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Lygia Fagundes Telles: escritora teria escondido idade e morrido 5 anos mais velha do que o informado

Vitor Paiva - 11/04/2022 às 10:16

O anúncio da morte da grande escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, no último dia 3 de abril, trouxe a público a grandeza e a importância da obra da autora paulista, mas também uma curiosa controvérsia: apesar das primeiras notícias confirmarem sua morte aos 98 anos de idade, a “imortal” ocupante da cadeira 16 na Academia Brasileira de Letras teria, na verdade, morrido aos 103 anos. A correção foi levantada pelo genealogista Daniel Taddone, baseada em uma pesquisa documental a respeito da data de nascimento da autora, sugerindo que a própria Lygia mantinha em anonimato sua verdadeira idade – se for verdade, ela teria nascido não em 1923, mas sim em 1918.

A autora Lygia Fagundes Telles, recentemente falecida - aos 98 ou 103 anos

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Segundo Taddone, nem mesmo a ABL sabia a verdadeira data de nascimento da autora, e aponta a data de 19 de abril de 1923 como nascimento da escritora em seu site, conforme era informada por Lygia. O genealogista informou a descoberta em um post  no Instagram, revelando que a escritora foi registrada quatro dias após seu nascimento, em um cartório no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, no dia 23 de abril de 1918. “Hoje morreu Lygia Fagundes Telles. E sua genealogia nos mostra que a grande escritora guardava um segredo: ela era 5 anos mais velha do que dizia”, diz a legenda do post. “Partiu hoje aos 103 anos e não aos 98 anos como todos os meios de comunicação e até a Academia Brasileira de Letras imaginam”, afirma o texto.

Detalhe da certidão de nascimento da autora paulista encontrada por

Detalhe da certidão de nascimento da autora paulista encontrada por Taddone

Detalhe da certidão de batismo de Lygia

Detalhe da certidão de batismo de Lygia

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Em reportagem de O Globo, o genealogista revelou que encontrou os documentos através de pesquisa no site Family Search, que mantém online um grande acervo de registros e documentos para ajudar famílias a encontrarem a própria história genealógica – a inconsistência foi descoberta a partir de uma pesquisa simples. Procurada pela reportagem, a neta da autora, Lucia Telles, afirmou que sua avó não gostava de comemorar aniversários nem de falar sobre sua própria idade, e não vê maior importância na possível novidade. “Não tinha nem parabéns para ela. Por isso, aqui em casa, não tem importância. Para nós, aqui perto, ela era de 1923 mesmo”, afirmou, na matéria.

Lygia Fagundes Telles em 1945

Lygia Fagundes Telles em 1945

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Seja qual for o motivo de tal “segredo”, se for confirmado que Lygia Fagundes Telles nasceu em 1918 e não em 1923, o “verdadeiro” centenário da autora de clássico terá passado, em 2018, sem qualquer comemoração oficial. Apesar de lamentar o fato, quando procurada pela matéria de O Globo, a autora Nélida Piñon, também imortal da ABL e amiga de Lygia, respeitou o que considerou uma determinação da escritora. “A pesquisa genealógica muitas vezes revela dados e fatos escondidos há décadas. A análise dos registros de fonte primária pode desafiar nossas crenças”, concluiu a legenda do post de Taddone. “Quem nunca desvendou alguns segredinhos com o auxílio da genealogia?”.

A escritora em 2017, na Academia Paulista de Letras

A escritora em 2017, na Academia Paulista de Letras

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© foto 1: Divulgação/Flima

© fotos 2, 3: Reprodução/Daniel Taddone

© fotos 4, 5: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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