Arte

Marguerite Zorach, a pioneira do modernismo nos EUA que foi esquecida pelo tempo

Vitor Paiva - 01/04/2022 às 15:17 | Atualizada em 05/04/2022 às 10:34

Na imensa lista de grandes artistas mulheres injustamente esquecidas ao longo das décadas, o nome da pintora, desenhista e artista têxtil Marguerite Zorach se destaca na história da arte dos EUA. Considerada pioneira como um dos primeiros expoentes do modernismo no país, Marguerite é reconhecida como uma das inventoras do movimento em seu desdobramento estadunidense: apesar de sua memória ser um tanto eclipsada pelo reconhecimento dado ao trabalho de seu marido, o escultor William Zorach, ela se destacava, no início do século passado, pela luz própria de sua obra, utilizando as cores vibrantes dos Fauvistas franceses, e as formas desafiadoras e radicais do Cubismo que ela havia conhecido de perto – e importado para os EUA na bagagem de seu imenso talento.

"Half Dome, Yosemite Valley, California", quadro de 1920

“Half Dome, Yosemite Valley, California”, quadro de 1920

A pintora e artista têxtil Marguerite Zorach em seu ateliê

A pintora e artista têxtil Marguerite Zorach em seu ateliê

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Tendo começado a desenhar muito cedo e filha de uma família de classe média, Marguerite ingressou como parte de um pequeno grupo de mulheres na Universidade de Stanford, em 1908 mas, ao invés de concluir os estudos, ela decidiu viajar para Paris, a convite de sua tia, no início da década de 1910. Foi na capital francesa que entrou em contato com os artistas Fauvistas, e de lá saiu em verdadeira excursão, visitando diversos cantos da África e da Ásia. Zorach voltou aos EUA em 1912, carregando a influência do mundo – e das principais vanguardas de então, tendo convivido em Paris com Picasso, Gertrude Stein, Henri Rosseau e Matisse, entre outros – para dentro de seu trabalho, e para a vagarosa cena das artes plásticas estadunidenses de então.

"Memories of my California childhood", de 1921

“Memories of my California childhood”, de 1921

"Man among the redwoods", quadro de 1912

“Man among the redwoods”, quadro de 1912

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Na volta, Marguerite não somente começou a expor e causar furor entre os artistas, como também se casou com William Zorach – e o casal imediatamente passou a trabalhar juntos. A casa da família se tornou o centro do pós-impressionismo no Greenwich Village, em Nova York, por volta de 1917, e a artista se tornaria presidente da Sociedade de Artistas Mulheres de Nova York nos anos 1920. No mesmo ano, seu trabalho seria especialmente reconhecido através da Medalha Logan de Artes que Marguerite recebeu por seu trabalho com pintura, mas não somente: a essa altura ela também já trabalhava destacadamente com tecidos e com arte têxtil.

Obra têxtil de Zorach

Obra têxtil de Zorach

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O sucesso à época foi grande, e por muito tempo foram as vendas das peças em tecido da artista que sustentaram a vida da família, apesar da resposta da crítica ter sido moderada. Hoje a obra de Marguerite Zorach é celebrada pelo pioneirismo em estilo e pela coragem, pela inovação e pelos temas femininos que explorava. A artista permaneceu prolífica até o fim da sua vida, mas seu reconhecimento realmente floresceu especialmente após sua morte, em 1968, aos 80 anos: hoje muitos historiadores de arte a apontam como a primeira mulher artista da Califórnia, e uma das artistas fundadoras do modernismo nos EUA.

O estilo modernista que Zorach trouxe da Europa também foi para suas peças têxteis

O estilo modernista que Zorach trouxe da Europa também foi para suas peças em tecido

"Semi-abstract Floral Design", de 1919

“Semi-abstract Floral Design”, de 1919

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© fotos: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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