Viagem

Dias escuros: como é viver em Londres com o Sol se pondo antes das quatro da tarde

Jamille Bastos - 11/04/2022 às 13:12 | Atualizada em 11/04/2022 às 21:32

No dia 1º de outubro de 2021 o Sol se pôs às 18h37 em Londres e, em 31 de outubro, às 16h34.  Eu já tinha ouvido sobre as cidades no Alasca que tinham 24h de Sol durante alguns meses e até já tinha aproveitado as noites de verão de Barcelona com sol alto até as 21h, mas por algum motivo não havia pensado muito na consequente falta de luz que também viria com o inverno no Hemisfério Norte.

Foi chegando aqui em Londres pra morar durante um ano que alguns amigos começaram a me alertar pra como seria o inverno: “o frio e, principalmente, a escuridão não são fáceis de lidar”, diziam eles a uma brasileira completamente fascinada pela cidade no outono e que não levou a sério nenhum dos avisos.

Céu escuro em um fim de tarde com cara de noite em Londres

Esse movimento do relógio e do Sol acontece durante todo o ano, mas é só a partir do fim do horário de verão no final de outubro que você começa a perceber que está anoitecendo cada vez mais cedo, gradativamente alguns minutos por dia, até chegar à desagradável marca de 15h51 em dezembro.

O problema é que o nosso corpo é programado pra responder aos estímulos de claridade ou escuridão e quando anoitece às 15h seu cérebro diz, claramente, que é hora de parar. “Eu senti que não sabia o que tinha que fazer quando escurecia às 16h. Se já era hora de dormir (de chorar) ou de continuar produzindo, era muito estranho”, lembra Samira Almeida, uma estudante brasileira que também viveu seu primeiro inverno na cidade esse ano.

As cerejeiras que floresceram junto com o início da primavera em março (Foto:Patrick Ferraz)

Ciclo circadiano

O responsável por essa confusão mental é o nosso ciclo circadiano, que recebe a luz através do nosso nervo óptico e manda sinais pro nosso cérebro de quando é hora de se sentir mais acordado (de dia) ou mais sonolento (sem a luz do sol). Como boa carioca, eu sempre fui amante do Sol e do calor, mas nesses últimos meses eu descobri que nós não somos nada diferentes das plantas que precisam do Sol pra sobreviver.

No inverno, Londres faz juz à sua fama de nublada e entre dezembro e o início de janeiro eu estou bem certa de que não fez um só dia de Sol durante todo o mês, ou seja: além de escurecer antes das 16h da tarde, era tudo um completo e contínuo céu branco do lado de fora da janela. “Parecia que eu acordava todo dia no mesmo dia. O externo não mudava, era sempre cinza com as árvores sem folhas, a sensação era desespero”, lembra Samira.

Um típico dia de inverno em Londres com frio e céu branco

Não foi fácil passar pelo inverno londrino, mesmo com a cidade lindamente decorada pro Natal, que por aqui eles levam muito a sério, ou com todos os pisca-piscas que os moradores instalam pelas ruas na esperança de trazer um pouquinho de alegria pro tanto de escuridão. Em janeiro, no ápice da falta de Sol, quando até os pássaros que pareciam todos ser pretos e brancos por aqui me entristeciam, eu fugi por uma semana para países mais ao sul do globo onde ainda havia Sol.

A mudança no meu humor foi transformadora. Aqueles poucos raios solares, botar o pé na areia da praia gelada de Cascais, em Portugal, o calor humano do povo espanhol e suas árvores frutíferas espalhadas pelas ruas trouxeram cor de volta pra minha visão, tanto que na volta eu até consegui fazer as pazes com a Londres cinza e suas árvores peladas. Esse cansaço e confusão mental com a falta de luz é algo que, provavelmente, todo habitante do Hemisfério Norte vai sentir, mas o desconforto pode ir muito além.

Existe uma síndrome que por aqui é ironicamente chamada SAD, iniciais para Seasonal Affective Disorder, mas que também se traduzem “triste” em português. Quem é afetado por essa síndrome, que está intimamente ligada com o inverno e a falta de luz do Sol, pode experimentar mudanças bem bruscas nos padrões de sono, perder interesse nas atividades diárias e passar a comer muito mais doces ou a chamada comfort food. Thaynan Rodrigues experimentou todos esses sintomas e sentiu bastante a mudança: “Eu me peguei dormindo às 17h da tarde e acordando às 21h, achando que era de madrugada. Passei dias sem fazer nada, tinha zero ânimo de fazer qualquer coisa”, conta a publicitária.

