Debate

Funcionários negros revelam cultura de racismo na Tesla, gigante controlada por Elon Musk

Roanna Azevedo - 25/04/2022 às 08:28 | Atualizada em 27/04/2022 às 10:26

Três ex-funcionários negros da Tesla, empresa automotiva e de armazenamento de energia administrada pelo bilionário Elon Musk, contaram ao Los Angeles Times todos os casos de racismo e assédio moral que viveram enquanto trabalhavam lá.

Os episódios preconceituosos aconteceram na fábrica de Fremont, localizada no estado da Califórnia.

Apresentadora da Globonews expõe racismo de ex-colega de trabalho: ‘A vida dá voltas’

Os funcionários chamavam a fábrica da Tesla de “plantação” e “navio negreiro” pelo ritmo de trabalho brutal e segregação com os negros.

Monica Chatman, Kimberly Romby e Nigel Jones fazem parte dos mais de 4 mil ex-funcionários negros que processa a empresa por discriminação racial pelo Departamento de Emprego e Habitação da Califórnia, o maior já aberto no estado. Todos eles alegam que a fábrica é um local de trabalho hostil para pessoas negras, regularmente segregadas, super exploradas e ofendidas por insultos racistas.

‘O Sesc tem estrutura racista’: dados e depoimentos expõem racismo no mercado de trabalho

Chatman, que trabalhava transportando peças para as linhas de montagem, conta que os funcionários negros recebiam tarefas mais difíceis e pesadas que os demais. Também era comum que eles cumprissem uma quantidade absurda de horas extras. “Houve uma época em que eu trabalhava três meses seguidos – sem dias de folga”, relembra. Em uma ocasião, quando foi obrigada a realizar sozinha um trabalho projetado para quatro homens, chegou a passar mal e desmaiar.

Monica Chatman

O assédio verbal também era uma realidade diária. Chatman diz que funcionários brancos e latinos faziam uso indiscriminado da n-word para se referir aos negros. Já os asiáticos reproduziam “piadas de frango” para zombar da dieta estereotipadamente associada a eles. Os trabalhadores afro-americanos ainda eram separados do resto, ocupando a “área mais desagradável e desconfortável” da fábrica.

Elon Musk assume Twitter? Planos geram insegurança sobre controle de informação

Romby passou por situações semelhantes a de Chatman. Pouco depois de começar a trabalhar na fábrica içando pacotes de autopeças em empilhadeiras e carrinhos, ela ouviu as primeiras ofensas racistas com o uso da n-word. Mas esse não foi o único tipo de preconceito que sofreu: a ex-funcionária também foi atacada com insultos homofóbicos depois de contar que era casada com outra mulher.

Kimberly Romby

As coisas pioraram quando a dedicação de Romby no trabalho lhe rendeu um prêmio de desempenho. O assédio aumentou e ela foi transferida para uma rota em que precisava levantar até 100 pacotes sozinha, enquanto funcionários não negros faziam o mesmo em pares. A eles também era reservado o direito de descanso durante os períodos de inatividade na fábrica. Já aos negros delegavam a função de “limpeza geral”.

Elon Musk controla um quarto dos satélites que orbitam a Terra e vai lançar milésimo

Jones também viveu um pesadelo enquanto trabalhava monitorando tanques de água destilada na fábrica de Fremont. Logo de início ele percebeu que os supervisores brancos repreendiam trabalhadores latinos, asiáticos e negros de forma agressiva, usando a n-word também para se referir aos últimos. Conversando com outros funcionários afro-americanos, ele foi aconselhado a não fazer reclamações para não ser demitido.

Nigel Jones e a mãe, Rhonda Lockhart

Depois de receber uma promoção, a situação piorou cada vez mais. Por agora ocupar um cargo mais alto, ele acreditou que compareceria às reuniões dos supervisores, mas não foi bem isso que aconteceu. “Eu era jovem e negro e não fui convidado para nada. Fui excluído desde o início”, conta. Suas ideias sobre como melhorar a empresa também nunca foram ouvidas.

O novo chefe era o único que frequentava as reuniões e, em contrapartida, não comunicava novidades para ele. “Parecia que ele estava tentando me fazer parecer ruim, como se não estivéssemos fazendo nada.” Depois disso, o superior chamou ele e dois outros funcionários negros de “preguiçosos” e “macacos”.

Tanto Chatman, quanto Romby e Jones fizeram denúncias ao RH da Tesla, que nunca solucionou nenhum de seus problemas. Pelo contrário: com o desenrolar dos processos internos, Chatman e Jones foram mandados embora da empresa e Romby optou por pedir demissão.

Linha de montagem na fábrica de Fremont, Califórnia.

A Tesla, por sua vez, afirma que nenhum dos três abriu qualquer reclamação sobre racismo. A empresa ainda contestou a veracidade dos fatos, afirmando que as punições que eles receberam foram resultado de mau comportamento no local de trabalho. “A raça não desempenha nenhum papel em nenhuma das atribuições de trabalho, promoções, pagamento ou disciplina da Tesla”, complementam os advogados da companhia.

Qual é o problema de Elon Musk falar que as pirâmides do Egito foram construídas por ETs?

Com certeza um discurso diferente do de Elon Musk, que em certa ocasião afirmou que funcionários vítimas de racismo precisavam ser “casca grossa”. “Ele tem boas ideias. Mas, se você não for um pouco humilde, isso o levará ao caminho errado. Você pode pensar que está fazendo a coisa certa, mas não está”, pensa Jones sobre o CEO da ex-empresa.

Para Elon Musk, funcionários vítimas de racismo precisam ser “casca grossa”.

Publicidade

Foto 1: Becca Farsace/The Verge

Foto 2, 3 e 4: Paul Kuroda/Los Angeles Times

Foto 5: David Butow/Los Angeles Times

Foto 6: Reprodução/NBC News


Roanna Azevedo
Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

Canais Especiais Hypeness