Ciência

Pandemia e endemia: qual a diferença e o que dizem os especialistas?

Vitor Paiva - 05/04/2022 às 10:10 | Atualizada em 06/04/2022 às 18:37

Qual a diferença entre pandemia e endemia? E como uma eventual mudança na classificação da Covid-19 pode afetar nossas vidas? Essas questões essenciais atualmente movimentam o debate público, político e sanitário, em todo o mundo – e também no Brasil. No dia 11 de março de 2020, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou a Covid-19 como uma pandemia: hoje, passados mais de 2 anos, quase 500 milhões de casos e mais de 6 milhões de mortes, aos poucos o mundo debate, diante de uma melhora considerável no quadro da doença a partir das medidas de segurança e da vacinação, a hipótese de oficialmente rebaixar a Covid-19 à condição de endemia. Mas qual é, afinal, essa diferença? E o que dizem os especialistas?

mulher com máscara

A pandemia já dura mais de 2 anos, e o debate sobre seu fim se dá em todo o mundo

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Uma pandemia, por definição, se dá quando uma doença passa a se disseminar em escala mundial, afetando uma grande quantidade de pessoas simultaneamente em diversos países e continentes – e não restrita a somente um grupo ou região. No momento em que a OMS decretou a classificação da atual pandemia, a Covid-19 já estava espalhada por 114 países com mais de 118 mil casos confirmados, representando uma disseminação geográfica veloz em um curto espaço de tempo. No Brasil, o pico da pandemia se deu no dia 6 de abril de 2021, quando 4.211 mortes foram oficialmente registradas em um único dia: a média móvel então era de mais de 3 mil óbitos. Atualmente, a média móvel está na casa dos 200 óbitos, e em tendência de queda – assim como os casos – desde fevereiro.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, anunciando a pandemia em março

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, anunciando a pandemia em março de 2020

-‘Vai ter uma nova pandemia’, diz diretora adjunta da OMS

Uma doença é considerada endêmica quando se torna permanente, sem indícios de que pode chegar a ser extinta, porém sem aumentos significativos. Com a consolidação aparente de um melhor quadro e uma tendência de estabilidade de tal melhoria, a obrigatoriedade do uso de máscaras e outras determinações de segurança vêm sendo relaxadas em diversas cidades brasileiras e países do mundo, e o debate sobre classificar a Covid-19 como uma endemia se tornou recorrente. Em resumo, a mudança representa reconhecer que a Covid-19 não vai mais desaparecer, mas que está sob controle. Com isso, por exemplo, as medidas de segurança só voltariam a se tornar obrigatórias no caso de novos surtos ou aumentos consideráveis da doença.

vacinação

A vacinação em massa foi determinante para a melhoria nos números da Covid no mundo

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O atual governo federal vem pressionando o Ministério da Saúde para rebaixar a Covid-19 para uma endemia e poder, assim, anunciar o suposto “fim” da pandemia no Brasil. Mais do que uma simples afirmação política, tal mudança influenciará, por exemplo, a validade de autorizações de emergência a vacinas e remédios: a CoronaVac e a Janssen, por serem autorizadas sob uso emergencial, podem ter seus usos suspensos no país. Outras normas também podem se tornar inválidas, como medidas de vigilância epidemiológica e de testagem em massa – ampliando o risco, dessa forma, de justamente piorar a tendência positiva atual na situação da doença no país e no mundo.

Marcelo Queiroga, atual ministro da saúde do Brasil, afirmou que não irá decretar endemia agora

Marcelo Queiroga, atual ministro da saúde do Brasil, afirmou que não irá decretar endemia agora

-Do coronavírus à gripe espanhola: as maiores pandemias da humanidade

Segundo o ministro da saúde atual, Marcelo Queiroga, o rebaixamento no Brasil não acontecerá agora nem será feita de forma apressada ou imprudente. A maioria absoluta dos especialistas concorda que é cedo para determinar o fim da pandemia – e que tais pressões tem origem econômica e política, e não sanitárias, e podem representar um tiro no pé. A posição mais recorrente, para os próximos anos, é de uma política flutuante, de acordo com o quadro eventual – de maior ou menor restrição e obrigatoriedade de uso de máscaras ou de apresentação de comprovante vacinal, por exemplo, de acordo com os números da doença no momento. Vale lembrar que só quem pode oficial e cientificamente decretar o fim da pandemia é a OMS, que afirmou, em março, que, apesar da melhoria no quadro geral, a pandemia ainda está “longe de terminar”.

Uma endemia representa uma condição permanente e estável de uma doença

Uma endemia representa uma condição permanente e estável de uma doença

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© fotos 1, 2, 3, 5: Getty Images

© foto 4: Ministério da Saúde/Flickr/CC


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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