Na primeira onda de calor da Primavera, parques como o Victoria Embankment Gardens ficaram lotados de gente aproveitando o Sol (Foto: Lara Sampaio)

Isabela Quagliato, psicóloga e mestranda em saúde mental explica que essa mudança de humor não é atípica pra quem vivencia o inverno no Hemisfério Norte.

Na área da psicologia da saúde mental a gente estuda muito sobre como os diferentes contextos podem influenciar o nosso humor e o clima é, com certeza, um deles. A vivência de quem mora em um lugar com o inverno bem marcado acaba sendo impactada na saúde mental, não só num viés emocional, mas porque também existe uma questão orgânica. Mexe com o nosso ciclo circadiano, afeta também a socialização por causa do frio, são vários fatores que se juntam para convergir na SAD, explica a psicóloga.

Um dos tratamentos mais comuns por aqui para a SAD é a cromoterapia, que ajuda a “enganar” um pouco o nosso organismo. “É uma lâmpada especial que simula a luz do dia e que você deixa ligada depois que o sol vai embora às 15h ou 16h da tarde até o horário que ele normalmente iria embora, justamente pra que o nosso organismo continue exposto à luz e continue se regulando como se estivesse de dia”, explica. Isabela conta que a luz pode até ajudar, mas que nada como a mudança da estação para os sintomas da SAD começarem a mudar, lembrando que março foi, justamente, o mês da liberação do Sol por aqui.

Quando o Sol volta à Londres 

Por volta do dia 13 o Sol voltou a se pôr às 18h em Londres, as temperaturas passaram dos 15ºC após meses sem nem chegar perto e no final do mês o horário de verão voltou, fazendo o Sol se pôr só lá pelas 19h30. Isso sem falar na semana em que uma onda de calor atingiu a ilha e fez Londres apresentar temperaturas mais altas que a ensolarada Barcelona.

A sensação foi de que a cidade havia ganhado uma descarga de felicidade junto com as temperaturas de 20ºC. Os parques lotados de gente pelos gramados, os tornozelos aparecendo de novo no metrô, os corredores de bermuda e camiseta e alguns brasileiros incrédulos de voltar a vestir uma saia ou short: “Eu lembro da primeira vez que fui na esquina com o meu joelho aparecendo. Eu dançava feito criança na rua”, conta Thaynan, que sentiu uma enorme melhora no humor voltando junto com a melhora no clima.

Árvores começando a ganhar pequenas folhas na chegada da primavera

 

E a tendência é de que a coisa só melhore. Eu já ouvi de algumas pessoas que Londres vira uma cidade completamente diferente no verão, que todo mundo fica mais aberto, simpático e, mesmo que eu duvide um pouco desse cenário de arco-íris todo, moradores mais antigos do Hemisfério Norte como Giulia Manccini confirmam que é a pura verdade.

Eu trabalhava há seis meses em um escritório em que eu levava a minha marmita, comia na frente do computador ou na cantina e ficava cada um no seu canto. Quando chegou o Sol, um dos funcionários passou em todas as salas convidando a gente pra almoçar num parque que tinha perto e foi todo mundo, de estagiários a diretores. E dali pra frente, sempre que tinha sol, todo mundo almoçava junto”, lembra Giulia, dizendo que a chegada do sol melhorou o entrosamento e indiretamente melhorou até a eficiência do time. “Se fizesse sol na sexta-feira, então, meu chefe seguia uma tradição norueguesa em que você podia escolher não trabalhar e repor em um sábado ou domingo nublado. Porque é tão raro que você tem que aproveitar.

Eu, Jamille, sigo por aqui ansiosa pra ver todas essas mudanças pessoalmente e viver esse verão de ouro que andam me prometendo. Enquanto isso, o pouco Sol que já chegou foi suficiente pra vestir as árvores peladas de flores por toda a cidade e, de quebra, melhorar o humor de muita gente. O que me fez pensar que, sempre que a gente se perguntar como que o brasileiro consegue ser alegre no meio de tanta coisa ruim, basta olhar pra cima que o Sol é uma boa dica de por onde começar.

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Fotos: Jamille Bastos/Foto: Lara Sampaio/Foto: Patrick Ferraz


Jamille Bastos
Uma apaixonada pelo Rio de Janeiro vivendo em Londres, Jamille é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que atualmente faz mestrado em Diversidade e Mídia na Universidade de Westminster. Em oito anos de experiência no digital, já coordenou e editou alguns gigantes de audiência como o site gastronômico TudoGostoso, mas se encontrou mesmo trabalhando para incluir a questão racial na mídia de uma forma justa e livre de estereótipos. Mudar narrativas é seu objetivo.

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