Debate

Covid-19: como é a política de tolerância zero que vem provocando revolta na China

Vitor Paiva - 17/04/2022 às 20:39

Enfrentando o momento mais intenso de novos casos de Covid-19 desde o início da pandemia, a China vem adotando políticas severas de lockdown e isolamento para tentar conter o surto e, com isso, causando revolta da população.

Com a chegada da variante ômicron, quando o país viu saltar os números de novos casos da doença, a imposição de quarentenas obrigatórias, muitas vezes em locais de trabalho, bares ou com o isolamento total de edifícios, condomínios e mesmo bairros imposto pelo governo chinês, vem levando a população a tomar medidas inéditas em um país tão controlado – tanto subvertendo a censura da internet chinesa para debater e denunciar o quadro, quanto simplesmente indo às janelas para gritar em protesto.

Profissionais de saúde em um trecho isolado em lockdown em Xangai

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Os gritos de dentro das residências, registrados em vídeos compartilhados na internet, são por liberdade e ajuda, mas também simplesmente por alimentos, muitas vezes em falta nos locais isolados.

Trata-se da política de Covid Zero imposta pelo atual presidente, Xi Jinping, para controlar a pandemia, através da qual qualquer surgimento de novos casos da doença se torna motivo para isolamento e quarentena. Tal política funcionou até a chegada da nova variante, mas com os novos casos alcançando os milhares diariamente, as medidas vêm se revelando ineficazes e mesmo perigosas – para a saúde da população, e para a economia do país.

A capital Xangai, com seus mais de 26 milhões de habitantes, foi posta em lockdown com moradores isolados em apartamentos ou condomínios, muitas vezes sem qualquer planejamento por alimentos ou necessidades básicas.

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Em 26 de março, Xangai registrou 2,6 mil novos casos da Covid-19, um número alto para os padrões de controle chineses, mas considerado baixo em níveis internacionais – em comparação, o Brasil, no mesmo dia, apresentou mais de 10 mil novos casos. A política de Covid Zero de modo geral funciona impondo restrições e bloqueios radicais por curtos períodos e não sobre toda população ao mesmo tempo.

Com isso, dezenas de cidades do país se veem parcialmente em isolamento: estima-se que mais de 40 milhões de pessoas enfrentem no momento algum tipo de lockdown na China, mas especula-se que os números sejam consideravelmente maiores.

Quem testa positivo é colocado em quarentena, muitas vezes isolado em hospitais e locais especialmente preparados – residentes foram obrigados a mudarem de casa para que edifícios fossem transformados em centros de quarentena, o que ajudou a agravar a revolta, segundo relatos.

Menina se curva em respeito ao profissional de saúde que irá lhe testar

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Duas vizinhas em quarentena conversando em Xangai

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Parte da crítica a ineficácia da política chinesa se dá pelo fato de que a maioria absoluta dos novos casos é assintomática ou leve, e por 88% da população do país se encontrar vacinada.

A China é hoje um dos últimos países comprometidos a erradicar a Covid, enquanto a maioria das nações vem buscando formas seguras e funcionais de conviver com a doença sem ameaçar a população.

Segundo informações oficiais, as medidas severas começaram a ser afrouxadas em Xangai e outros grandes centros econômicos e populacionais do país: a intensão agora é testar toda a população das cidades, para confirmar a estabilidade e a segurança do quadro e, assim, permitir que as medidas possam ser flexibilizadas sem ameaçar a situação de contenção da pandemia na China.

Hospital de campanha montando na China para isolar pessoas que testaram positivo

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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