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Fake news motivaram grupo extremista que matou japoneses no Brasil pós-Segunda Guerra

Vitor Paiva - 27/04/2022 às 10:13 | Atualizada em 29/04/2022 às 09:43

Engana-se quem pensa que as fake news são  um fenômeno contemporâneo ou recente: a verdade é que, ainda que a propagação de notícias falsas tenha se agravado com as redes sociais, a manipulação de mentiras travestidas como verdades movimenta a política e a realidade desde sempre, e foi motivado por fake news que, após o fim da Segunda Guerra, uma série de assassinatos ocorreu dentro da comunidade japonesa no Brasil. Os crimes foram cometidos pelo grupo extremista nacionalista Shindo Renmei, que defendia, em meados dos anos 1940, que o imperador japonês Hirohito na realidade não havia se rendido, como diziam as notícias, e que o Japão não havia perdido o conflito: e quem os contradizia com a verdade era brutalmente assassinado.

Membros do grupo extremista nacionalista Shindo Renmei

Membros do grupo extremista nacionalista Shindo Renmei

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Conforme mostrou reportagem na BBC, o grupo foi fundado pelo ex-oficial do exército japonês Junji Kikawa com o propósito original de ajudar os membros da comunidade no Brasil, que enfrentavam não somente dificuldades financeiras e condições extremas de trabalho, mas também preconceito e mesmo perseguição por conta do posicionamento do país na guerra, alinhado à Alemanha nazista e ao fascismo italiano. A partir de 15 de agosto de 1945, porém, quando o Imperador Hirohito anunciou a rendição japonesa, os propósitos do Shindo Renmei tomaram um rumo sombrio, passando a espalhar, entre a comunidade, que a notícia da rendição era uma grande mentira dos aliados para atingir o ânimo nipônico, e a perseguir violentamente quem contrariasse suas fake news.

O ex-oficial do exército japonês Junji Kikawa, fundador do grupo

O ex-oficial do exército japonês Junji Kikawa, fundador do grupo

Shindo Renmei: a perseguição se dava contra os nipo-brasileiros mais bem informados

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Para a fanática organização terrorista – cujo nome traduz-se como “Liga do Caminho dos Súditos”, e que tinha sede no número 96 da rua Paracatu, no bairro da Saúde, em São Paulo – aqueles que admitiam que o Japão havia se rendido e perdido a guerra não eram japoneses de verdade – chamados de “corações sujos”, para os membros do Shindo Renmei esses “traidores” que simplesmente admitiam a verdade deveriam ser eliminados como demonstração de fidelidade e amor à pátria. A comunidade nipo-brasileira encontrou-se apavorada e, na visão do grupo, dividida entre os kachigumi ou “vitoristas”, que acreditavam que a guerra seguia ou mesmo que o Japão havia vencido o conflito mundial, e os makegumi ou “derrotistas”, os tais “corações sujos” que eram mais bem informados e admitiam a derrota japonesa.

Gerente de uma cooperativa de agricultores, Ikuta Mizobe foi o primeiro assassinado pelo grupo

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Segundo consta, entre 1946 e 1947, ao menos 23 pessoas foram assassinadas e 147 ficaram feridas a partir das atividades do grupo em solo brasileiro – os crimes eram cometidos com armas de fogo, mas também com a tradicional espada katana; à época, jornais e revistas chegaram a ser impressos noticiando a “grande vitória” e outras mentiras relativas ao tema, com golpistas aproveitando para vender “terrenos” nos territórios “conquistados”. A partir de meados de 1946, conforme a perseguição à população japonesa crescia no país, mais de 31 mil imigrantes e nipo-brasileiros foram investigados, com 376 pessoas sendo indiciadas, e as lideranças da organização e boa parte dos “soldados”, conhecidos como tokkotais, indo presos. A incrível história do Shindo Renmei foi contada no livro “Corações Sujos”, lançado por Fernando Morais em 2011, que se sagraria vencedor do Prêmio Jabuti nas categorias Reportagem e Livro do Ano de Não-Ficção.

Detalhe da capa do premiado livro de Fernando Morais contando a história do grupo

Detalhe da capa do premiado livro de Fernando Morais contando a história do grupo

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© foto 1: Facebook/reprodução

© foto 2, 3: History Collection/reprodução

© foto 4: BBC/arquivo pessoal/reprodução

© foto 5: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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