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Elifas Andreato: o adeus ao artista responsável pelas capas de discos mais emblemáticas da MPB

Vitor Paiva - 14/04/2022 às 09:54

Um dos maiores artista gráficos desse país, o nome de Elifas Andreato, falecido recentemente aos 76 anos, está inscrito de forma permanente não somente na história do design e das artes visuais brasileiras, mas principalmente de nossa música: são criações dele algumas das mais emblemáticas e inesquecíveis capas de disco de toda a MPB.

Natural do Paraná e morador de São Paulo, ao longo de seus mais de 40 anos de carreira Elifas assinou 362 capas de disco, para artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Vinicius de Moraes, Adoniran Barbosa, Toquinho, Clementina de Jesus, Clara Nunes, João Bosco, Zeca Pagodinho, Tom Zé, Criolo e tantos – tantos! – mais.

O artista visual e capista Elifas Andreato, falecido recentemente, aos 76 anos

O artista visual e capista Elifas Andreato, falecido recentemente, aos 76 anos

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Mago das capas 

Se na atualidade lamentavelmente as capas dos discos foram reduzidas ao tamanho e à virtualidade de um pequeno ícone em uma tela, até pouco tempo atrás, especialmente através dos LPs, elas eram parte efetiva da experiência completa de se escutar um disco – e poucos no mundo realizaram com tamanha maestria esse complemento gráfico, esse desdobramento visual de uma obra musical como Elifas Andreato.

O trabalho do maior capista do período em que o vinil dominava o mercado começou no início dos anos 1970, e foi em 1973, com o disco “Nervos de Aço”, de Paulinho da Viola, que Andreato começou a verdadeira revolução visual na música nacional – mostrando uma incrível pintura do sambista chorando na capa do disco.

"Nervos de Aço", de Paulinho da Viola (1973)

“Nervos de Aço”, de Paulinho da Viola (1973)

"Rosa do Povo", de Martinho da Vila (1976)

“Rosa do Povo”, de Martinho da Vila (1976)

"Terreiro, Sala e Salão", de Martinho da Vila (1979)

“Terreiro, Sala e Salão”, de Martinho da Vila (1979)

Adoniran Barbosa como um palhaço triste, imagem criada por Elifas em 1980

Adoniran Barbosa como um palhaço triste, imagem criada por Elifas em 1980

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A partir de então, o artista elevou o parâmetro da qualidade das capas de disco à condição de verdadeiras obras autônomas, que podiam ser expostas como quadros ou peças visuais simplesmente – mas que ganhavam seu sentido mais profundo e contundente quando acompanhadas da trilha sonora, como se o sentido se invertesse, e os discos passassem a servir às capas de Elifas.

“Aquele que melhor ilustrou a alma brasileira, foi agora para junto das estrelas e de lá seguirá nos inspirando. Porque a vida tem que ser bonita sim e é pra isso que a arte existe! Obrigado mestre. Que a terra lhe seja leve!”, escreveu Emicida, diante da notícia da partida do artista.

"Ópera do Malandro", de Chico Buarque (1979)

“Ópera do Malandro”, de Chico Buarque (1979)

"Vida", disco de Chico Buarque de 1980

“Vida”, disco de Chico Buarque de 1980

"Almanaque", de Chico Buarque, lançado em 1981

“Almanaque”, de Chico Buarque, lançado em 1981

Uma das mais belas capas - e mais simples - de Elifas: "En Español", disco de Chico para o mercado latino, de 1982

Uma das mais belas capas de Elifas: “En Español”, disco de Chico para o mercado latino, de 1982

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A capa do clássico “Arca de Nóe”, é exemplo preciso de tal contribuição: a memória e a experiência infantil de descobrir o disco é marcada profundamente pela estética e a imagem de sua capa, criada por Elifas.

O mesmo pode ser dito por públicos adultos, sobre a audição de outros tantos clássicos, como “Clementina”, de 1979, por Clementina de Jesus, “Terreiro, Sala e Salão” (1979), de Martinho da Vila, “Nação” (1979), de Clara Nunes, a capa de Adoniran Barbosa maquiado como um palhaço, “Bandalhismo”, de João Bosco, “Aquarela” (1983), de Toquinho, “Bebadosamba” (2000), de Paulinho da Viola, “Jogos de Armar” (2001), de Tom Zé, “Espiral de Ilusão” (2017), de Criolo, e sem esquecer a sequência de “Ópera do Malandro” (1979),  “Vida” (1980), “Almanaque” (1981) e “En Español” (1982), de Chico Buarque – e a lista ainda nem começou.

A inovadora capa de "A Arca de Noé" convidava as crianças a cortarem e colarem os animais

A inovadora capa de “A Arca de Noé”,  convidava as crianças a cortarem e colarem os animais

"Luz das Estrelas", de Elis Regina (1984)

“Luz das Estrelas”, de Elis Regina (1984)

"Clementina e convidados", de Clementina de Jesus (1979)

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Além dos trabalhos como capista para os maiores nomes e discos da música popular brasileira, Elifas também produziu cartazes, gravuras, ilustrações, capas de livro, e foi diretor editorial do Almanaque Brasil de Cultura Popular, criado em 1999 pelo artista e veiculado nos voos da companhia área TAM como uma das mais interessantes publicações recentes no país.

“Elifas Andreato mudou a capa de discos no Brasil. De simples embalagem até discrepante de seu conteúdo – com as habituais exceções que sempre confirmam as regras – a capa de discos ganhou vida nas mãos operárias desse filho de lavrador. Aliás, só um artista que veio do povo como ele poderia ter trazido para este acessório típico da era industrial o que até então lhe faltava: a emoção”, escreveu o crítico Tarik de Souza, no site do artista.

“Jogos de Armar” (2001), de Tom Zé

“Jogos de Armar” (2001), de Tom Zé

“Espiral de Ilusão” (2017), de Criolo

“Espiral de Ilusão” (2017), de Criolo

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© fotos/artes: Elifas Andreato/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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