Inspiração

O adeus a George Montague, o mais antigo militante LGBTQIA+ da Inglaterra, aos 98 anos

Vitor Paiva - 01/04/2022 às 15:18 | Atualizada em 05/04/2022 às 10:36

A história da vida do escritor e militante britânico George Montague se mistura com a própria história da luta pelos direitos LGBTQI+ na Inglaterra: falecido no último dia 18 de março, aos 98 anos, George referia-se a si mesmo como “o gay mais velho da cidade”, mas era principalmente conhecido como um incansável, alegre e justo homem de luta, que se dedicou a combater as desigualdades e injustiças que foram impostas contra ele e tantos mais, e a militar pelos direitos da comunidade até seu último dia de vida. Nascido em 1923, George era presença infalível na parada LGBTQIA+ anual da cidade de Brighton, na Inglaterra, mas sua luta pública começou em 1974, quando foi preso por atos de “indecência com outro homem”, em processo que tirou tudo que ele havia construído em sua vida até ali.

George Montague vestindo suas medalhas em uma manifestação

George Montague vestindo suas medalhas em uma manifestação

George Montague

“Eu sou o gay mais velho da cidade”: Montague em sua scooter durante uma parada em Brighton

-Como a revolta de Stonewall, em 1969, empoderou o ativismo LGBT para sempre

Qualquer “prática” homossexual era considerada crime no Reino Unido até 1967, mas, após a mudança na lei que derrubou a criminalização, a perseguição passou a ser realizada ou mesmo agravada através de legislações homofóbicas anteriores – como a de “indecência grosseira com outro homem”, aprovada em 1885, e que serviu para prender Montague quase um século depois, em 1974. Após ser liberado mediante pagamento de multa, George foi obrigado a se afastar de seu emprego com os escoteiros, à época atuando principalmente na ajuda de crianças deficientes. A lei que o puniu foi a mesma que levou o escritor Oscar Wilde a dois anos de prisão com trabalhos forçados, em 1895, e à castração química em 1952 de Alan Turing, o matemático considerado o inventor do computador e que ajudou a derrotar os nazistas decifrando mensagens codificadas.

George Montague

George Montague jovem, enquanto estava no exército

Com sua esposa e seus três filhos

Com sua esposa e seus três filhos, antes de tornar pública sua homossexualidade

-Alan Turing sofreu castração e foi proibido de entrar nos EUA por ser homossexual

Estima-se que mais de 15 mil pessoas tenham sido presas através da lei após a descriminalização da homossexualidade no país – a prerrogativa de “indecência grosseira” só seria extinta de fato em 2003. George Montague assumiu sua homossexualidade publicamente na década de 1980, após um casamento de 22 anos através do qual nasceram seus três filhos – quando “saiu do armário”, porém, ele se tornou um dos mais ativos e orgulhosos militantes da causa: quando a lei Alan Turing ofereceu indulto a todas as pessoas condenadas injustamente, ele entendeu que a declaração de inocência era pouco, e que o governo tinha de pedir desculpas. “Fui preso e processado por uma polícia homofóbica, ajudada por provocadores e a imprensa, da mesma forma que outros 49.000 britânicos com antecedentes criminais”, escreveu, em uma carta à primeira-ministra Theresa May.

Montague

Montague em campanha pelo pedido de desculpas pela prisão que sofreu

Montague

Aos 96 anos, durante mais uma parada LGBTQIA+ na Inglaterra

-A resposta de Freud à mãe que, em 1935, lhe pediu que curasse seu filho homossexual

Eis que, em 2017, sua exigência foi enfim acatada, e um pedido oficial de desculpas foi emitido a ele pelo governo britânico, no que apontou como sendo o dia mais feliz de sua vida. Todo ano George era um dos destaque da parada LGBTQIA+ em Brighton, que ele percorria com sua scooter e um cartaz que o identificava como o “gay mais velho da cidade”. Casado desde 2015 com Somchai Phukkhlai, com quem viveu até o fim, George deixou um tocante comunicado em suas redes sociais, se despedindo, alguns dias antes de falecer. “Caros amigos e companheiros, George deseja dizer adeus. Ele agradece a todos que o ajudaram em sua luta, e espera que possa ter contribuído para ajudar um pouco a todos nós vivermos em um mundo melhor. Por favor, que todo mundo continue bons trabalhos para boas causas. Agora irei dormir, adeus. George 98”.

Ao lado de seu marido, Somchai Phukkhlai

Ao lado de seu marido, Somchai Phukkhlai, com quem viveu até seus últimos dias

George Montague

A última foto postada por George Montague, ao lado de seu livro, e de mãos dadas com seu marido

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© fotos: George Montague/Facebook


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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