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Jim Morrison previu com precisão o futuro da música em 1969; esse vídeo pode provar

11 • 04 • 2022 às 10:35
Atualizada em 12 • 07 • 2022 às 10:04
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Em uma de suas últimas entrevistas para a seminal revista norte-americana Rolling Stone, o cantor Jim Morrison, líder da histórica banda The Doors, apontou com precisão impressionante o futuro da música no país e no mundo, prevendo de forma quase exata a popularização da música eletrônica e até mesmo o surgimento do que hoje é conhecido como EDM. A “profecia” se deu durante uma série de encontros com o jornalista Jerry Hopkins, ocorridos ao longo de uma semana em Los Angeles, no ano de 1969, e um trecho onde comenta o assunto, em uma das entrevistas, resiste em vídeo, disponível no YouTube – e mostra um Morrison afiado, atento, crítico e desperto, em oposição à imagem letárgica e embriagada que se construiu sobre o artista ao longo das décadas.

Jim Morrison à frente dos Doors no final dos anos 1960

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A aposta na popularização das vertentes eletrônicas da música pop se dá diante de um questionamento a respeito de como o artista via, naquele final de década de 1960, o futuro da música. No vídeo, após localizar as raízes da música dos EUA no blues e no country, e de decretar aquele como um momento de derrocada da novidade que o Rock n’ Roll ainda era, Morrison sugere que algo fortemente baseado em sons e equipamentos eletrônicos e mesmo em fitas surgiria em breve: “Eu posso ver uma pessoa trabalhando com muitas máquinas, fitas, equipamentos eletrônicos, e cantando, ou falando utilizando máquinas”, diz o cantor e compositor, no trecho filmado.

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A atenção de Morrison sobre o uso dos equipamentos eletrônicos no rock e no pop de então não se dava à distância, já que o The Doors foi uma das primeiras bandas populares a utilizar um sintetizador Moog em suas gravações, ajudando a popularizar o equipamento e seu som no período. “Eu vejo um artista sozinho, cheio de fitas e eletrônicos, como uma extensão do sintetizador Moog, um teclado com a complexidade e a riqueza de uma orquestra inteira, sabe? Tem alguém agora, trabalhando em um porão, inventando uma nova forma de música”, ele afirma, no trecho mais impressionante de sua previsão.

Um dos modelos do Moog, o primeiro sintetizador comercializado

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O Moog foi inventado pelo engenheiro estadunidense Robert Moog em 1964, como o primeiro sintetizador comercializado. A entrevista aconteceu no ano da formação, por exemplo, da banda alemã Kraftwerk – que se tornaria um dos pontos de partida fundamentais da música eletrônica na Europa – e alguns anos antes do surgimento da Disco Music, quando o eletrônico se tornaria especialmente popular no mundo inteiro. “Nós vamos ouvir sobre isso em alguns anos, e seja quem for, eu espero que se torne bastante popular, tocando em grandes concertos, e não somente em gravações”, conclui, sempre com precisão irretocável, na entrevista, que aconteceu dois anos antes da morte do cantor.

Morrison ao lado de sua mulher, Pamela Courson

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Vale lembrar que o uso de sonoridades e equipamentos eletrônicos para composições, gravações e apresentações musicais se dá desde o início do século XX. Nomes como do compositor estadunidense John Cage, do russo Leon Theremin – que inventou o incrível instrumento eletrônico batizado com seu sobrenome, e que se toca aproximando e afastando as mãos de antenas, sem jamais encostar no equipamento – e do alemão Karlheinz Stockhausen realizaram verdadeiras revoluções no campo da música clássica e de vanguarda desde os anos 1920 até os anos 1960. A música eletrônica só se tornaria popular e consumida pelo grande público, no entanto, a partir dos anos 1970, no ponto preciso do entendimento de Jim Morrison sobre o futuro da música, estabelecido até hoje. O cantor e compositor do The Doors, no entanto, não viveria para ver sua previsão acontecer, já que morreu em 3 de julho de 1971, em Paris, por um ataque do coração, aos 27 anos.

Detalhe do túmulo de Morrison no cemitério Père Lachaise, em Paris, nos anos 2000

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