin Klaproth como o primeiro elemento onde se encontrou a propriedade da radioatividade, o urânio é hoje utilizado especialmente como combustível para geração de energia em usinas nucleares, mas também como material importante para a indústria bélica, na fabricação de bombas atômicas e como ingrediente secundário na feitura de bombas de hidrogênio.

O resultado da análise foi enviado ao delegado José Marques, da delegacia de Guarulhos, responsável pela investigação, para ser anexado ao inquérito, e posteriormente encaminhado à Justiça.

Boleto de Urânio altamente enriquecido

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© fotos 1, 2: E.R.Paiva/IPEN-CNEN/Divulgação

© foto 3: Getty Images

© foto 4: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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