Inspiração

‘Os Simpsons’ trazem ator surdo e personagem se comunicando em sinais pela primeira vez na história

Vitor Paiva - 29/04/2022 às 16:39 | Atualizada em 03/05/2022 às 09:59

Pela primeira vez em seus 33 anos no ar, o desenho animado Os Simpsons trouxe um ator surdo ao elenco, para dublar um personagem que também utiliza, no desenho, a linguagem dos sinais para se comunicar. Intitulado “The Sound of Bleeding Gums”, o 723º episódio fez história indo ao ar nos EUA no domingo, dia 10 de abril, e contou com o trabalho de especialistas em linguagem de sinais para garantir que todas as palavras estivessem corretas e inteligíveis, apesar dos personagens na animação possuírem quatro dedos nas mãos. “Foi um pouco complicado, especialmente porque o que estávamos traduzindo é Shakespeare”, afirmou, em entrevista, a roteirista Loni Steele Sosthand. “Mas eu acho que a gente conseguiu”.

O encontro entre LIsa e o personagem Monk Murphy, que na imagem usa seu aparelho auditivo

O encontro entre LIsa e o personagem Monk Murphy, que na imagem usa seu aparelho auditivo

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O enredo do episódio especial se deu ao redor de Lisa Simpson – mais especialmente, de sua paixão pelo jazz. Na história, Lisa descobre que seu saxofonista preferido, Bleeding Gums Murphy – que morreu na sexta temporada do desenho, em 1995 – tem um filho que é surdo, chamado Monk Murphy, e que está tentando realizar um implante coclear. Ela então não somente conhece o filho de seu grande ídolo na música, como busca ajudá-lo a conseguir o implante que precisa. “É muito difícil fazer um ‘primeiro’ depois de 722 episódios, mas eu não poderia estar mais animado”, afirmou Al Jean, produtor executivo dos Simpsons.

Bleeding Gums Murphy

Monk, ainda bebê, no colo de seu pai, Bleeding Gums Murphy, saxofonista preferido de Lisa

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O personagem Monk Murphy foi dublado pelo ator John Autry II, que é surdo, e que já participou de séries como “Glee” e “No Ordinary Family”, mas que afirmou que a participação nos Simpsons foi uma mudança em sua carreira. “Trata-se de personagens com deficiência auditiva e audição se unindo”, ele disse. “Faz parte da história”. O episódio também contou com a participação de três crianças da ONG No Limits, dedicada às crianças surdas, que cantaram “Happy Talk”, música do canal “South Pacific”, no encerramento. “A música diz: ‘Se você não tem um sonho, como você vai realizar um sonho.’ Enquanto os assistia gravar, eu tinha lágrimas nos olhos o tempo todo, percebendo que isso é um sonho tornado realidade para todos nós”, afirmou Sosthand.

O ator John Autry II, que dublou o personagem Monk no episódio histórico

O ator John Autry II, que dublou o personagem Monk no episódio histórico

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Se o mais recente episódio da série de TV e do desenho animado de maior duração da história dos EUA levantou uma importante mensagem para todos, a emoção da autora possui também um valor pessoal, já que, segundo revelou, o roteiro foi livremente inspirado em sua própria família: o irmão de Sosthand, Eli, é deficiente auditivo, e nasceu em uma casa que adora jazz. “Ter um irmão, que é apenas um ano mais velho, que nasceu surdo, realmente moldou quem eu sou como pessoa. Portanto, é uma história não apenas próxima ao meu coração, mas à minha identidade”, ela afirmou. O episódio foi exibido pouco tempo após o filme CODA, também baseado na relação de um contexto de surdez com a música, vencer o Oscar de Melhor Filme, no final de março, mas os produtores afirmaram que a aproximação se trata de uma feliz coincidência, e que o desenho já vinha sendo produzido.

Lisa dançando ao som de Bleeding Gums Murphy

Lisa dançando ao som de Bleeding Gums Murphy

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© fotos 1, 2, 4:Reprodução/Fox/20th Television

© foto 3: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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